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O neodonatismo rebelde da SSPX

SSPX rejeitou pedido do Vaticano e manteve a data da ordenação de novos bispos. (Foto: Imagem criada utilizando Grok/Gazeta do Povo)

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Um tema frequente do pontificado de Francisco foi a crítica ao que chamou “neopelagianismo”, uma versão renovada da antiga heresia que desprezava a graça divina e afirmava que a salvação dependia puramente do mérito individual. O neopelagianismo “manifesta-se em muitas atitudes aparentemente diferentes entre si: a obsessão pela lei, o fascínio de exibir conquistas sociais e políticas, a ostentação no cuidado da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, a vanglória ligada à gestão de assuntos práticos, a atração pelas dinâmicas de autoajuda e realização autorreferencial”, descreveu o papa em Gaudete et exsultate (n. 57). Pois agora estamos diante de outra “neo-heresia”, como demonstra a resposta da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (SSPX) ao Vaticano sobre as ordenações episcopais ilícitas prometidas para 1.º de julho: o neodonatismo.

O superior-geral da SSPX, padre Davide Pagliarani, enviou no último dia 18 sua resposta ao cardeal Victor Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, afirmando que recusava as ofertas e pedidos do Vaticano: o adiamento das ordenações episcopais e o estabelecimento de um diálogo entre a Santa Sé e os lefebvristas. O mais insano é que os tradicionalistas estão partindo para o confronto aberto com o papa “por razões de honestidade intelectual e de fidelidade sacerdotal, diante de Deus e diante das almas” (a tradução que uso aqui é a do próprio site da SSPX no Brasil).

O padre Pagliarani diz que “não podemos estar de acordo no plano doutrinal, em particular, no que concerne às orientações fundamentais tomadas desde o Concílio Vaticano II” e que “tal desacordo, da parte da Fraternidade, não se deve a uma mera divergência de ponto de vista, mas a um verdadeiro caso de consciência, nascido do que se tem mostrado como uma ruptura com a Tradição da Igreja” (percebe-se como os lefebvristas abraçam os progressistas mais desvairados nessa interpretação sobre o significado do concílio; já tratei disso algumas semanas atrás). A SSPX se queixa de que “os textos do Concílio não podem ser corrigidos, nem a legitimidade da reforma litúrgica ser questionada”.

A carta ainda tem a pachorra de inverter as responsabilidades pela ruptura quase inevitável, quando afirma que “a mão estendida da abertura ao diálogo vem infelizmente acompanhada de uma outra mão, já pronta para infligir sanções” e que “tal ameaça se fez publicamente, o que cria uma pressão dificilmente compatível com um genuíno desejo de intercâmbios fraternos e de diálogo construtivo”. Como se o Vaticano estivesse falando de excomunhões assim, do nada, e não em resposta ao anúncio de ordenações episcopais em desobediência clara ao papa…

“Diz-se (…) cisma a recusa da sujeição ao Sumo Pontífice ou da comunhão com os membros da Igreja que lhe estão sujeitos”

Código de Direito Canônico, cânone 751

A SSPX ainda publicou alguns anexos, inclusive um estudo argumentando que “uma consagração episcopal não autorizada pela Santa Sé, quando não é acompanhada nem de uma intenção cismática, nem da colação da jurisdição, não constitui uma ruptura da comunhão da Igreja”, porque a condição para tal ruptura seria a atribuição de uma jurisdição (ou seja, dar àquele bispo uma diocese ou um certo cargo curial), e os lefebvristas não querem fazer isso. Claro que o estudo não cita o cânone 751 do Código de Direito Canônico, segundo o qual “Diz-se (…) cisma a recusa da sujeição ao Sumo Pontífice ou da comunhão com os membros da Igreja que lhe estão sujeitos” – ou seja, para que as ordenações de 1.º de julho sejam atos cismáticos nem é necessário que se atribua jurisdição aos bispos recém-ordenados; basta que as ordenações aconteçam, porque elas mesmas já indicam a “recusa da sujeição ao Sumo Pontífice”.

Onde entra o donatismo nisso tudo?

Detalhe de “Santo Agostinho debatendo com donatistas”, de Charles-André van Loo. (Foto: Wikimedia Commons/Domínio público)

O donatismo do início do cristianismo era uma heresia hiper-rigorista, que desqualificava a autoridade daqueles padres e até bispos que haviam cedido diante da perseguição sangrenta da época do imperador Diocleciano, mas haviam se arrependido. Os sacramentos administrados por esses clérigos seriam inválidos. Apenas os donatistas eram a Igreja verdadeira, já que todo o restante estava irremediavelmente corrompido. Quando o papa São Melquíades presidiu um sínodo que condenou o donatismo, os hereges recusaram o veredito e continuaram a se espalhar pelo norte da África, ordenando (validamente, mas ilicitamente) bispos, padres e diáconos.

A SSPX é tão diferente assim quando se arvora como a única ou a principal defensora da fé católica contra os “erros modernistas” ou os “erros do Concílio”? Quando o site do distrito norte-americano da SSPX afirma que os fiéis “não devem ir a essa missa [celebrada segundo o missal novo] em circunstância alguma, mesmo se for um domingo e em um local onde não há missa tridentina”, não está se comportando como os donatistas que negavam a validade dos sacramentos celebrados pelos outros padres? Quando até mesmo outros institutos que celebram a missa tridentina e estão em comunhão com Roma são descritos com reservas (especialmente a Fraternidade de São Pedro, criada por padres que deixaram a SSPX após as ordenações episcopais de 1988), não estamos diante de uma mensagem implícita segundo a qual apenas a SSPX é confiável, que apenas ali o verdadeiro catolicismo persiste? Se isso não é uma reedição do donatismo, adaptado às circunstâncias histórias e eclesiais atuais, não sei o que mais poderia ser.

Os alertas dos cardeais Müller e Sarah

O leitor pode achar que o cardeal Victor Fernández não tem moral para dialogar com os lefebvristas, mas seria impossível dizer o mesmo dos cardeais Gerhard Müller e Robert Sarah. São ambos tremendamente ortodoxos na doutrina, defensores da missa tridentina e críticos de Traditionis custodes. Estou certo de que ao menos alguns leitores torceram para que um deles aparecesse de branco na sacada de São Pedro em maio do ano passado. Pois tanto Müller quanto Sarah criticaram a postura da SSPX em cartas públicas.

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Müller publicou um longo texto em um dos maiores sites católicos em língua alemã, no qual cita os donatistas ao lembrar que “cismas surgiram e se consolidaram também entre os católicos ortodoxos” e diz que, “embora outras comunidades eclesiais possam se dizer católicas porque concordam total ou quase totalmente com a fé da Igreja Católica, não são católicas se não reconhecem formalmente o papa como a autoridade máxima e pratiquem a unidade sacramental e canônica com ele”. O cardeal afirma que a SSPX “interpreta erroneamente [o Concílio Vaticano II] como um desvio da tradição”, e considera “teologicamente errônea e indigna de um católico sério” a ideia de que “a Santa Missa de acordo com o missal de Paulo VI (por exemplo, pela possibilidade de concelebração, pela direção do altar ou pelo uso do vernáculo) contradiz a tradição da Igreja como critério normativo para a interpretação da revelação (e é permeada por ideias maçônicas)”.

Müller não usa lentes cor-de-rosa: ele admite que a liturgia é avacalhada de inúmeras formas e em inúmeros lugares, afirma que documentos e declarações recentes causaram confusão entre os fiéis, diz que houve decisões de governo questionáveis no último pontificado, e lembra que existem pirações como o “Caminho Sinodal” alemão, cujo objetivo é perverter totalmente o ensinamento católico e desprezar sua hierarquia. Mas reforça que “as heresias, desde o arianismo até o modernismo, só foram vencidas pelos que permaneceram na Igreja e não saíram do lado do papa. Se a Fraternidade São Pio X quer ter um efeito positivo na história da Igreja, não pode lutar do lado de fora pela verdadeira fé contra a Igreja unida ao papa, mas apenas dentro da Igreja, junto do papa e de todos os bispos, teólogos e fiéis ortodoxos”.

E não é apenas com os donatistas que Müller faz uma comparação provocadora. “Nenhum católico ortodoxo pode alegar motivos de consciência se ele se afasta da autoridade formal do papa em relação à unidade visível da Igreja sacramental, para estabelecer uma ordem eclesiástica que não está em plena comunhão com ele [o papa] na forma de uma ‘Igreja de emergência’, o que corresponderia ao argumento protestante do século 16”, diz o cardeal. “Todo católico concordará com o jovem Martinho Lutero em sua luta contra a indigna venda de indulgências e a secularização da Igreja, mas o criticará fortemente por desprezar a ameaça de excomunhão, rejeitar a autoridade eclesiástica e colocar seu próprio juízo acima do da Igreja em sua interpretação da Escritura”, acrescenta.

O cardeal conclui com sua avaliação sobre as prometidas ordenações. “A consciência bem formada de um católico, e especialmente a de um bispo validamente ordenado e a de quem receberá a sagração episcopal, nunca administrará nem receberá as ordens sagradas contra o sucessor de São Pedro, a quem o próprio Filho de Deus confiou o governo da Igreja universal, cometendo assim um grave pecado contra a unidade, a santidade, a catolicidade e a apostolicidade da Igreja de Cristo reveladas por Deus”, afirma.

“Como alguém pode não se comover pelo clamor de Jesus, que deseja nossa unidade, e ainda assim continuar a dilacerar o Seu Corpo sob o pretexto de salvar as almas?”

Cardeal Robert Sarah, em artigo sobre as ordenações episcopais prometidas pela SSPX.

O cardeal Robert Sarah publicou seu texto neste domingo, em um semanário secular francês. Também ele reconhece que há gente dentro da Igreja fazendo muita coisa errada, mas que a solução não está na rebelião. “Dizem-nos que essa decisão de desobedecer a lei da Igreja é motivada pela lei suprema da salvação das almas: suprema lex, salus animarum. Mas a salvação é Cristo, e Ele se dá apenas por meio da Igreja. Como alguém pode dizer que leva as almas à salvação por caminhos diversos do que Ele nos indicou? Deseja-se de fato a salvação das almas quando se mutila o Corpo Místico de Cristo de forma talvez irreversível? Quantas almas correm o risco de se perder por causa desse novo rasgão na túnica sem costura da Igreja?”, questiona Sarah, que demonstra, ao longo do texto, como a desobediência não vai nem salvar almas, nem preservar a Tradição, nem nada daquilo que a SSPX diz pretender com suas ordenações ilícitas.

Sarah usa várias citações de Santa Catarina de Sena, que não pegava leve com os papas de seu tempo, mas nem por isso os desobedecia, muito pelo contrário, sempre tratou a obediência como algo essencial. “O bem das almas jamais será atingido pela desobediência deliberada, pois o bem das almas é uma realidade sobrenatural. Não rebaixemos a salvação a um jogo mundano de pressão midiática”, pede o cardeal. “Dizem-nos que isso [as ordenações] será feito em fidelidade ao Magistério prévio – mas quem pode nos garantir isso, a não ser o próprio Sucessor de Pedro (…) não se trata de fidelidade mundana ou ideológica a um homem e suas ideias pessoais, nem de ser partidários de uma pessoa, nem de papolatria ou um culto à personalidade do papa. Não se trata de obedecer ao papa na medida em que ele manifesta suas ideias, opiniões ou posições ideológicas pessoais sobre questões sérias de moral e doutrina. Trata-se de obedecer o papa que diz, como Jesus, ‘minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou’ (Jo 7,16)”. A obediência, diz Sarah, “garante nosso elo com o próprio Cristo”.

Se prosseguir com as ordenações, a SSPX terá um futuro incerto à frente, alerta o cardeal Sarah: “deixar a Barca de Pedro e se organizar de forma autônoma, em um círculo fechado, como uma seita, é se entregar às ondas da tempestade”, afirma ele, recordando da única forma de conseguir aquilo que a SSPX tanto diz desejar: “a melhor forma de defender a fé, a Tradição e a liturgia autêntica sempre será seguir o Cristo obediente, e Cristo nunca nos mandará quebrar a unidade da Igreja”.

A mensagem dos dois cardeais é muito clara. A missa tridentina é um tesouro que a Igreja precisa preservar – não trancado em um museu, mas vivo nas igrejas? Sim, é. É verdade que os fiéis da SSPX levam a sério a doutrina e a moral da Igreja? Sim, é. Mas tudo isso será posto a perder se os lefebvristas escolherem (de novo) o caminho da desobediência.

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