Tornou-se comum afirmar que estamos testemunhando um retorno à religião, particularmente ao catolicismo, mesmo em detrimento de outras formas de cristianismo. Fala-se do entusiasmo dos jovens, do aumento de fiéis e de novas maneiras de expressar a fé. “Deus retornou”, dizem. Mas não está claro que o que está retornando seja, estritamente falando, Deus.
A questão, talvez, seja outra. Não se trata de saber se Deus retornou — como se alguma vez tivesse partido —, mas sim o que significa para Ele “retornar” num mundo que, em essência, parece continuar a funcionar da mesma maneira. Porque se a Sua presença não altera a ordem das coisas, se não introduz uma diferença na forma como vivemos, então aquilo a que chamamos retorno designa algo completamente diferente.
Tornou-se possível falar de Deus sem que nada aconteça. Seu nome circula — em conversas, nas redes sociais, até mesmo em certos fervores religiosos —, mas o faz como uma referência que não afeta a estrutura do que consideramos real. Ele não é negado; Ele é reconhecido. E é precisamente aí que o problema começa: não porque Ele tenha desaparecido, mas porque foi diminuído. Em vez de ordenar a realidade, Ele está contido nela.
A redução do absoluto
Deus, se Ele é Deus, não pode ocupar um lugar entre os outros. Ele não aparece como apenas mais um exemplo dentro da ordem do mundo, mas sim como aquele a partir do qual tudo o mais recebe sua medida. Nada mais, nada menos.
A negação de Deus é, sem dúvida, uma ruptura radical com a realidade. Mas não é a única. Há outra — mais silenciosa e, portanto, muitas vezes mais eficaz — que não consiste em expulsá-Lo, mas em incorporá-Lo de tal forma que Sua presença não altere nada
Nesse caso, Sua presença não rompe; desloca. E, precisamente por essa razão, pode passar despercebida.
Sua eficácia reside precisamente nisto: em não parecer uma mudança. Não há ruptura, mas sim uma descida. Desce-se degrau por degrau. Cada degrau parece razoável, mas o todo altera o destino, e quando se percebe, muitas vezes já é tarde demais.
Esse mecanismo não é exclusivo da esfera religiosa. Algo semelhante aconteceu com noções centrais de nossa vida em comum — família, liberdade, até mesmo verdade — que mantiveram seus nomes, embora seus significados tenham se transformado. Elas permanecem na linguagem, mas já não significam a mesma coisa.
Deus não é excluído; Ele é tornado compatível. Ele pode ser invocado, citado, até mesmo celebrado, contanto que não tente ordenar a totalidade da vida. E assim, o que parecia abertura revela-se uma forma mais sutil de redução.
Uma bússola sem o Norte
No entanto, há um diagnóstico aqui que precisa ser esclarecido.
Costuma-se pensar que o problema da fé em nosso tempo reside em sua fragilidade. Esse problema existe, mas, além de não ser exclusivo da sociedade contemporânea, é, em grande medida, consequência da nossa condição humana. A fé cristã não é a fé de uma elite pura. É a fé de um Deus que se confiou a pessoas frágeis, em meio a comunidades onde o trigo e o joio crescem juntos. A Igreja não se apresenta como uma comunidade de sãos, mas como um hospital para os doentes: um lugar onde a ferida é reconhecida e onde a fragilidade se torna uma condição de possibilidade para a graça.
O problema, portanto, não é a mistura. É o horizonte. Não são, em primeiro lugar, os desvios do caminho, mas a perda de orientação: a perda de um norte absoluto a partir do qual tudo o mais deriva sua medida. Na melhor das hipóteses, conservamos uma orientação tênue. E, nesse deslocamento, o que antes ordenava a vida é substituído por fins que, por mais nobres que sejam, não são o Norte.
É nesse contexto que falamos hoje de um “retorno” religioso. Mas devemos ser cautelosos. O que retorna não é necessariamente o absoluto em sua força original, mas sua possibilidade enfraquecida: uma forma de religiosidade que pode ser invocada, desde que não perturbe indevidamente nossas certezas; um Deus a quem podemos orar e agradecer, mas a quem já não obedecemos.
Podemos cometer erros, até mesmo nos perder, e ainda assim manter o rumo. Mas quando você se perde, perder-se não é mais possível, porque não há caminho.
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Aslan não integra
É nesse ponto que uma imagem literária pode ajudar a enxergar com mais clareza o que está em jogo.
Em As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, provavelmente a obra mais conhecida de C.S. Lewis, o mundo retratado permanece sob um inverno sem fim, imposto pela Feiticeira Branca: uma aparência de estabilidade que só pode ser mantida ao custo da imobilização de tudo. Tudo parece estar em seu devido lugar, mas ao preço da própria vida. Como diz o livro: “É sempre inverno, mas nunca Natal.”
Aslan — o leão a quem o título se refere — não aparece inicialmente como um personagem, mas como um nome. Não há descrição nem representação: apenas uma palavra dita pelo Sr. Castor — “Aslan” — e, no entanto, algo acontece. Nenhuma das crianças permanece indiferente: Lucy sente uma alegria inesperada, Edmund experimenta medo, Susan oscila entre os dois sentimentos e Peter sente-se chamado por algo que ainda não compreende. Antes mesmo de vê-lo, antes mesmo de saber quem ele é, sua mera menção já faz diferença.
A chegada de Aslan não se integra à paisagem; ela a transforma. Com sua presença, a neve começa a derreter, o gelo racha e o degelo avança. Não se trata de uma mudança de humor, mas de uma mudança de realidade: o que estava congelado volta à vida.
Mas essa mudança não se restringe ao âmbito da natureza: ela também é política. Aslan não apenas traz a vida de volta ao mundo; ele restaura a sua ordem legítima. Onde quer que sua presença se manifeste, não só o que estava adormecido começa a crescer novamente, como também o que havia sido usurpado é reordenado. Os filhos de Adão e Eva — os irmãos Pevensie — são reconhecidos como reis e rainhas, não por concessão, mas por direito. O mundo não apenas revive, como também é reordenado.
Quando Lucy pergunta se é seguro, o Sr. Castor responde sem rodeios: “Seguro? Quem falou em segurança? Claro que não é seguro. Mas é bom. Ele é o Rei, eu te digo.” Ele não é uma presença reconfortante, mas sim uma que coloca tudo o mais em dúvida.
Essa exigência não pode ser satisfeita por provas impostas de fora. Em Príncipe Caspian, quando Lúcia é a única que consegue ver Aslan, a tentação imediata é exigir confirmação: que ele se revele a todos, que dissipe todas as dúvidas. Mas a resposta está em outro lugar. Aslan não se oferece como prova, mas como uma presença que deve ser reconhecida e seguida. A questão, então, não é se Aslan se revelou o suficiente, mas se estamos dispostos a segui-lo mesmo quando nem todos o veem. Não é ele que deve se justificar perante a humanidade, mas sim ela que deve decidir se obedecerá ao que já lhe foi mostrado.
O absoluto não se apresenta em termos de verificação neutra. Não se apresenta para ser avaliado, mas para ser acolhido — ou rejeitado. E, nesse sentido, a dificuldade reside não na falta de evidências, mas na resistência a uma presença que, se admitida, obrigaria a uma reordenação da própria vida.
Portanto, em Nárnia, a questão não é se Aslan pode ser aceito, mas o que acontece quando ele aparece — e quando ele aparece, ele transforma tudo.
Um Deus que não transforma não é Deus
E é precisamente aí que a distância do nosso tempo se torna eloquente.
Porque, enquanto em Nárnia a presença de Aslan desfaz as imposições da Feiticeira e restaura a vida ao mundo, em nosso próprio mundo algo diferente parece estar emergindo: o reaparecimento da religião sem que nada de fundamental precise mudar. Não está claro se o que nos atrai é a irrupção do absoluto, mas sim uma forma de experiência que pode ser incorporada sem alterar a vida como um todo.
Mas se Deus é o absoluto, isso não é possível. Ele não parece ser admitido, mas sim comandar.
Portanto, a questão não é simplesmente se Deus está presente ou ausente, mas sob quais condições sua presença é admitida: é aí que reside o ponto decisivo.
A questão, portanto, não é mais se Deus retornou. É outra: se o que retornou é verdadeiramente Deus — ou uma versão que podemos aceitar sem que nada mude — e se nós mesmos, no fundo, não estamos dispostos a aceitar seu retorno apenas nesta forma.
©2026 Revista Suroeste. Publicado com permissão. Original em espanhol: Aslan tolerado


