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Rússia fica estagnada em inovação e busca alternativas na corrida tecnológica militar

A Rússia enfrenta uma estagnação em termos de inovação que compromete o desenvolvimento tecnológico do seu setor militar, o que, segundo analistas, pode comprometer futuras incursões do regime de Vladimir Putin além da atual guerra na Ucrânia.

Tal cenário resulta da necessidade de reinvenção rápida após as sanções ocidentais decorrentes do conflito; da falta de investimentos em inovação civil; e da pouca articulação desta com o complexo industrial militar do país, que pesquisa novas tecnologias numa estrutura burocratizada, herdada dos tempos da União Soviética.

O alerta já foi disparado dentro do Kremlin: na semana passada, em uma reunião do Conselho de Ciência e Educação na cidade de Novosibirsk, na Sibéria, Putin pediu que empresas russas ajudem a acelerar o desenvolvimento de tecnologias avançadas.

“Sem qualquer exagero, praticamente tudo no mundo moderno depende da velocidade com que as inovações são criadas e, claro, implementadas: nossa soberania, o desenvolvimento econômico e o cumprimento de tarefas tanto civis quanto críticas de defesa, que hoje estão tecnologicamente interligadas”, disse o ditador na ocasião.

Segundo informações do jornal The Moscow Times, o orçamento federal da Rússia para a área de ciência civil no ano passado representou apenas 2,5% do total de gastos federais e foi 22 vezes menor do que as despesas com forças armadas e agências de segurança.

Embora os gastos nominais em ciência civil tenham aumentado 11% em relação a 2024, ficaram 14% abaixo dos níveis pré-guerra quando ajustados pela inflação, relatou o jornal.

O site UNN, citando informações do Serviço de Inteligência Estrangeira da Ucrânia, afirmou que o número de patentes concedidas na Rússia para invenções e desenvolvimentos científicos caiu 25% nos últimos anos, atingindo o nível mais baixo desde o início dos anos 2000.

Estatísticas oficiais apontaram que, em 2025, empresas russas anunciaram a implementação de 2.725 “tecnologias avançadas”, mas apenas cerca de 10% delas eram realmente novas – as demais não passaram de soluções derivadas de outras desenvolvidas e utilizadas há muito tempo fora do país.

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Base científico-militar centralizada no Estado trava a inovação

Em artigo para o Chatham House, Mathieu Boulègue, pesquisador e consultor do Programa Rússia e Eurásia do think tank britânico, disse que a indústria militar russa sofre com as sanções e com uma base científico-militar excessivamente centralizada, concentrada no Estado e dividida entre “uma infinidade de institutos de pesquisa, escritórios de projetos e associações científico-produtivas herdados da era soviética”.

Dessa forma, as possibilidades de colaboração com setores civis, “um importante motor de inovação militar nos países ocidentais”, ficam limitadas.

“Além disso, exceto em alguns setores tecnológicos, como o de drones, a Rússia carece de pequenas e médias empresas dinâmicas no setor de tecnologia que poderiam ser absorvidas pelo complexo industrial de defesa para fomentar uma maior inovação. A interação com o mundo civil raramente ocorre, em grande parte devido ao excesso de sigilo e à falta de confiança mútua”, escreveu Boulègue.

O pesquisador afirmou que o atual nível de inovação é suficiente para a Rússia “se virar” e produzir sistemas “bons o suficiente” para continuar representando uma ameaça à Ucrânia.

“No entanto, ser ‘bom o suficiente’ para prolongar uma guerra contra a Ucrânia não é o mesmo que ser capaz de acompanhar os avanços ocidentais (e chineses) em tecnologia militar a longo prazo”, alertou Boulègue.

Rússia busca ajuda da China para enfrentar gargalos

Em entrevista à Gazeta do Povo, o coronel da reserva do Exército brasileiro Marco Antonio de Freitas Coutinho, especialista em relações internacionais e mestre em ciência política internacional, disse que, embora a lacuna tecnológica em relação aos líderes globais possa persistir em setores comerciais de massa, a mobilização estatal russa garante a manutenção de capacidades avançadas em nichos estratégicos, “como sistemas de drones, tecnologias quânticas, programa nuclear, tecnologias hipersônicas”.

“No curto prazo, algo como dois ou três anos, não vejo que essa defasagem possa afetar significativamente a capacidade militar russa, mas se as deficiências não forem corrigidas, o país poderá perder contato com os avanços ocidentais”, alertou Coutinho.

O especialista citou como exemplo deficiências críticas que persistem nas tecnologias de Inteligência Artificial (IA) e constelações de satélites que possam concorrer com a Starlink, de Elon Musk.

“O ecossistema de ciência e tecnologia (C&T) da Rússia sofreu alterações significativas desde o início da guerra com a Ucrânia, em resposta às sanções e pressões ocidentais. O foco recai sobre a transição de um modelo de integração global para a busca pela soberania tecnológica e o fortalecimento de alianças no eixo eurasiático, particularmente China, Índia, Coreia do Norte e Irã, mas não somente esses. Cito a parceria com o Brasil na área nuclear [civil], que parece estar evoluindo com bastante celeridade”, disse Coutinho.

O analista afirmou que esse conceito de “soberania tecnológica” vem exigindo a diversificação de fornecedores e a redução da dependência de tecnologias provenientes de nações consideradas hostis.

Para compensar a ausência de insumos ocidentais, o regime tem flexibilizado regulamentações em áreas como IA e blockchain para incentivar a inovação rápida por empresas nacionais, mas nessa transição ainda surgem gargalos, como em máquinas de litografia ultravioleta avançada em microeletrônica; encerramento de parcerias com instituições estrangeiras; migração de pesquisadores de áreas estratégicas, como física, matemática e ciência da computação; e a ainda forte dependência externa das indústrias de alta tecnologia.

“Além disso, programas como o espacial enfrentam lacunas cronológicas devido à necessidade de substituir componentes estrangeiros em telescópios e sondas lunares, empurrando metas importantes do programa russo para além da década de 2030”, afirmou Coutinho.

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