VILLA NEWS

Como o chavismo pode ter aumentado a tragédia dos terremotos na Venezuela

Enquanto os números de mortos e feridos devido aos terremotos na Venezuela aumentam conforme as operações de resgate avançam, análises apontam fatores que indicam como a tragédia pode ter sido amplificada pelo chavismo, o regime ditatorial que governa o país sul-americano desde 1999.

Em entrevista à Gazeta do Povo, uma jornalista venezuelana, que preferiu não ter seu nome publicado por questões de segurança, disse que, devido à deterioração dos serviços públicos sob o chavismo, não há bombeiros e equipes de socorro suficientes nas regiões mais afetadas pelos terremotos.

“Em Caracas e cidades próximas, não há o suficiente para atender a situação. E na região de La Guaira, a situação é ainda pior. Falei com o diretor de uma entidade de lá, ele estava me falando que não tem água, que eles precisam de ajuda, com água potável, com outros recursos para atender as pessoas, mas que a situação está muito difícil. O Estado, o governo venezuelano, não tem a capacidade de resposta para uma situação assim”, disse a jornalista.

Uma análise publicada nesta quinta-feira (25) pelo jornal espanhol Marca apontou que um fator, a configuração tectônica onde as placas do Caribe e da América do Sul se chocam, gerando “tremores a menos de 15 ou 20 quilômetros da superfície, impactando brutalmente as fundações”, se soma à falta de manutenção estrutural das edificações na Venezuela.

Devido a crises econômicas e orçamentos restritos, milhares de edifícios públicos e privados não foram avaliados ou reformados. Além disso, grande parte da infraestrutura em cidades como Caracas foi construída em meados do século XX, sob normas antigas que não exigiam os níveis de flexibilidade do aço ou resistência à torção exigidos pelas normas modernas”, apontou o Marca.

O jornal espanhol destacou também que a Venezuela possui muitos edifícios com “piso mole” devido ao uso comercial, já que o térreo é utilizado para estacionamento ou comércios abertos, sem paredes de cisalhamento suficientes. “Carente de rigidez, o primeiro andar se deforma excessivamente, causando um desabamento em cadeia nos andares restantes”, afirmou o Marca.

Devido à crise econômica, a construção civil formal sofreu uma redução brutal na Venezuela: uma reportagem de 2021 do jornal argentino Clarín apontou que o setor estava reduzido a 1% da sua capacidade histórica, segundo a Câmara Venezuelana da Construção.

Dessa forma, a informalidade impera, comprometendo a fiscalização e a qualidade das construções: em um evento promovido pela Universidade Católica Andrés Bello (Ucab) em outubro de 2024, a engenheira Liana Arrieta de Bustillo afirmou que quase oito em cada dez imóveis residenciais na Venezuela são construídos informalmente.

“Na Venezuela, 77% das moradias são construídas em assentamentos informais, por isso devemos dar atenção a esse setor”, disse a especialista, em declarações publicadas pelo jornal El Impulso. “Os habitantes desses tipos de assentamentos informais vivem em terrenos baldios com severas condições de instabilidade estrutural.”

A notória corrupção do chavismo faz com que a população venezuelana seja obrigada a recorrer à habitação informal e sem infraestrutura. Um relatório da ONG Transparência Venezuela apontou que uma iniciativa-chave lançada no governo do ex-ditador Hugo Chávez (1999-2013) para a construção de casas populares, a Grande Missão Moradia Venezuela, se tornou “uma estrutura complexa” de desvios de dinheiro público.

Grande parte das residências apresenta “falhas de construção que, em alguns casos, levaram à evacuação urgente de moradores e sua realocação para outras áreas”.

Quem permaneceu nas casas do programa ficou sujeito a grandes riscos: em entrevista em 2017 ao jornal El Estímulo, Gustavo Izaguirre, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Central da Venezuela (UCV), destacou que as violações do código venezuelano de construção em habitações da Grande Missão Moradia Venezuela representavam “fatores completamente desfavoráveis ​​em caso de terremoto, porque as paredes podem rachar ou desabar”.

VEJA TAMBÉM:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *