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Michelle Bolsonaro pediu para sair

Michelle Bolsonaro: “Deu pra ti/ Baixo astral/ Vou pra Porto Alegre/ Tchau”. (Foto: EFE/Andre Borges)

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Vou falar de Michelle Bolsonaro. Mas, para falar de Michelle Bolsonaro, preciso antes falar de Santo Inácio de Loyola. Em seu “Exercícios Espirituais”, o santo ensina que, quando uma ação ou fala admite mais de uma interpretação, temos que procurar interpretar essa ação ou fala da maneira mais favorável possível, até que os fatos indiquem o contrário. Não porque as pessoas sejam sempre boas. Não é nada disso. É que, agindo assim, deixamos de fomentar ressentimentos desnecessários e de promover a cizânia – que, como sabemos, é a atividade preferida do inimigo.

Eu sei. Sei que esse pressuposto da boa intenção é um ensinamento que vai contra a lógica das redes sociais e de algoritmos que se alimentam do conflito. Sei que o conselho santo vai contra a própria natureza dessa política mesquinha de hoje em dia e sempre. Uma política que busca nos defeitos alheios razões que justifiquem esse nosso vício em condenar, condenar, condenar. Mas onde é que entra a Michelle Bolsonaro nisso tudo? Aqui. Ela que anunciou seu afastamento do PL Mulher, e talvez da política em geral, para cuidar do marido e da filha. Uma decisão que está sendo vista como covardia por uns e como astúcia ou, pior!, malícia por outros.

Sujeirama

O problema é que a gente odeia lacunas e, contrariando o que ensinava Santo Inácio lá no longínquo século XVI, tende a preencher quaisquer silêncios com os piores pressupostos do mundo. Não raro, fazemos isso projetando nos outros nossos próprios defeitos. É o famoso “medir o outro com a própria régua”. Acontece muito. Quando o correto seria, primeiro, interpretar as falas e atitudes do outro da maneira a mais benevolente possível; depois, tentar compreender quaisquer mal-entendidos. Em seguida, corrigir os eventuais erros com caridade. E só então, em ultimíssima hipótese, fazer um juízo negativo do outro. (Neste momento você está pensando que faz justamente o contrário. Acertei?).

Sobre a decisão de Michelle Bolsonaro, pois, prefiro vê-la como uma decisão humana. Muito humana. Admiravelmente humana, até. Sobretudo num ambiente profundamente desumanizante como esse da política. Na minha interpretação confessadamente contaminada por Santo Inácio, é a decisão de alguém que cansou do jogo sujo, inegavelmente sujo e que às vezes até se orgulha dessa sujeirama toda. De alguém que até tentou participar disso, mas percebeu que não tem estômago. E vou além: Michelle Bolsonaro talvez tenha percebido que contribuirá muito mais para o bem comum sendo a esposa do Jair e a mãe da Laura. É legítimo e não só isso. Em meio à vulgaridade aviltante da política, chega até a ser nobre.

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