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Música, um caminho para a eternidade

Há muitos anos, eu estava conversando com um querido amigo, o maestro Vitor Gorni, sobre as músicas de nossas vidas.

— Vitor, qual é a música mais bonita que você já tocou?

Meu amigo, que, além de regente, é um exímio instrumentista, pensou um pouco e respondeu:

— Acho que foi o Concerto para Clarinete, de Mozart.

— E qual foi a música que fez você virar músico?

Diante da nova pergunta, meu amigo maestro ficou em silêncio, refletiu mais um pouco e me contou uma história.

Em 1960, Vitor era um menino prestes a completar cinco anos. Morava com o pai, a mãe e as irmãs em um sobrado na pequena cidade de Cambé, Norte do Paraná. Um dia, ele subiu a escada de casa correndo — como costumam fazer os meninos de quase cinco anos — e, na pequena sala contígua, encontrou o pai. O gerente de banco — que já havia sido agricultor, carroceiro e vendedor em armazém de secos e molhados — estava sentado em um sofá azul, decorado com flores vermelhas, e tinha nas mãos um saxofone, no qual tocava um tema famoso na época.

Embora a música não fosse triste — ao contrário, evocava uma história de amor nas paisagens cariocas dos anos dourados —, o menino sentiu, ao ouvi-la, uma inexplicável vontade de chorar.

Quando viu as lágrimas do filho, o homem colocou o saxofone de lado, foi até o menino e o abraçou. Aos poucos, o pequeno Vitor se acalmou. A partir desse ponto, as memórias do meu amigo maestro perdem a clareza.

O pai de Vitor Gorni morreu pouco depois daquele encontro na sala, no dia 21 de novembro de 1960; Vitor completaria 5 anos menos de um mês depois.

Vitor cresceu e se tornou músico. O tema tocado pelo pai naquele dia jamais saiu de sua memória

Na adolescência, perguntou à irmã mais velha qual seria o nome da música. A irmã logo matou a charada:

— É “Menina Moça”!

“Menina Moça”, composição da dupla Luiz Antonio e Djalma Ferreira, é uma espécie de elo perdido entre o samba tradicional e a bossa nova, com uma pureza nostálgica, delicada e inocente. Foi essa a música que o pai do futuro maestro tocou naquele dia — e que seu filho jamais deixaria de tocar.

E o Concerto para Clarinete? Quando meu amigo maestro citou essa obra, não foi tão simples encontrá-la. O que hoje pode ser resolvido com uma simples pesquisa na internet demandava, duas décadas atrás, pacientes peregrinações por lojas de discos e sebos.

Quando finalmente eu encontrei o CD com o Concerto para Clarinete em Lá Maior — K. 622, de Wolfgang Amadeus Mozart, descobri que se tratava não de uma simples obra musical, mas sim de um verdadeiro caminho para o Céu. Toda a peça é maravilhosa, mas o segundo movimento, o Adagio, é um tema que posso ouvir milhares de vezes, como já fiz, mas nunca — nunca! — deixa de me emocionar.

O concerto indicado por meu amigo maestro tem trechos de alegria e de melancolia, mas simplesmente não pode ser definido como alegre ou triste. O que sobressai, na audição da obra, é uma imensa, avassaladora e perfeita serenidade. Mozart nos oferece uma experiência contemplativa, como se os anjos falassem, como se a própria vida falasse.

O mais surpreendente é que se trata de uma das últimas obras de Mozart, composta em outubro de 1791, apenas dois meses antes de sua morte, quando o genial compositor estava mergulhado em dívidas, com saúde frágil e cansaço. Mozart a compôs para seu amigo Anton Stadler, o maior clarinetista da época. No entanto, é provável que Mozart jamais tenha visto o amigo interpretá-la publicamente, pois morreu em 5 de dezembro de 1791, com apenas 35 anos — inacreditáveis 35 anos.

Altino Gorni morreu com apenas 40 anos. Relembrando a conversa que tive com Vitor Gorni tantos anos atrás, sobre o concerto de Mozart e o samba “Menina Moça”, percebo que as duas músicas que marcaram a vida de meu amigo eram cantos de cisne, mas também sinais da vida eterna. Por isso, o maestro diz:

— Eu me tornei músico para ficar perto de meu pai. E deu certo!

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