Aos 58 anos, posso afirmar com toda a seriedade que uma das coisas mais devastadoras de nossa época é esse renovado interesse pelo socialismo. Passei toda a minha carreira tentando promover a dignidade da pessoa humana, mas o socialismo, em todos os lugares e sempre, avilta o livre arbítrio e a dignidade humana. Em suas fases violentas, ele simplesmente apaga do mapa qualquer dissidente. O que aconteceu, pessoal? Temo que ainda tenhamos pela frente mais um século de campos de concentração, gulags e campos de matança. Permitam-me explicar melhor, enquanto expresso um pouco da minha frustração com o estado atual do mundo.
Como é evidente em toda parte na política, nas notícias e nas redes sociais, o socialismo teve um retorno surpreendente – ao menos para mim – e estrondoso na cultura norte-americana. Historicamente, é claro, já passamos por períodos de forte influência da esquerda. Durante a Primeira Guerra Mundial, o socialismo se misturou ao anarquismo. Durante a década de 1930, a Grande Depressão testemunhou o maior apoio aberto de todos os tempos ao Partido Comunista e às causas da esquerda radical. O fim dos anos 1960 e o início dos anos 1970 também viram um enorme ressurgimento da esquerda, com a “Nova Esquerda” – mas, assim como na Primeira Guerra Mundial, havia uma mistura de anarquia com socialismo e causas socialistas.
A Velha Esquerda havia adotado uma forma estritamente econômica de marxismo. Seus filhos, os chamados “bebês de fralda vermelha” da Nova Esquerda, eram muito mais astutos, muito mais pacientes e muito mais dispostos a jogar o jogo de longo prazo. Para eles, a economia importava, mas a cultura importava muito mais. Eles se interessavam mais por Antonio Gramsci e C. Wright Mills do que por Karl Marx e Joseph Stalin. Aceitando a derrota política de 1972 [quando o republicano Richard Nixon se reelegeu presidente, vencendo o democrata George McGovern], eles ingressaram em todos os níveis da educação – do ensino fundamental ao universitário e à pós-graduação – e nas instituições culturais e artísticas dos Estados Unidos. E esperaram pacientemente.
O socialismo, em todos os lugares e sempre, avilta o livre arbítrio e a dignidade humana
O primeiro indício de que eles haviam causado sérios danos surgiu no fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, com o movimento do “politicamente correto”. Depois, intensificaram sua atuação na academia por meio da trindade profana de raça, classe e gênero. A Velha Esquerda havia se preocupado sobretudo com a classe; a Nova Esquerda e seus descendentes se preocupavam muito mais com raça e gênero.
Então, formando uma aliança verdadeiramente estranha com o islamismo radical, a “nova Nova Esquerda” revelou-se, há cerca de uma década, com a ascensão do chamado “Squad” (um grupo de deputadas de esquerda, frequentemente combinando islamismo e socialismo), com um prefeito de Nova York muçulmano e socialista, e, agora, abertamente, com uma aliança entre os Socialistas Democráticos da América (DAS, na sigla em inglês) e o Partido Democrata.
O surpreendente nisso tudo é que o conservadorismo, ao longo dos últimos 70 anos, fez um trabalho extraordinário e admirável ao vigiar seus próprios integrantes, neutralizando extremistas e racistas. Mas a esquerda, muito recentemente, passou a abraçar seus extremistas e racistas (pense no Southern Poverty Law Center e em Graham Platner), deixando de vigiar os seus próprios membros. Agora, o DSA parece estar em toda parte, e conta com aliados muito importantes no Congresso, especialmente na Câmara dos Representantes, e pelo menos um aliado na Suprema Corte.
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Dado seu repentino crescimento e destaque, vale a pena considerar exatamente o que o DSA defende. Segundo sua própria plataforma, eles buscam: a abolição de todas as dívidas estudantis; um sistema de saúde administrado pelo governo; propriedade pública da moradia; libertação queer das mulheres (fim do patriarcado nas famílias); libertação da Palestina; abolição do Colégio Eleitoral; abolição do Senado; propriedade pública de empresas e indústrias; e ampliação da Câmara dos Representantes, concedendo-lhe poder sobre o Executivo e a Suprema Corte. Isso é apenas uma amostra do que eles defendem. Imaginem, dizem eles: não é apenas socialismo, mas democracia e socialismo. Para alguns, “socialismo democrático” soa melhor que, digamos, “socialismo cambojano”, mas combinar democracia e socialismo me parece um tipo de inferno.
Quando a deputada Alexandria Ocasio-Cortez foi recentemente questionada sobre seu apoio à abolição do Senado, ela respondeu de maneira bizarra, demonstrando completa ignorância, alegando que “elementos” do Senado vêm das “leis de Jim Crow” (leis de segregação racial em estados do sul dos EUA). Ela de fato não é uma pessoa muito brilhante, mas até isso é extraordinariamente estúpido. Se ela está falando do filibuster – o mecanismo de obstrução parlamentar –, está simplesmente errada. O filibuster remonta ao início do Senado, mais de um século antes de Jim Crow.
Tenho argumentado recentemente, até ficar rouco, que a democracia, embora necessária em uma república, não é o melhor aspecto da sociedade; e que a democracia, desde Platão, tem sido amplamente reconhecida como uma fraude, uma mera fachada que permite que 50,1% das pessoas atuem como tiranas e brutalizadoras. Então, desta vez concentremo-nos apenas no socialismo.
Para alguns, “socialismo democrático” soa melhor que, digamos, “socialismo cambojano”, mas combinar democracia e socialismo me parece um tipo de inferno
Primeiro: ele é totalmente antinatural. Imaginemos a pessoa humana no mundo judaico-cristão. O homem é feito à imagem de Deus, como descobrimos claramente em Gênesis 1, mas Deus assume a imagem do homem na Encarnação. Em outras palavras, por mais decaídos que sejamos, somos feitos de maneira única à Sua imagem, e Ele, por meio de Maria e do Espírito Santo, assumiu a nossa imagem. Ambos, portanto, tornam-se sagrados.
O socialismo e a democracia exigem conformidade. Mas o que nos mantém unidos como seres humanos? Nosso pecado, nossa depravação, as partes mais baixas de cada um de nós. O que nos distingue como indivíduos – nossas excelências – é aquilo que é diferente em cada ser humano. Em uma sociedade livre e estável, a comunidade não apenas atenua nosso pecado; ela promove nossas excelências. De alguma maneira misteriosa, tornamo-nos mais nós mesmos na comunidade, e não menos. Sim, somos feitos para a comunidade, mas não para a conformidade.
Segundo: o socialismo, sempre e em toda parte, degenera em abuso direto da pessoa humana. Já existiu algum socialismo que não tenha resultado na criação de um gulag, de um campo de concentração ou de um campo de matança? Em toda parte, o socialismo, duro ou brando, resultou em opressão e massacres em massa. Os números não mentem. Como sabemos muito bem, governos entre 1917 e 1991 – alguns fascistas, alguns nacional-socialistas e alguns comunistas – assassinaram 205 milhões de pessoas. Nunca na história do mundo houve um assassino em massa maior; só as doenças superam esse número.
Já existiu algum socialismo que não tenha resultado na criação de um gulag, de um campo de concentração ou de um campo de matança?
Terceiro: uma preocupação prática. Por que diabos qualquer pessoa sensata desejaria dar ainda mais poder à esfera política da vida? Sim, a política tem seu lugar, mas a família também tem, assim como a religião, a educação, o associativismo e as pequenas empresas. Não há razão para que a política deva se apoderar e controlar qualquer uma dessas outras esferas. Além disso, quando é que o controle governamental de alguma coisa funciona? Você realmente gostaria que seu sistema de saúde fosse administrado pelo Departamento de Veículos Automotores?
A democracia não passa de uma fachada para a conformidade e o poder, e o socialismo não passa de uma fachada para a conformidade e o poder. Combine os dois, e teremos uma fachada para ainda mais conformidade e ainda mais poder. Não há nada de bom, moderno ou descolado no socialismo. Em toda parte, ele abusou da pessoa humana, tudo em nome da humanidade.
A Igreja Católica sempre soube disso. Como afirmou inequivocamente o Papa Pio XI, “ninguém pode ser ao mesmo tempo um bom católico e um verdadeiro socialista”. 205 milhões de almas gritariam em concordância, se ao menos as escutássemos.
Bradley J. Birzer é escritor, cofundador de The Imaginative Conservative, professor de História no Hillsdale College e pesquisador na Biblioteca Presidencial Ronald Reagan.
©2026 The Imaginative Conservative. Publicado com permissão. Original em inglês: A Resurgence of Socialism, Democratic or Otherwise


