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“Abriu um precedente muito perigoso”, diz jornalista alvo de Moraes

O jornalista maranhense Luís Pablo, alvo de uma operação de busca e apreensão autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), após publicar reportagens sobre o suposto uso irregular de carros oficiais pelo ministro Flávio Dino e familiares, afirma que a investigação abriu um “precedente muito perigoso” para a imprensa brasileira. Em março, a Polícia Federal esteve na casa do jornalista e apreendeu equipamentos de trabalho. Agora, novos mandados atingiram o ex-secretário de Estado do Maranhão Raimundo Cutrim, apontado como fonte de Pablo nas reportagens, e, ferindo, portanto o direito ao sigilo da fonte jornalística, previso na Constituição Federal.

Em entrevista à coluna Entrelinhas, Pablo rebateu as acusações apresentadas contra ele, entre elas a de que teria monitorado Flávio Dino e recebido dinheiro para produzir reportagens contra o ministro. Segundo o jornalista, as próprias datas presentes na investigação contradizem essa versão: ele afirma ter recebido o material jornalístico em novembro, enquanto a conversa sobre um empréstimo pessoal com um advogado ocorreu em setembro. Pablo também sustenta que a investigação teve como objetivo identificar sua fonte e critica a atuação das entidades de imprensa diante do caso.

Entrelinhas: A Polícia Federal sustentou que o senhor teria causado “perturbação do equilíbrio psicológico” de Flávio Dino ao publicar reportagens sobre o uso de veículo oficial pelo ministro e sua família. Como o senhor reage a essa alegação?

Pablo: Se não fosse trágico, seria cômico. O ministro dizer que quem está abalado psicologicamente é ele, e não o jornalista que teve a Polícia Federal na sua casa, levando seus equipamentos de trabalho, deixando o jornalista por dias sem trabalhar, sem sua ferramenta.

Eu não tenho nem palavras para descrever uma situação tão absurda dessa.

Ele se sentia abalado por eu ter mostrado algo de interesse público. Ele deveria se sentir abalado em explicar por que a família dele e ele estavam usando o carro de forma irregular aqui no Maranhão. Porque eu divulguei uma notícia comprovadamente, com documento. O ministro deveria se explicar a respeito disso, e não eu ter que dar explicações sobre a denúncia que eu fiz.

Entrelinhas: O senhor afirma que não monitorou Flávio Dino. Como essas informações chegaram até o senhor?

Pablo: Eu não fui atrás do ministro, eu não segui seus familiares para filmar ele. Eu recebi o material. E, como bom jornalismo, eu mandei questionamentos para eles, pedido de esclarecimento, para o e-mail do gabinete do ministro Flávio Dino, para a presidência do Tribunal de Justiça do Maranhão. Ambos não me responderam. E aí eu divulguei a informação.

O jornalista tem que andar em uma linha tênue entre a fonte de informação e o interesse público.

Entrelinhas: E por que o senhor decidiu esperar antes de publicar o material?

Pablo: Quando eu recebi o material da fonte, que foi em vídeo e fotos, na mesma hora eu apurei que aquilo ali foi feito, uma imagem da mulher do ministro, de dentro de algum veículo.

Quando eu recebi o material da fonte, eu já pensei que, se eu colocasse naquele momento, o ministro Flávio Dino, por meio da Polícia Federal, ia na mesma hora no local para captar as imagens, para ver se descobria de onde partiram essas imagens.

Então eu fiz isso justamente pela questão de preservação da fonte.

Entrelinhas: Uma das questões que passaram a ser utilizadas contra o senhor envolve um suposto pagamento de R$ 100 mil. O que existe, de fato, nessa história?

Pablo: São duas situações de conversas em datas diferentes. O material eu recebi no início de novembro. Minha conversa com o advogado sobre o dinheiro que ele me emprestou foi em setembro.

E detalhe: eu tenho como comprovar que eu devolvi o dinheiro. Eu paguei esse dinheiro que ele me emprestou em fevereiro. A operação ocorreu contra mim em março. Então todas essas datas caem por terra, todas essas acusações em relação ao dinheiro.

Entrelinhas: O senhor diz que a própria documentação da investigação apresenta datas que, na sua avaliação, contradizem essa versão. Como?

Pablo: Na conversa extraída pela Polícia Federal está lá que eu recebi o material dia 1º de novembro. Eu fui publicar a matéria só dia 20 de novembro, depois de várias semanas.

A própria decisão em que a imprensa toda do Brasil teve acesso, a própria Polícia Federal se contradiz, porque ainda está dizendo que eu recebi o dinheiro. Na conversa que eles extraíram do meu WhatsApp tem lá os comprovantes do mês de setembro, e minha conversa, o material que eu recebi da minha fonte, foi dia 1º de novembro.

Como é que eu recebi um dinheiro para pagar? Como é que eu recebi um dinheiro para divulgar uma informação da qual eu não tive nem acesso ao conteúdo? Eu fui ter depois de um mês. Então isso mesmo desmente essa própria versão deles.

Entrelinhas: Além das consequências jurídicas, o senhor sente que esse episódio afetou sua vida profissional?

Pablo: Não há dúvidas que estão me destruindo profissionalmente.

Eles pegaram uma situação pessoal minha e uma situação de reportagens profissionais para querer tentar me desmoralizar, dizendo que eu recebi dinheiro para divulgar reportagens contra o ministro Flávio Dino.

Só que a própria decisão em que a imprensa toda do Brasil teve acesso, a própria Polícia Federal se contradiz.

Entrelinhas: E como ficou sua relação com as fontes e com as pessoas que procuram o seu trabalho?

Pablo: O jornalista tem que preservar sua fonte. Eu recebi o material e fiz o meu trabalho. Eu procurei os envolvidos para pedir esclarecimentos e não tive resposta.

E o que aconteceu comigo mostra que existe um problema muito sério para a imprensa. Não se trata do Luís Pablo. Se trata de toda a imprensa do país.

Entrelinhas: O senhor acredita que as entidades de imprensa deveriam ter uma reação mais contundente?

Pablo: Em março, quando isso aconteceu, a imprensa todinha divulgou nota, mas ainda assim não foi suficiente. Então eu acredito que todas as entidades de imprensa deveriam se unir para agir.

É preciso entrar com uma ação, uma representação para arquivar isso, porque não se trata do Luiz Pablo, se trata de toda a imprensa do país. Isso abriu um precedente muito perigoso.

Entrelinhas: O senhor chegou a citar outros jornalistas que trabalham com informações obtidas de fontes. Por que considera esse precedente tão grave?

Pablo: Imagina só a situação que aconteceu do Banco Master, onde a Malu Gaspar divulgou tudo que estourou hoje em dia sobre o Vorcar. Imagina se a Polícia Federal tivesse ido na casa dela e descoberto a fonte dela.

Eu acredito que não foi também porque é uma pessoa de uma grande emissora. Agora, por se tratar de um jornalista do Maranhão, eu acredito que eles acharam que isso não ia incomodar, que eu ia me intimidar, que ninguém ia comentar sobre isso.

Mas foi algo muito grave, que não desrespeita só a mim, mas desrespeita toda a imprensa.

Entrelinhas: E quanto à origem das imagens e à identificação da fonte, o que o senhor pode dizer?

Pablo: Eu não sei se foi o secretário mesmo que filmou, se ele mandou alguém, enfim, o material chegou até mim.

Quando a polícia foi lá pegar as imagens, em 15 dias tudo é apagado. O sistema de monitoramento, porque tudo que fizeram, toda a gravação, foi dentro de uma associação que tem aqui no Maranhão.

Então a Polícia Federal foi lá, só que não encontrou nada, porque durante 15 dias isso vai sendo deletando e fazendo novas imagens, no sistema de filmagem de instituição, de qualquer algo, 15 dias ou 30 dias.

Eu fiz isso justamente pela questão de preservação da fonte.

Entrelinhas: Diante de toda essa repercussão, o senhor se arrepende de ter publicado as reportagens sobre Flávio Dino?

Pablo: Eu, como jornalista, não posso me calar diante de um fato que é de interesse público.

Todo mundo comentava nos bastidores: “Flávio Dino vai mandar te prender”, “o que tu fez, Pablo?”, “tu teve muita coragem”, “isso é muito grave”.

Falar de Flávio Dino represália. Só que eu, como jornalista, não posso me calar diante de um fato que é de interesse público.

Entrelinhas: Qual é a principal mensagem que o senhor gostaria de deixar para os jornalistas que estão acompanhando esse caso?

Pablo: Não se trata do Luís Pablo. Se trata de toda a imprensa do país. Isso abriu um precedente muito perigoso.

O jornalista tem que andar em uma linha tênue entre a fonte de informação e o interesse público. E eu fiz o meu trabalho.

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