Pautas sociais, estilo dos candidatos e religião ajudam a explicar por que mulheres votam de forma diferente dos homens. (Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)
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A dificuldade da direita em conquistar o voto feminino ganhou novo capítulo com a saída de Michelle Bolsonaro da presidência do PL Mulheres. Maioria do eleitorado brasileiro, as mulheres tendem a valorizar mais pautas sociais, demonstram maior adesão a agendas de igualdade e costumam rejeitar candidatos com discursos agressivos, fatores que ajudam a explicar sua maior inclinação à esquerda.
Dados de um relatório da Fundação Friedrich Ebert (FES), divulgado em 2024, ajudam a entender essa tendência. O levantamento mostrou que mulheres jovens se identificam mais com a esquerda do que homens da mesma faixa etária: 20% delas se declaram de esquerda, ante 16% dos homens. O estudo também aponta um maior distanciamento feminino de posições conservadoras e uma participação mais intensa em pautas ligadas à igualdade de gênero e direitos sociais.
O fenômeno, porém, não se restringe à juventude nem ao Brasil. Um estudo publicado pela Cambridge University Press em 2025, baseado em dados de 16 democracias ocidentais coletados ao longo de três décadas, concluiu que mulheres são mais propensas a votar em partidos de esquerda, especialmente quando essas siglas defendem políticas de igualdade de gênero no mercado de trabalho, como licença parental, ampliação da oferta de creches e programas de proteção social voltados às famílias.
No Brasil, a relevância desse debate é ampliada pelo peso eleitoral das mulheres. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), elas representam cerca de 52,5% do eleitorado nacional e são maioria em todos os estados do país. O cenário ajuda a explicar por que partidos de diferentes correntes ideológicas passaram a investir em estratégias específicas para aproximar-se desse público, considerado decisivo em disputas eleitorais.
Estilo dos candidatos influencia o voto feminino
É justamente para enfrentar esse cenário que partidos de direita têm investido em iniciativas voltadas ao eleitorado feminino, como o PL Mulheres. Na avaliação do cientista político e professor de Comunicação Política Felipe Rodrigues, porém, a dificuldade de conquistar esse segmento também está ligada à forma como as mulheres vivenciam os impactos das políticas públicas e percebem o comportamento dos candidatos.
A preocupação com temas como custo de vida, renda familiar e saúde pública ajuda a explicar por que muitas mulheres se identificam com propostas associadas à proteção social. “Mulheres são maioria entre os mais pobres, chefiam quase metade dos lares brasileiros e sentem primeiro os efeitos de inflação de alimentos, dos cortes em programas sociais e das crises na saúde pública. Elas votam muito ancoradas no cotidiano, enquanto homens, em média, têm mais adesão a pautas ideológicas e macroeconômicas”, avalia.
Segundo Rodrigues, outro fator importante é que as mulheres tendem a demonstrar maior aversão à instabilidade e ao risco. Isso faz com que sejam mais sensíveis não apenas aos efeitos concretos das políticas públicas, mas também à forma como candidatos e lideranças se comportam durante as campanhas.
A diferença é relevante porque, em várias áreas tradicionalmente associadas à direita — como segurança pública, endurecimento penal e até temas de costumes — homens e mulheres não apresentam posições tão distantes. Nesses casos, a linguagem empregada pelos candidatos pode ter um peso tão importante quanto as propostas defendidas.
“Mulheres penalizam a agressividade, o deboche, a linguagem de confronto e, sobretudo, qualquer coisa que soe como desrespeito às mulheres”, acrescenta o cientista político.
A importância da comunicação na disputa pelo eleitorado feminino também é destacada por lideranças da direita. Para a deputada federal Bia Kicis (PL-DF), presidente do PL Mulheres no Distrito Federal, a dificuldade não está necessariamente nas pautas defendidas pelo campo conservador, mas na forma de comunicá-las ao eleitorado feminino.
“A esquerda é muito boa de narrativa e, durante décadas, sequestrou para si as narrativas das virtudes. Mas a população já tem visto que isso não é verdade. A esquerda briga pela sua agenda e usa as mulheres para impor as suas agendas. Mas, quando se trata realmente de proteger a mulher e a família, aí a esquerda perde realmente de longe”, afirma Kicis.
Religião aproxima parte das mulheres da direita
A religião é um dos fatores que mais influenciam as diferenças de comportamento político entre homens e mulheres. Nos últimos anos, o crescimento do eleitorado evangélico feminino criou um segmento estratégico para a direita, ajudando a reduzir a tendência observada nesse grupo de maior identificação com pautas e candidaturas associadas à esquerda.
Na avaliação de especialistas, a influência das igrejas e a centralidade de temas relacionados à família, aos costumes e à fé funcionam como elementos que aproximam parte dessas eleitoras do campo conservador.
Para Lília Nunes, vice-presidente do PL Mulheres do Rio de Janeiro, a fé também exerce um papel importante no engajamento político feminino. Segundo ela, a vivência religiosa estimula uma participação voltada para o bem comum e favorece a identificação com pautas defendidas pela direita.
“A direita tem uma grande sensibilidade às demandas reais das mulheres brasileiras em todos os seus desafios familiares e socioculturais, buscando atender essas demandas”, afirma.
Felipe Rodrigues destaca que a mulher evangélica não forma um bloco homogêneo, mas avalia que a religião ajuda a reduzir a resistência feminina a candidaturas de direita. “A rejeição a candidatos de direita cai muito nesse grupo porque a mediação da igreja e das pautas de costumes compensa parte dessa resistência”, conclui.
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