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Radiografia do Lula “volátil”

A suposta convicção ideológica de Lula, assim como de diversos outros políticos da atualidade, é bastante discutível. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

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Trump disse que Lula é “volátil”. Teve até quem entendesse como elogio, dado o conjunto da obra. Mas o que o presidente americano estava querendo dizer era que as falas do colega brasileiro são desencontradas. De fato, da acusação de “nova cara do nazismo” ao anúncio da “química” entre os dois, vai uma distância considerável.

Enquanto isso, na reunião do G7, Lula dizia que “nunca foi esquerdista”. A declaração feita em particular numa roda de conversa foi captada por um microfone próximo. A contradição com uma série de manifestações anteriores dele sobre esse assunto – inclusive falando sobre fortalecimento da “esquerda” e coisas afins – confirmaria a tal “volatilidade”. Mas pode ter sido, por incrível que pareça, uma declaração sincera.

A suposta convicção ideológica de Lula, assim como de diversos outros políticos da atualidade, é bastante discutível. O “esquerdismo” e o “direitismo” são conceituações falhas e anacrônicas. Mas nunca estiveram tão em alta – a ponto de que a simples menção acima possa estar contrariando, neste exato momento, muitos leitores deste espaço. Hoje são muitas as pessoas intelectualmente respeitáveis se guiando por essa demarcação.

Mas a ponderação é necessária. Lula se projetou nacionalmente na política como líder operário – na época em que fazia sucesso mundial a ascensão de Lech Walesa, saltando do Sindicato Solidariedade à presidência da Polônia. O brasileiro tentou várias vezes a Presidência e só conseguiu ser eleito quando adotou o lema “Lulinha paz e amor” – em oposição ao habitual discurso de ruptura.

O discurso do líder máximo do PT sempre foi uma embalagem para o projeto de permanência no poder

Vale lembrar que na virada do século havia uma corrente majoritária no PT favorável à candidatura presidencial de Cristovam Buarque, então governador do DF, em lugar de Lula – que já ia para a quarta tentativa. O comando do partido neutralizou esse movimento e trouxe a guinada “paz e amor” com o publicitário Duda Mendonça.

Mesmo assim, na reta final da campanha, Lula permanecia com um discurso “volátil” – acenando ao mercado com moderação e cumprimento das metas macroeconômicas, enquanto sustentava perante suas bases uma retórica mais sectária. Uma vez eleito, pode-se dizer que o governo também foi “volátil”: começou em tom conciliatório, dando sequência às políticas do Plano Real, e terminou mergulhado no fisiologismo, com o escândalo do mensalão (sendo reeleito apesar disso).

Assim como muitos políticos da atualidade, de diferentes linhas ideológicas, o discurso do líder máximo do PT sempre foi uma embalagem para o projeto de permanência no poder. Havia até uma máxima nos meios partidários sobre isso: “Poder é como violino: se pega com a esquerda e se toca com a direita”. Essa imagem parou de fazer sentido depois que o truque do “wokismo” passou a empurrar o violino para ser tocado com a “esquerda”.

Esse ditado irreverente (e agora ultrapassado) diz muito sobre a verdadeira demarcação oculta sob a dicotomia “esquerda x direita”: em grandes linhas, seria o “discurso” contra a “prática”. Infelizmente no século 21 o discurso triunfou sobre a prática. Por isso, o atual governo brasileiro pode ser sofrível na prática e, ainda assim, ter um candidato à reeleição competitivo: é pura retórica. Haja volatilidade.

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