No tabuleiro das eleições gerais deste ano, o debate sobre a segurança pública rompe as barreiras urbanas, toma conta do país e alcança as fronteiras que delimitam o território nacional. A imensa extensão da fronteira terrestre brasileira — superior a 16 mil quilômetros, cortando 11 estados e fazendo divisa com 10 países — há muito tempo tornou-se um dos elementos centrais da crise de segurança interna.
O crime que assusta o eleitor nas grandes cidades, sob a forma de roubos, furtos, homicídios e domínio territorial por facções, tem boa parte de sua origem na fragilidade da fiscalização transfronteiriça. Diante disso, a vulnerabilidade das fronteiras se converte em uma pauta obrigatória de disputa política, tensionando discursos entre a soberania nacional, a cooperação diplomática e a urgência de investimentos em tecnologia e inteligência.
(Esta reportagem faz parte da série Brasil Seguro, que examina erros em políticas de segurança pública e traz exemplos do que fazer para assegurar a autoridade da lei. Confira aqui os outros textos da série.)
A faixa de fronteira engloba quase 600 municípios brasileiros e abriga cerca de 11 milhões de pessoas. Em época de eleição, candidatos a todos os cargos utilizam a porosidade dessas divisas como munição argumentativa para suas campanhas.
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MS tem uma das faixas de fronteira mais desafiadoras da América do Sul
No plano regional, alguns estados estão mais expostos do que outros. O Mato Grosso do Sul divide com o Paraguai e a Bolívia uma das faixas de fronteira mais desafiadoras da América do Sul. Com mais de 1,5 mil quilômetros de divisas, o estado abriga o principal corredor logístico para a entrada de maconha, cocaína e armas de grosso calibre no território brasileiro.
Cidades-gêmeas como Ponta Porã e a vizinha Pedro Juan Caballero, no Paraguai, exemplificam a chamada “fronteira seca”, onde uma avenida separa os dois países, tornando a fiscalização física tradicional virtualmente inútil. Por ali passa a “Rota Caipira” do tráfico internacional com destino às metrópoles, sobretudo as do Sudeste, e os portos de Santos, no litoral paulista, e Paranaguá, no litoral do Paraná. Trata-se da rota de entrada de entorpecentes mais antiga do país.
Atento à relevância do tema no debate eleitoral, o governador em busca de reeleição Eduardo Riedel (PP) tem focado discurso, recursos e grandes operações de combate ao crime organizado justamente na faixa de fronteira do estado com países vizinhos. Riedel lidera as intenções de voto com mais de 20 pontos percentuais de vantagem para Fábio Trad (PT), segundo pesquisa eleitoral divulgada pelo instituto Real Time Big Data em 12 de maio.
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Pistas clandestinas despejam pasta-base de cocaína no MT
Por sua vez, Mato Grosso compartilha cerca de 980 quilômetros de fronteira com a Bolívia, país que se consolidou como um dos maiores produtores mundiais de cocaína. A dinâmica mato-grossense ganhou contornos dramáticos com a ascensão dos chamados “voos caipiras” — pequenas aeronaves que utilizam pistas clandestinas em fazendas da região para despejar pasta-base de cocaína diretamente no coração do Centro-Oeste.
De acordo com levantamento do Fórum de Segurança Pública em parceria com o Instituto Mãe Crioula divulgado em novembro de 2025, Mato Grosso possui 92 das 142 cidades dominadas por facções criminosas, notoriamente o Comando Vermelho (CV). Isso equivale a 65% dos municípios do estado, o que acrescenta um peso extra à questão da violência no debate eleitoral. Apenas em Cárceres, atuam o CV, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e uma facção local, aponta o mesmo relatório.
Estado do Mato Grosso tem 65% dos municípios dominados por facções criminosas.
Da região, os aviões e helicópteros do tráfico de drogas seguem viagem e pousam em pistas clandestinas nos estados de São Paulo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Paraná. A ampla malha rodoviária do Sudeste favorece a distribuição por cidades, portos e aeroportos da região.
Neste território, a segurança nas fronteiras conecta-se diretamente com o principal motor econômico do estado: o agronegócio. O avanço do crime organizado na região não traz apenas o tráfico, como também o roubo de defensivos agrícolas de alto valor, o roubo de gado, grãos e a lavagem de dinheiro por meio de propriedades rurais.
Em fevereiro, por exemplo, uma operação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de Mato Grosso mirou um grupo criminoso suspeito de desviar R$ 140 milhões em grãos de grandes produtores do estado, evidenciando o tamanho do desafio e da infiltração do crime organizado nas atividades produtivas do estado.
Com a sensação de insegurança em alta e a saída do governador Mauro Mendes (União) para disputar o Senado, a corrida pelo governo do estado promete, entre os candidatos, o reforço no discurso de força contra o crime organizado no estado e uma disputa entre mais nomes, diferente do que costumava ocorrer no histórico da política local.
Wellington Fagundes (PL) lidera a pesquisa de intenção de voto de primeiro turno, abrindo pelo menos 11 pontos percentuais para os demais pré-candidatos. Nas simulações de segundo turno, ele venceria Jayme Campos (União Brasil), Otaviano Pivetta (Republicanos) e Natasha Slhessarenko (PSD).
Pivetta venceria Slhessarenko e Campos. E no embate entre Slhessarenko e Campos, há empate técnico. Na corrida para o Senado, Mauro Mendes (União Brasil) e Janaína Riva (MDB) estão melhor posicionados. Os desempenhos são baseados em sondagem eleitoral do instituto Real Time Big Data divulgado em 2 de junho.
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As dificuldades de combater o crime organizado em uma das regiões mais isoladas e perigosas do planeta
Já na Amazônia, — que além do Mato Grosso engloba os estados fronteiriços do Acre, Amazonas, Rondônia, Roraima, Pará e Amapá — a vulnerabilidade das fronteiras se dilui em milhares de quilômetros de rios navegáveis e floresta densa da Rota Amazônica. No Amazonas, o estado faz fronteira com a Colômbia e o Peru, formando a tríplice fronteira amazônica, uma das regiões mais isoladas e perigosas do planeta.
Rios como o Solimões e o Japurá funcionam como passagem do narcotráfico, por onde navegam os “fretadores” da droga em lanchas rápidas. A complexidade do combate ao crime nas regiões de fronteira da Amazônia atingiu um nível crítico devido à sobreposição de crimes ambientais e transnacionais.
A extração ilegal de ouro, a exploração madeireira e a pesca clandestina na região são frequentemente financiadas e protegidas pelas mesmas facções criminosas que disputam o controle dos rios para transportar drogas e armas.
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O desafio de transformar discursos de palanque em plano de ação com resultados concretos
Para Wagner Mesquita, delegado da Polícia Federal aposentado, ex-secretário de Segurança Pública do Paraná e consultor de inteligência e segurança privada para uma empresa dos EUA, a integração de informações, inteligência e ações das diversas esferas do poder público é a chave para um controle mais efetivo do que acontece nas fronteiras de norte a sul do país.
“Em El Paso, nos Estados Unidos, por exemplo, funciona o Difusion Center. É um local administrado pela agência antidrogas de lá que reúne representantes e informações de mais de 20 órgãos governamentais ligados ao combate do tráfico internacional de drogas e crime organizado”, exemplifica ele.
“Quando ajudei o senador Sergio Moro (PL) no Ministério da Justiça, na época em que ele foi ministro, tivemos a oportunidade de implantar algo parecido no Paraná, na região da tríplice fronteira [com Argentina e Paraguai]. É um projeto pioneiro que reúne mais de 15 instituições brasileiras e representantes de outros países trabalhando 24 horas por dia em tempo real, com muitos resultados concretos”, afirma Mesquita. “Acho que é um modelo que deveria ser expandido para outras regiões de fronteira do país.”
A vulnerabilidade das fronteiras terrestres do Brasil não é um problema de fácil resolução e não se esgota com o fim do processo eleitoral. Os exemplos de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Amazonas revelam que cada lugar exige uma resposta diferenciada, ao mesmo tempo que soluções globais como a da tríplice fronteira ou El Paso mostram que podem funcionar como eixo estruturante em qualquer lugar.
Quem quer que assuma os mandatos executivos e legislativos após as eleições deste ano enfrentará o desafio de transformar discursos de palanque em plano de ação concreto.
Metodologia das pesquisas citadas
- Real Time Big Data Mato Grosso do Sul: ouviu 1.600 pessoas entre os dias 9 e 11 de maio. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. A pesquisa foi contratada pelo próprio instituto. O nível de confiança é de 95%. Registro no TSE nº MS-06412/2026.
- Real Time Big Data Mato Grosso: 1.600 entrevistados entre os dias 30 de maio e 1º de junho de 2026. A pesquisa foi contratada pelo próprio instituto. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº MT-01755/2026.
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