VILLA NEWS

Picanha e futebol: o uso político da Copa do Mundo

Lula posa com a camisa da seleção: nenhum líder resiste a usar o futebol com fins políticos. (Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República)

Ouça este conteúdo

O PT lançou a campanha “Lula joga pelo Brasil”, baseada na Copa do Mundo. O jingle fala da tal “soberania”, mostra o Pix, o Desenrola Brasil, o fim da escala 6×1, a “CNH do Brasil”, a luta pela democracia e pelo povo. A Lei Pelé, de 1998, já usava o esporte para falar de soberania e de identidade nacional.

É um clássico: todos os governantes do mundo surfam a onda do esporte, que faz parte do chamado soft power, junto com a cultura, o turismo e outras características.

O pioneiro no uso político do esporte talvez tenha sido Benito Mussolini, que transformou a Copa de 1934 em um evento de propaganda fascista. Getúlio Vargas também começou a usar a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) como arma política. Na Copa de 1970, o ditador Emílio Garrastazu Médici comentou o tricampeonato brasileiro dizendo que “’eu identifico essa vitória obtida na fraternidade da boa prática desportiva com a ressurreição da fé em nosso desenvolvimento nacional”.

Antes disso, em 1961, Jânio Quadros havia declarado que Pelé era “patrimônio nacional não exportável”. Pouco mais de dez anos atrás, quando o Barcelona quis comprar Neymar, que jogava no Santos, alguns tentaram nos convencer de que o jogador tinha de ficar aqui, e que tínhamos de pagar para compensar o salário maior que ele receberia na Espanha. Por sorte, não colou!

Vários países usam o futebol para melhorar sua imagem internacional, no chamado sportswashing

Nas eliminatórias para a Copa de 1974, a União Soviética boicotou o jogo contra o Chile de Augusto Pinochet; hoje, a Rússia está banida pela Fifa devido à guerra na Ucrânia. A África do Sul foi proibida de participar de 1961 até 1992, devido ao regime de apartheid. A Iugoslávia foi banida em 1992, por causa da guerra nos Bálcãs.

Suspeita-se que, na Copa do Mundo de 1978, a anfitriã Argentina teria comprado a semifinal contra o Peru, um jogo que os argentinos precisavam vencer por pelo menos quatro gols de diferença. A Argentina venceu por 6 a 0, desclassificando o Brasil; posteriormente, a Argentina doou 35 toneladas de trigo e emprestou US$ 50 milhões ao país andino.

Em 2004, no contexto da missão de estabilização das Nações Unidas no Haiti, a Minustah, Lula organizou o famoso “jogo da paz” entre as seleções do Brasil e do Haiti.

VEJA TAMBÉM:

Países comandados por ditaduras, ou com histórico ruim no campo dos direitos humanos, ou que conduzem campanhas militares contra outras nações, também usam o futebol para melhorar sua imagem internacional, no chamado sportswashing.

Em 2018, a Rússia – que já havia invadido a Crimeia em 2014 – sediou a Copa do Mundo; quatro anos depois, foi a vez do Catar, que usou o evento para camuflar os problemas de direitos humanos, as mortes de trabalhadores braçais imigrantes na construção dos estádios, e as restrições aos direitos das mulheres e da população LGBT. Emblema de tudo isso talvez seja o filme Pra frente Brasil, de 1982, que mostra o Brasil inteiro torcendo e vibrando com a seleção de futebol na Copa de 1970, enquanto prisioneiros políticos eram torturados pela ditadura.

A política usa o futebol em nível internacional, nível nacional e também no nível local. O Ministério Público do Ceará liberou R$ 44,4 mil para a viagem de três promotores à Copa do Mundo, para acompanhar protocolos de segurança que poderão ser adotados na Copa do Mundo Feminina de 2027, que terá jogos em Fortaleza. A prefeitura de São Paulo também mandou pelo menos seis servidores para a Copa, com diárias de R$ 22,5 mil. A justificativa é um projeto de atração de turismo.

É esperado que o futebol acabe sendo politizado, e isso é tão verdadeiro que os brasileiros que torcem contra o Brasil normalmente o fazem por motivos políticos

O esporte também serve de trampolim para a política. Silvio Berlusconi foi dono do Milan por quase 30 anos, e neste período ocupou várias vezes o posto de primeiro-ministro da Itália. Ex-atletas também entraram na carreira política: Romário é senador; Pelé foi ministro do Esporte no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso; antes dele, Zico tinha sido secretário nacional de Esportes no governo Collor. Na Libéria, George Weah, eleito o melhor jogador do mundo em 1995, foi presidente do país entre 2018 e 2024.

Por aqui, ainda há todo o simbolismo da camisa da seleção, que foi e está sendo muito usada pela direita. Recentemente, Lula pediu para que a esquerda também volte a usar a camisa; ele mesmo o fez no dia de uma vitória da seleção de vôlei, comentando que “o Brasil é dos brasileiros”. Por sua vez, Flávio Bolsonaro chamou a camisa de “camisa do Bolsonaro”. Isso sem falar de toda a discussão sobre o “vai Brasa” e a camisa vermelha.

Essa mistura é normal, e só não acontece onde o futebol não é muito popular. No Brasil, o futebol não só é o esporte mais importante, mas também é um dos maiores casos de sucesso internacional do país (e não há nenhum demérito nisso, muito pelo contrário). É esperado que o esporte acabe sendo politizado, e isso é tão verdadeiro que os brasileiros que torcem contra o Brasil normalmente o fazem por motivos políticos – como em 2014, quando muitos não queriam que Dilma Rousseff entregasse a taça para a seleção caso o Brasil saísse vitorioso.

O bom e velho “panem et circenses”, por aqui, talvez seja “picanha e futebol”.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Você pode se interessar

Encontrou algo errado na matéria?

Comunique erros

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *