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A crise da educação brasileira

A notória baixa qualidade da educação brasileira, conquanto tenha causas históricas complexas, pode ser constatada pela observação simples do precário nível da maioria da população quanto ao domínio da língua portuguesa e dificuldade de efetuar operações matemáticas simples de uso cotidiano, atestado por pesquisas como o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf). Outra evidência é a repetição constante dos baixos resultados do Brasil nos testes internacionais como o Pisa, em algumas edições ficando atrás de nações latino-americanas cujo nível de desenvolvimento econômico não é superior ao brasileiro. A polarização política, por sua vez, prejudica qualquer medição séria e análise técnica sobre os problemas da educação, limitando-se a críticas e xingamentos sem conteúdo sério, como aconteceu com o debate sobre as chamadas escolas cívico-militares.

Além dos problemas específicos do Brasil, no mais das vezes analisados e julgados sob viés político-partidário, o país padece da falta de estudos profundos e isentos sobre a lógica da educação pública no mundo ocidental, principalmente em face do atual nível de desenvolvimento da ciência, sistemas, equipamentos e recursos materiais tecnológicos oferecidos pelo progresso da ciência. O embrião do modelo moderno de educação pública compulsória começa a tomar forma no século 18, com o primeiro sistema nacional estatal de educação obrigatória implantado sob o comando de Frederico Guilherme I da Prússia. Como rei soberano, ele promoveu reformas entre 1713 e 1740 para fortalecer seu exército e consolidar o poder do Estado, sendo que em 1717 ele decretou a criação de escolas primárias obrigatórias para todas as crianças de 5 a 12 anos, uma medida inédita na Europa.

Na Coreia do Sul, a educação de base recebeu prioridade, o analfabetismo foi eliminado e a qualificação técnica geral da mão de obra se elevou significativamente

A educação moderna no mundo ocidental até hoje tem suas bases no sistema organizado na Prússia, e as sucessivas reformas educacionais se limitaram a algumas inovações, mas mantendo os pilares da educação prussiana. Embora houvesse críticas ao que se chamou de “modelo fabril” de educação, um sistema padronizado que priorizava métodos uniformes, horários rígidos, testes repetitivos, disciplina militar, hierarquia e obediência, com prejuízos à criatividade e à busca pelo saber, esse modelo foi estudado e adotado pelos reformadores americanos no século 19, sob a liderança de Horace Man, considerado o pai da escola pública nos Estados Unidos. Em 1852, Massachusetts se tornou o primeiro estado a adotar oficialmente a educação obrigatória e, até 1900, quase toda a nação já havia seguido o mesmo caminho. Outros países ocidentais adotaram trajetórias semelhantes.

Na virada para o século 20, a maioria das nações europeias já havia adotado a escolarização compulsória segundo o modelo prussiano. Ocorre que esse modelo, quando aplicado por vários países, teve evolução diferente, e o fraco desempenho da educação brasileira na comparação com o mundo desenvolvido mostra que por aqui, segundo alguns analistas, houve mais falhas de execução do que erros de concepção.

Nesse sentido, há comparações interessantes que oferecem alguns elementos para o entendimento de por que o Brasil não conseguiu desenvolver uma boa educação de base e continua com dificuldade para superar as falhas e melhorar o sistema, sem o que não há desenvolvimento econômico possível. Um dos exemplos extraordinários de crescimento econômico e superação da pobreza no pós-guerra é a Coreia do Sul, cujo sucesso teve base em um sistema educacional de qualidade. Em 1945, houve a divisão da Coreia em dois países: a Coreia do Norte, que permanece uma ditadura comunista miserável e atrasada até hoje; e a Coreia do Sul, que, embora sendo muito pobre até os anos 1960, assombrou o mundo com seu desenvolvimento e capacidade de superar a pobreza.

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Vale registrar que, após o fim da guerra contra a vizinha do norte, a Coreia do Sul abraçou o capitalismo e a economia de livre mercado, revolucionou a educação e o país enriqueceu. Entre os elementos responsáveis pelo sucesso coreano estão: a reforma agrária implantada no pós-guerra, que diminuiu sensivelmente a pobreza rural; a revolução educacional mencionada, caracterizada por maciços investimentos na educação de base; a abertura da economia para o exterior; a prioridade às indústrias voltadas à exportação; e pesados investimentos em infraestrutura de transporte, comunicação e tecnologia de ponta.

Quanto à revolução coreana na educação, há que destacar a ênfase na educação das mulheres, o que levou à formação de uma legião de mulheres qualificadas. A educação de base recebeu prioridade, o analfabetismo foi eliminado e a qualificação técnica geral da mão de obra se elevou significativamente, tudo vinculado à prioridade dada à aplicação de recursos no ensino tecnológico e domínio das matemáticas. A análise das experiências internacionais no campo da educação não é destinada a que o Brasil simplesmente copie qualquer dos modelos sem levar em conta a realidade brasileira, mas serve para aprender o que funcionou e o que não deu certo entre as muitas experiências e modelos que foram adotados ao longo da história.

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