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“Psy-ops”: o que é real sobre a manipulação psicológica por parte dos governos

Desde que Donald Trump mandou o Departamento de Guerra divulgar material sigiloso sobre OVNIS, o interesse do público no assunto só cresceu. Um novo filme de Steven Spielberg trata de um fictício dia da revelação, em que a existência de alienígenas é finalmente admitida diante da sociedade. E, a milhares de quilômetros do cineasta, um influenciador do Paraná multiplicou seus seguidores ao publicar um relato sobre a suposta vinda de uma espaçonave ao Brasil. Em poucos meses, o tema saiu dos arquivos do Pentágono e chegou ao feed de quem nunca tinha pensado no assunto.

A divulgação pelo governo Trump começou em fevereiro. O governo montou um site e despejou ali relatórios, fotografias e gigabytes de vídeo, e o presidente anunciou que o povo americano poderia enfim decidir por conta própria o que estava acontecendo. Em maio veio um segundo lote, com 222 documentos. Entre eles, 116 páginas sobre esferas verdes e bolas de fogo avistadas numa base secreta do Novo México entre 1948 e 1950, e um vídeo de caça F-18 com um objeto que acelerava de forma instantânea.

O secretário de Defesa, Pete Hegseth, disse que décadas de sigilo haviam alimentado teorias e desconfiança, e que a abertura era um gesto de transparência. Só que, no mesmo pacote, o governo repetia o que afirmava desde 2024, que não há nenhuma evidência de seres ou tecnologia extraterrestre. A maior parte das imagens estava em preto e branco e em baixa resolução. A transparência radical e a ausência de qualquer prova chegaram juntas.

A pergunta que sobra não é se as naves existem, e sim por que tanta gente quis acreditar que sim. A resposta passa por uma tática que os próprios Estados Unidos descrevem em um manual divulgado amplamente.

O nome que ninguém consegue pronunciar

Desde 2014, o governo norte-americano distribuiu às suas forças um manual que ensina como influenciar o que uma população estrangeira pensa e sente. Chama-se Joint Publication 3-13.2e descreve uma atividade batizada de MISO (Operações de Apoio à Informação Militar, na sigla em inglês). Até 2010 o nome era outro, mais direto: Psychological Operations (Operações Psicológicas), as famosas psy-ops dos filmes e séries de ficção científica. Segundo a Fox News, o Pentágono trocou o rótulo porque o antigo, segundo um porta-voz das Forças Especiais, assustava as pessoas com seu tom conspiratório.

Independentemente do nome oficial da tática, o manual não esconde o que faz. O documento define como deve ser o planejamento de operações para influenciar as emoções e o comportamento de públicos estrangeiros. No arquivo, existe até um formulário, com um campo chamado “plano de atribuição”, em que se decide se o público vai saber quem está por trás da mensagem na hora, depois ou nunca. Ou seja, a guerra psicológica não é boato de fundo de bar. É uma disciplina militar, com doutrina, orçamento e cadeia de comando.

A regra básica das psy-ops é simples: a mensagem só funciona quando há força real por trás dela. O Vietnã mostrou isso em números. Em 1971, os norte-americanos espalharam panfletos chamando os guerrilheiros inimigos a desertar. A oferta nunca falava em rendição, falava em perdão e em voltar para casa. Mas os panfletos chegavam junto com os bombardeios. Nos dois meses em que a propaganda andou lado a lado com a artilharia, 1.150 guerrilheiros desertaram. Antes das operações psicológicas, foram só 211. O caso é relatado pelo tenente-coronel Philip P. Katz no livro Psychological Operations, que reúne ensaios de militares das Forças dos EUA sobre o uso da tática.

Heavy metal e Bart Simpson nas cabeças

A segunda regra é a credibilidade. Quem é pego mentindo perde o público para sempre. Dois episódios mostram os dois lados disso. Em 1989, os Estados Unidos invadiram o Panamá para derrubar o ditador Manuel Noriega, que se escondeu na embaixada do Vaticano, onde as tropas não podiam entrar. A saída foi instalar alto-falantes na frente do prédio e tocar heavy metal no volume máximo, dia e noite, até o homem não aguentar.

Dois anos depois, no Golfo, o lado iraquiano tentou o contrário e fracassou. Para desmoralizar os soldados americanos, espalhou que as esposas deles estavam saindo com astros de cinema, inclusive o personagem Bart Simpson. A mentira era tão grosseira que ninguém levou a sério, e a propaganda iraquiana perdeu credibilidade de uma vez.

Os americanos faziam o oposto. Na invasão do Iraque, em 1991, despejaram 29 milhões de panfletos sobre as tropas inimigas. Pelo rádio, avisavam que tal posição seria bombardeada no dia seguinte. No dia seguinte, bombardeavam. A repetição ensinou o soldado iraquiano a confiar naquela voz, e setenta por cento dos prisioneiros disseram depois que as mensagens pesaram na decisão de se render.

O disco voador como camuflagem

Os OVNIS também já serviram a esse jogo, e quem conta é a própria CIA. Um documento sigiloso desclassificado pela agência explica que, nos anos 1950, os relatos de discos voadores dispararam justamente quando os aviões espiões U-2 começaram a voar a alturas que ninguém imaginava possíveis. As asas prateadas refletiam o sol já posto e brilhavam como fogo no céu para quem olhava de baixo. A CIA admite que esses voos secretos explicam mais da metade dos relatos de OVNIS do fim dos anos 1950 e da maior parte dos anos 1960. O disco voador era, na verdade, um avião que ninguém podia ver.

E não ficou no passado. Em 2024, uma investigação do próprio Pentágono, revelada pelo Wall Street Journal, mostrou que um coronel da Força Aérea distribuiu fotos falsas de discos voadores perto da Área 51, nos anos 1980, para desviar a atenção de um caça secreto em teste. A lenda do disco voador, quase sempre, nunca tratou de disco voador.

O alvo sempre foi o mesmo

A tentação, diante de uma divulgação como a de fevereiro, é procurar alguém manipulando a opinião pública em segredo. Nas redes sociais, acusam o próprio Spielberg de estar colaborando com uma nova psy-op dos EUA. Mas a própria história das operações psicológicas sugere uma conclusão menos confortável. Seu sucesso nunca dependeu apenas da habilidade de quem produzia a mensagem. Dependia, sobretudo, de uma característica permanente da natureza humana, a tendência a buscar confirmação para aquilo em que já se quer acreditar. As psy-ops revelam o quanto uma população é suscetível quando uma narrativa encontra o terreno preparado.

O soldado rendido por um panfleto, o boato de OVNI no Paraná e o arquivo desclassificado que rende manchete no mundo inteiro têm em comum não o alienígena, mas o mecanismo. Em todos esses episódios, alguém tinha algo a ganhar com aquilo que os outros passaram a acreditar.

O que mudou foi a velocidade. O avião prateado dos anos 1950 levava semanas para virar carta ao Pentágono; um vídeo divulgado hoje vira fenômeno mundial em horas, repassado por milhões de pessoas que nunca abriram o documento oficial. O manual MISO precisava de sete fases e uma cadeia de aprovação para mexer no comportamento de um público inteiro, e hoje as redes sociais fazem o serviço de graça, sem programa, sem atribuição, sem ninguém no comando e com um alcance que nenhum panfleto sonhou.

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