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“Silêncio mais profundo da minha vida”, relata voluntário brasileiro que atuou na busca por sobreviventes

“Quase quinze minutos de silêncio absoluto. Esperávamos ouvir uma resposta, mas ela não veio. Foi o silêncio mais profundo da minha vida.” É assim que o paulista Erick de Almeida descreve um dos momentos mais desafiadores de sua atuação como resgatista voluntário em busca de sobreviventes na Venezuela. O norte do país foi atingido no dia 24 de junho por uma sequência de dois fortes terremotos, o primeiro de magnitude 7,5 e o seguinte, de magnitude 7,2.

A situação gerou caos no país, com 190 prédios que desabaram completamente e mais de 850 que foram danificados pelos abalos sísmicos, segundo a plataforma venezuelana Notícias Venevision. O canal informou que até a última quinta-feira (9) foram confirmados quase 3,9 mil mortos, mais de 16,7 mil feridos e 17,9 mil pessoas sem moradia.

Almeida chegou à região em 29 de junho como voluntário da Aliança Cristã Evangélica Brasileira, organização que reúne inúmeras igrejas para desenvolver ações sociais e atuar em desastres e emergências. “A Aliança atua nas três fases da tragédia, então envia voluntários para a fase 1, que é de resgate, para a fase 2, que é quando começam a surgir muitas necessidades e para a fase 3, de reconstrução”, explica, ao informar que as ações costumam durar de um a dois anos.

Para essa primeira fase, a organização enviou Almeida e outros dois resgatistas, todos com especialidade em terremotos. “Nos unimos às equipes internacionais de resgate na busca por vítimas em meio aos escombros”, relata o morador de Guarulhos, ao relatar que atuou na retirada de inúmeros corpos. “Fazemos isso pelos familiares.”

Erick Almeida atuou na Venezuela com mais dois brasileiros enviados pela organização Aliança Cristã Evangélica Brasileira. (Foto: Arquivo pessoal/Erick de Almeida)

E foi em um desses casos, em que parentes permanecem cavando sozinhos nos escombros, que Almeida participou da tentativa de resgate que mais o impactou. A situação ocorreu nove dias após os terremotos, quando as equipes de voluntários já tinham avançado aproximadamente quinze metros por baixo da estrutura colapsada daquele edifício e acreditavam que naquela área existiria um sobrevivente.

Ao chegar no local, as equipes deram início ao protocolo internacional para verificar sinal de vida. “Todas as equipes param de fazer o trabalho, todo trânsito silencia e o maquinário que está funcionando é desligado”, relata o resgatista, ao informar que esse processo ocorre sempre que alguma equipe de resgate pede silêncio.

Chegamos no ponto onde pudemos escutar um pequeno ruído, que nos emocionou muito.

Erick de Almeida, resgatista brasileiro que atuou como voluntário na Venezuela

“Chegamos no ponto onde pudemos escutar um pequeno ruído, que nos emocionou muito”, recorda. No entanto, a equipe precisava confirmar de onde vinha o ruído e pedia que o sobrevivente fizesse duas batidas fortes. “Ficamos quase quinze minutos tentando e, infelizmente, não ouvimos mais nada.” Segundo ele, era preciso encontrar a direção dos ruídos para continuar cavando, mas a equipe, infelizmente, não conseguiu. “Uma tristeza terrível, terrível.”

No entanto, ele acompanhou outras equipes que tiveram sucesso no resgate de sobreviventes, inclusive de uma família que se manteve viva por 11 dias sob os escombros tomando leite materno. “A todo instante, chegavam notícias assim de alguém encontrado com vida, mesmo após tantos dias”, disse à Gazeta do Povo.

Há 15 anos atuando em tragédias, Erick afirma que essa foi uma das mais impactantes e espera voltar à Venezuela para ajudar novamente. Ele retornou ao Brasil na última quarta-feira (8) para trabalhar, mas novas equipes da organização Aliança Evangélica devem viajar para o país vizinho nos próximos dias.

Brasil enviou equipe com 71 bombeiros para atuar nos resgates na Venezuela

Bombeiros do Paraná, São Paulo e Minas Gerais que integraram a equipe enviada pelo Governo Brasileiro. (Foto: Arquivo pessoal/ Major Felipe Moletta)

Além de contar com voluntários brasileiros, a Venezuela também recebeu uma missão oficial do Governo Federal com 71 bombeiros do Paraná, São Paulo e Minas Gerais, além de técnicos da Defesa Civil e especialistas da Anatel especializados em restabelecimento de comunicação em situações de emergência.

Segundo o Major Felipe Moletta, a equipe atuou na região de Vargas e se surpreendeu com o cenário devastador encontrado ali. “Pessoas dormindo nas ruas e praças. Não tinha luz, nem água, e havia corpos empilhados na rua”, relata o major, que nunca havia atuado em um desastre dessa magnitude. “Há caos para todos os lados”, continuou.

Ainda de acordo com ele, os brasileiros auxiliaram equipes locais na busca e resgate de sobreviventes e também na recuperação de corpos. Em uma das ações, a equipe passou horas em um prédio com suspeita de sobreviventes, mas não conseguiu localizar sinais de vida, embora tenham recebido indícios sob os escombros. O grupo voltou ao Brasil nesta sexta-feira (10).

Major Felipe Moletta com outros bombeiros do Paraná que também atuaram nas equipes de resgate na Venezuela. (Foto: Arquivo pessoal/Major Felipe Moletta)

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