EUA e Brasil vivem nova fase turbulenta na relação bilateral (Foto: Jonas Roosens/EFE/EPA / Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)
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Brasil e Estados Unidos caminham para a mais grave crise em dois séculos de relações diplomáticas. Tarifas, vistos negados e acusações de censura e de perseguição a aliados alimentam atritos jurídicos, comerciais e políticos, que ainda podem impactar fortemente a sucessão presidencial brasileira.
As tensões ganharam capítulo especial esta semana quando o deputado americano Carlos Gimenez divulgou uma fotomontagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) alusiva à imagem do ditador venezuelano Nicolás Maduro capturado pelo grupo Delta, a elite militar dos EUA, rumo à prisão.
Essa postagem foi amplamente difundida por políticos e simpatizantes da direita, incluindo o presidente argentino, Javier Milei, e gerou especulações sobre uma suposta missão do Delta em curso para a captura, em território brasileiro, nos próximos dias, de Lula ou de um chefe do narcotráfico global.
Dentro da sua nova política para as Américas, os EUA classificaram o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas em maio, dias após o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) defender a medida perante autoridades em Washington. Especialistas viram potencial interferência eleitoral. Já Lula alegou violação da soberania.
Lula mostra irritação com secretário de Estado dos EUA e prisão de Maduro
O presidente e o seu ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, comentaram o risco de incursões militares dos EUA no Brasil, admitindo não haver chance de resistência a operações como a que levou Maduro para Nova York. Lula martelou na tecla de que é preciso investir mais no aparato militar do país.
José Múcio brincou dizendo que restaria ao Brasil “abrir o portão” para uma invasão americana, face à escassez de recursos para reagir. Lula preferiu seguir na retórica contra a Casa Branca, carimbando no secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, a marca de seu antagonista e cabo eleitoral de Flávio.
Enquanto isso, analistas abordam o risco de Washington negar ou talvez só retardar o reconhecimento de uma eventual vitória da reeleição de Lula nas urnas de outubro. Esse seria o último estágio de uma trajetória de ameaças e de cobranças em torno da lisura e da democracia do processo eleitoral.
Na avaliação de Márcio Coimbra, presidente do Instituto Monitor da Democracia, tratar como exagero o risco de os EUA não reconhecerem a eleição ignora a atual tensão bilateral. Mas considerar esse desfecho iminente também seria erro: hoje, prevalecem pressão política e retórica estratégica.
O cenário mais realista, diz Coimbra, envolve demora ou frieza no reconhecimento do resultado, dura narrativa durante a campanha e eventuais sanções seletivas. “A recusa formal seria um passo extremo e contraproducente aos próprios interesses estratégicos dos EUA na região”.
Ocorre que a pré-campanha ao Palácio do Planalto já suscitou críticas sobre a postura do Judiciário contra a principal candidatura da direita, com ações para defender Lula de supostas calúnias, isolamento total de Jair Bolsonaro em sua prisão domiciliar e ameaças reais para retirar Flávio da disputa.
Trump aponta perseguição da direita no país e vícios do processo eleitoral
Ao impor tarifas extras ao Brasil há um ano, o presidente Donald Trump chamou o processo judicial contra Jair Bolsonaro de “caça às bruxas”. Sua decisão ainda afirmou que as investidas autoritárias da Justiça brasileira poderiam comprometer a realização de eleições “livres e justas” em 2026.
Na sequência, a ofensiva da Casa Branca mirou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Washington cancelou vistos de juízes do STF e familiares e submeteu Moraes e sua esposa à Lei Magnitsky, acusando-o de censura, detenções arbitrárias e processos politizados.
A sanção financeira contra Moraes caiu em dezembro de 2025. A sua eventual volta, contudo, está no debate público no bojo do novo tarifaço e de abusos do STF. Em paralelo, as plataformas digitais Rumble e Trump Media mantêm na Justiça ação contra atos do ministro contra usuários dos EUA.
O contexto atual revela brutal contraste ideológico com 2022. Naquele ano, o governo de Joe Biden enviou diplomatas e militares ao Brasil para cobrar das Forças Armadas que acatassem o resultado eleitoral que elegeria Lula. Agora, é a própria Casa Branca que tem dúvidas sobre o sistema da votação.
Dúvida sobre processo eleitoral pode sustentar rejeição dos EUA ao Lula 4
O choque entre Washington e Brasília alçou novo patamar em julho. O Brasil negou vistos a Riley Barnes e Samuel Samson, enviados do Departamento de Estado que queriam conhecer o sistema eleitoral. Lula viu a missão como tentativa de desacreditar urnas eletrônicas; os EUA negaram tal intenção.
Antes, Moraes já barrara a visita ao preso Jair Bolsonaro de Darren Beattie, assessor próximo de Trump. Depois, surgiu o impasse sobre o agrément de Daniel Perez, escolhido para embaixador dos EUA em Brasília. Em 4 de agosto, os EUA revogaram o visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti.
A oposição aproveitou a proximidade de Bolsonaro e Trump. Flávio reuniu-se em Washington com o próprio Trump, o vice-presidente JD Vance e o secretário Rubio. Lula reagiu dias depois: “Se o Rubio quiser apoiar o meu adversário, que ele venha e monte aqui seu comitê. Vamos derrotar todos”.
Nessa rotina de embates, Lula tornou a defesa da soberania eixo central da campanha, advertindo sobre o risco de ingerência externa na corrida presidencial. A captura de Maduro fortaleceu o seu discurso nacionalista, que tenta não dar visibilidade às conexões chinesa, cubana, russa e iraniana.
Dúvidas sobre urnas eletrônicas projetam mais conflitos. Flávio citou em reunião com embaixadores documentos da CIA sobre votações na Venezuela e os ligou ao caso brasileiro. A agência americana descreveu cenários de manipulação, algo que pode fundamentar a rejeição do resultado eleitoral.
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