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Descoberta surpreendente liga vikings a João Batista séculos antes do esperado

Uma moeda de ouro com inscrições cristãs, de cerca de 1200 anos, foi encontrada por um detectorista amador no condado de Norfolk, na Inglaterra – e o que ela carrega na superfície está desafiando o que historiadores acreditavam saber sobre os vikings e sua relação com o cristianismo.

A peça data do final do século IX, provavelmente entre 860 e 870 d.C., um período crítico, quando os vikings acabavam de conquistar o reino da Ânglia Oriental, no leste da Inglaterra, e começavam a consolidar seu domínio sobre a região.

A descoberta chama atenção porque os vikings daquela época, ao menos na visão tradicional da historiografia, eram pagãos: adoradores de Odin e Thor, não de santos cristãos.

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O que está gravado na moeda viking?

De um lado, o objeto mostra o rosto barbado de um homem com a inscrição latina “IOAN”, abreviação de João. No verso, fragmentos de texto traduzidos por especialistas indicam as palavras “Batista e Evangelista”, sugerindo que a figura representada seria João Batista, o primo de Jesus e aquele que, segundo a Bíblia, o batizou no rio Jordão.

Segundo o historiador de moedas, Dr. Simon Coupland, da Universidade de Cambridge, a descoberta é tão rara quanto desconcertante. Ele afirmou à BBC que nunca havia visto uma peça do período carolíngio com a imagem de João Batista, o que torna o achado uma anomalia simbólica e teológica.

Não é só o rosto do santo que chama atenção. A análise metalúrgica confirmou que se trata de uma imitação de um sólido de ouro, moeda comum no Império Carolíngio, mas adaptada com um toque escandinavo. E, diferentemente do padrão da época, em que moedas europeias exibiam retratos de reis e imperadores, este exemplar tem um santo como protagonista.

Por que a descoberta da moeda viking é tão surpreendente?

Segundo especialistas, esse tipo de moeda era tipicamente cunhada por escandinavos e, nessa época, eles ainda não eram cristãos. A conversão oficial dos povos nórdicos ao cristianismo costuma ser datada décadas depois. Isso que torna a presença da imagem de João Batista numa peça de origem viking algo inesperado.

Os estudiosos afirmam ainda que a peça foi usada como amuleto ou adorno, e não apenas como moeda corrente. O fato reforça a ideia de que seu valor poderia ser simbólico, espiritual ou até político, refletindo um período de transição cultural na Inglaterra ocupada pelos vikings.

As hipóteses que tentam explicar o mistério na moeda viking

Ainda não há um consenso sobre o porquê da figura de João Batista ser retratada na moeda, mas algumas teorias ganham força. Uma possibilidade é que os vikings tenham adotado a iconografia cristã como parte de um esforço mais amplo para se integrarem à população predominantemente cristã da Ânglia Oriental.

Outra possibilidade é que o pingente pode ter pertencido a um cristão local que vivia sob o domínio viking. Uma hipótese mais provocadora é a de que alguns vikings podem já ter se convertido ao cristianismo mais cedo do que se acredita.

Fragmentos de texto traduzidos por especialistas indicam as palavras “Batista e Evangelista”, sugerindo que a figura representada na moeda Viking seria João Batista. (Foto: Wikimedia Commons )

Para um viking, a figura de João Batista poderia ser interpretada como um amuleto de proteção ou apenas um design exótico que demonstrava que o dono possuía conexões com terras distantes.

O contato constante com os saxões e viagens ao Império Bizantino também podem ter introduzido símbolos cristãos no cotidiano nórdico antes do previsto.

O que ainda está em aberto após a descoberta?

Atualmente, o objeto passa por processos legais sob o Treasure Act de 1996 do Reino Unido, aguardando estudos laboratoriais mais aprofundados. O artefato está sendo analisado por especialistas para determinar se é um tesouro. Se confirmado, o Museu do Castelo de Norwich ficará com a peça.

Entretanto, muitas perguntas sobre a moeda permanecem sem respostas. Não se sabe o motivo de ela retratar João Batista, ou quem a criou. O que ela representa, porém, já é suficiente para levantar questões: será que, em vez de uma divisão rígida entre invasores pagãos e habitantes locais cristãos, tivemos uma mistura mais fluida de crenças e identidades?

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