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A Copa do Mundo não suspende a Geopolítica

Jogo Brasil X Marrocos na Copa do Mundo 2026. (Foto: EFE/ Ángel Colmenares)

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Começou a Copa do Mundo! De quatro em quatro anos, não tem jeito: nossas atenções são fisgadas por esse campeonato apaixonante, que tantas alegrias e decepções já nos trouxe. Escrevo um pouco decepcionado com o desempenho da nossa seleção no jogo contra o Marrocos, mas com esperança de que nosso time melhore ao longo da competição. Vamos ver.

O esporte, especialmente quando coletivo e disputado entre seleções nacionais, por mais que se queira evitar, transporta para o campo de jogo as tensões das relações entre os Estados e da ordem internacional vigente. Isso é verdade desde o nascimento das competições desportivas: no século IX a.C., os gregos criaram a “trégua olímpica” (Ekecheiria), que garantia passagem segura a atletas, espectadores e delegações que viajavam para participar dos Jogos Olímpicos.

Vinte e nove séculos depois, vemos que a competição esportiva continua apesar da guerra, sem, contudo, eliminar suas consequências políticas. A seleção iraniana compete em uma Copa do Mundo disputada também nos Estados Unidos, embora alguns integrantes de sua delegação tenham tido seus vistos negados e a equipe tenha sido obrigada a transferir sua base de treinamento para o México. Do mesmo modo que espartanos e atenienses disputavam os Jogos em Olímpia enquanto seus exércitos combatiam na Guerra do Peloponeso, americanos e iranianos competem enquanto seus países se digladiam no Golfo Pérsico.

A presença do Irã na Copa está longe de ser o único exemplo da influência da política na competição. A própria organização do torneio mostra a sensível mudança nas relações entre os três países que sediam os jogos. Em abril de 2017, quando Canadá, Estados Unidos e México, juntos, apresentaram sua candidatura para coorganizar o torneio, a mensagem era de integração da América do Norte. Hoje, diante das relações azedas entre os EUA e seus vizinhos ao sul e ao norte, das menções de Trump ao Canadá como “51º estado” dos EUA e das barreiras migratórias e tarifas impostas ao México, dificilmente haveria clima para a apresentação de uma candidatura unificada.

Como se vê, a Copa não suspende a geopolítica. Durante algumas semanas, apenas lhe oferece um de seus palcos mais visíveis

Na Copa do Mundo, a hierarquia do futebol não coincide com a hierarquia do poder internacional. As duas maiores potências globais, EUA e China, não ocupam no futebol uma posição correspondente ao seu peso geopolítico. A seleção norte-americana, que, aliás, fez uma bela estreia vencendo o Paraguai, não figura entre as grandes favoritas ao título. A seleção chinesa nem sequer conseguiu se classificar para o torneio.

Por outro lado, o Haiti, um Estado falido, em profunda desordem política, social e econômica, consegue participar do torneio, atraindo para os estádios uma torcida apaixonada. Aliás, o país foi protagonista de uma situação interessante nesta Copa. Sua camisa estampava uma imagem da Batalha de Vertières, ocorrida em 1803 e considerada decisiva para a independência do país, na qual forças independentistas formadas por haitianos derrotaram as forças expedicionárias da França de Napoleão.

A FIFA, entretanto, vetou a estampa, alegando que ela contrariava as normas por transmitir uma mensagem política — justamente a FIFA, cujo presidente concedeu a Donald Trump o primeiro “Prêmio da Paz FIFA”, em um gesto que reforçou as acusações de alinhamento político da entidade com a Casa Branca.

Além disso, o próprio formato desta Copa, a maior de todos os tempos, com 48 seleções e maior representação da Ásia, da África e da América Latina, também pode ser visto como uma metáfora de uma ordem internacional mais plural e menos concentrada no eixo tradicional europeu.

Em relação ao Brasil, o fato de sermos o único país a participar de todas as edições e também o único pentacampeão sempre gera grandes expectativas. É inegavelmente um momento de projeção de soft power, com a presença numerosa e alegre da torcida brasileira nos estádios cativando audiências internacionais. Pode também contribuir para diminuir temporariamente a polarização política, reunindo milhões de brasileiros em torno do mesmo objetivo: a vitória da seleção.

Como se vê, a Copa não suspende a geopolítica. Durante algumas semanas, apenas lhe oferece um de seus palcos mais visíveis. Apesar das antigas “tréguas olímpicas”, o esporte não apaga as divisões e disputas do mundo. Antes, reflete-as. Mesmo assim, é um evento espetacular, que de certa forma traz alguma esperança de que, um dia, as disputas entre as nações possam se dar apenas nos campos desportivos, ao invés dos campos de batalha.

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