Ao longo dos últimos dois anos, acompanhando de perto a construção do novo Plano Nacional de Educação (PNE), participei de discussões sobre metas, financiamento, formação de professores, aprendizagem e governança. No entanto, algumas das reflexões mais importantes não estavam necessariamente nos aspectos técnicos do debate. Elas diziam respeito a algo mais profundo: os valores que escolhemos preservar quando somos confrontados por desafios complexos.
Uma discussão em particular chamou minha atenção. Diante dos resultados insatisfatórios do Brasil em avaliações internacionais, houve quem defendesse que essas referências deixassem de ocupar um papel relevante no planejamento educacional. O argumento parecia simples: se os estudantes brasileiros apresentam desempenho abaixo do esperado, talvez fosse melhor não vincular nossas metas a indicadores que expõem essa realidade.
Educar não é tornar os obstáculos menos visíveis. Educar é oferecer aos jovens as condições necessárias para superá-los. Em um mundo cada vez mais tecnológico, e competitivo, essa responsabilidade exige uma aliança permanente entre famílias, educadores, academia e setor produtivo
Foi nesse momento que me deparei com uma pergunta que ultrapassa os limites da educação em si: quando uma meta parece difícil de se atingir, devemos reduzir a exigência ou criar melhores condições para alcançá-la? O sucesso não está na diminuição da dificuldade, mas na construção das condições que permitam enfrentá-la com mais preparo.
No Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) de 2022, o Brasil ocupou o 65º lugar em matemática, entre 81 países avaliados. No Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2023, menos de 20% dos alunos do terceiro ano do ensino médio atingiram o nível adequado de proficiência em Língua Portuguesa. Ao mesmo tempo, quase 10 milhões de jovens entre 15 e 29 anos não estudam nem trabalham, enquanto o país convive com uma população de 66,5 milhões de pessoas fora da força de trabalho, segundo dados do IBGE. Nenhum desses desafios será enfrentado com a flexibilização de parâmetros ou pela simples revisão de indicadores.
Em um momento em que o novo PNE começa a sair do papel, é indispensável fortalecer mecanismos de governança capazes de relacionar investimento, aprendizagem e resultados. Trata-se de investir com critérios claros, acompanhamento permanente e avaliações capazes de medir o impacto real das iniciativas implementadas. Da mesma forma, é fundamental que comparações estatísticas sejam conduzidas com rigor metodológico e transparência.
A experiência do setor produtivo oferece lições importantes para esse debate. Nenhum agricultor obtém uma safra melhor reduzindo as exigências da natureza ou encurtando artificialmente os ciclos do plantio e da colheita. Nenhuma empresa de tecnologia lança uma inovação relevante sem pesquisa, testes e capacidade de aprender com erros. Em todos esses casos, os resultados dependem muito mais da criação das condições adequadas para alcançá-los.
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Vivemos uma era marcada por transformações tecnológicas aceleradas, inteligência artificial, automação e novas formas de trabalho. Essas mudanças representam oportunidades extraordinárias para os jovens, mas podem se transformar em obstáculos para aqueles que não receberem a formação adequada. A resposta não é afastar estudantes das novas tecnologias. A solução passa por formar continuamente os educadores, aproximar escolas e setor produtivo, ampliar experiências práticas de aprendizagem e desenvolver competências compatíveis com as demandas do século XXI.
A produtividade do trabalho no Brasil cresceu apenas 0,2% ao ano, entre 1998 e 2024. Esse dado nos lembra que desenvolvimento sustentável depende de eficiência, qualificação, inovação e capacidade de transformar conhecimento em resultados.
Talvez a principal lição que extraio desses dois anos de debates é que valores existem justamente para os momentos em que somos tentados a flexibilizá-los. Podemos aperfeiçoar métodos e adaptar ferramentas. Mas não é possível abrir mão do compromisso com a preparação das novas gerações para os desafios do mundo real.
Educar não é tornar os obstáculos menos visíveis. Educar é oferecer aos jovens as condições necessárias para superá-los. Em um mundo cada vez mais tecnológico, e competitivo, essa responsabilidade exige uma aliança permanente entre famílias, educadores, academia e setor produtivo, capaz de aproximar conhecimento e prática, aprendizagem e realidade, formação e oportunidade. Se quisermos preparar uma geração apta a liderar o Brasil nas próximas décadas, precisamos parar de discutir como reduzir os desafios, e concentrar nossos esforços em ampliar a capacidade dos jovens para enfrentá-los.
Letícia Jacintho é presidente da Associação De Olho no Material Escolar.


