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O mapa da violência que o Brasil ainda não leu e o perigo do discurso com soluções genéricas

O Brasil oficial, aquele dos políticos de Brasília, trava mais uma batalha campal nas eleições majoritárias deste ano. Paralelamente, a realidade desenhada pela análise e pesquisa das estatísticas oficiais deixa claro que um dos motivos do país continuar patinando no combate à violência é a insistência de governantes em ignorar a geografia e a assimetria do crime.

Enquanto a persistir a fórmula de remédios genéricos para problemas localizados, o país tende a continuar vivendo na contradição entre os números oficiais de criminalidade que podem estar em queda enquanto a sensação de insegurança geral aumenta.

Por exemplo: o Brasil atingiu sua menor taxa histórica de homicídios registrados, fixando-se em 20,1 mortes por 100 mil habitantes —  é o que revela a edição mais recente do Atlas da Violência, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em conjunto com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) publicado no final do mês de maio.

“Apesar da melhora na taxa de homicídios estimados, que caiu 26,9% nos 11 anos analisados desde 2024, o debate nacional sobre a criminalidade e a percepção de insegurança da população seguiram caminhos contrários, como várias pesquisas de opinião têm mostrado”, afirmam os pesquisadores no Atlas da Violência deste ano.

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Características distintas do crime interferem no combate à violência no Brasil

O grande erro de uma análise homogênea é tratar o Brasil como se o crime estivesse no mesmo estágio em todos os lugares. Os dados dos últimos anos mostram uma clara descentralização da violência extrema.

A violência urbana migrou. Capitais que antes eram o epicentro do medo hoje mostram estabilização ou queda nos índices de homicídio e piora em determinados tipos de crimes contra o patrimônio, como o roubo de celulares, enquanto cidades de médio porte no interior explodem em índices de criminalidade violenta.

Para um candidato desatento ou focado puramente no marketing eleitoral, os números isolados podem sugerir soluções erradas. O próprio relatório técnico faz um alerta: há um crescimento vertiginoso das Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI) — os chamados “homicídios ocultos” —, que subiram mais de 23% em apenas um ano, entre 2023 e 2024. Isso significa que o Estado está perdendo a capacidade de classificar quem e por que se morre no país.

Mais do que isso, essa redução geral esconde abismos regionais dramáticos.  Enquanto o Sul e Sudeste experimentam reduções consolidadas na letalidade de forma continuada desde o final dos anos 1990, puxando a queda na média nacional, estados do Norte e Nordeste como Roraima, Rondônia, Ceará, Pernambuco e Bahia, viram a coisa piorar ou se manter praticamente inalterada e lideram os rankings de violência letal.

Em 2024, 18 estados apresentaram taxa de homicídios acima da média nacional. Os maiores indicadores foram observados nos seguintes estados:

  • Amapá (45,7)
  • Bahia (40,9)
  • Pernambuco (37,3)
  • Alagoas (35,9)
  • Ceará (34,3).

Na outra ponta, os menores níveis de violência letal foram registrados em:

  • São Paulo (6,6)
  • Santa Catarina (8,1)
  • Distrito Federal (10,3)
  • Minas Gerais (12,8)
  • Rio Grande do Sul (15,2).

Mortes violentas migram para o interior do país

Os homicídios, antes concentrados nas grandes cidades, migraram para o interior do país e hoje centenas de municípios de pequeno e médio porte ostentam taxas de homicídios iguais ou superiores a 50 por 100 mil habitantes, mais que o dobro da média nacional, mostra a evolução das estatísticas — emparedando prefeitos e governadores por soluções concretas.

O debate político nacional focado nas grandes regiões metropolitanas e fações criminosas ignora que o interior do país virou a nova fronteira da violência promovida pelo crime organizado das facções. Em todo o Brasil, existem nada menos que 88 facções criminosas espalhadas por todos os estados — inclusive nas regiões de fronteira e na Floresta Amazônica. É o que revela levantamento sigiloso da Diretoria de Inteligência Penitenciária da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen) do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

O interior do país virou a nova fronteira da violência promovida pelo crime organizado das facções.

Essa desconexão entre o discurso político e a realidade prática se agrava quando descemos aos crimes patrimoniais do cotidiano urbano, aqueles que verdadeiramente moldam a “sensação de insegurança” do cidadão comum. O roubo de veículos, por exemplo, exige uma cadeia logística sofisticada — desmanches estruturados, clonagem e receptação de grande escala —, concentrando-se pesadamente nos grandes eixos macroeconômicos do Sul e Sudeste.

Por outro lado, a epidemia de roubos e furtos de celulares pulverizou-se democrática e cruelmente por todas as regiões brasileiras. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, atualizado com dados consolidados de 2025, o Brasil registra uma média de 2,5 mil celulares roubados ou furtados por dia, o que equivale a quase 1 milhão de ocorrências anuais.

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Mosaico complexo de fraturas sociais exige enfrentamento com inteligência, municipalização e respostas sob medida

Às vésperas das eleições, o Congresso Nacional e o governo Lula têm corrido para apresentar respostas que caibam no formato de “soluções nacionais”, como a PEC da Segurança Pública ou novos marcos legais de combate às facções. Embora a coordenação federativa seja urgente e necessária, o perigo reside na centralização de políticas repressivas padronizadas.

O crime que sufoca o interior da Bahia, disputado quadra a quadra por facções locais, não se resolve com a mesma cartilha usada para combater o furto de celulares na Avenida Paulista ou a violência doméstica em um condomínio de classe média no Rio de Janeiro, por exemplo.

Se os candidatos insistirem em nacionalizar e internacionalizar o debate da segurança pública por meio de slogans vazios, soluções genéricas e polarização ideológica, o eleitor continuará consumindo uma ilusão estatística. O Brasil real precisa urgentemente ler o seu mapa da violência como um mosaico complexo de fraturas sociais que exigem inteligência, municipalização e respostas sob medida. Caso contrário, as urnas passarão, os discursos serão esquecidos, e o país continuará contando corpos e um enorme prejuízo de forma indeterminada.

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