Wagner Moura durante o programa Conversa com Bial, gravado em Atenas, na Grécia, em meio à sua turnê pela Europa. (Foto: Reprodução/YouTube/TV Globo)
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Wagner Moura atualizou seu discurso político. Não que o discurso político de Wagner Moura tenha alguma importância especial. Poderia ter ou não ter, dependendo do teor. No caso, por escolha do próprio ator, o teor é um proselitismo governista sem nada dentro, com vernizes ideológicos mal-ajambrados.
A relevância do que diz ou tem dito Wagner Moura sobre política, portanto, é mensurável pela caricatura. Pela sofreguidão com que ele espalha seus panfletos rasos pelos canhões hollywoodianos. Artista com obra de indiscutível importância, Wagner é hoje mais um exemplo da chamada lacração narcísica com pretexto de consciência política.
Em entrevista recente a Pedro Bial, ele apareceu com texto novo. Disse que a “direita” tem lá seu ponto, quando fala do tamanho do Estado etc. Criticou também o que definiu como “esquerda fascistinha”, referindo-se aos patrulheiros contemporâneos. Wagner apresentou-se, portanto, como alguém ponderado, capaz de refletir sobre suas próprias convicções.
É possível que o ator tenha convicções consistentes sobre várias coisas da vida. Sobre política, navega em poça d’água. Não é peculiaridade dele. Boa parte do suposto debate político hoje é um cozidão de clichês imprestáveis, mas muito evocados e altamente considerados. A demarcação direita x esquerda, que já nasceu inepta mais de dois séculos atrás, é hoje um anacronismo teimoso. Uma assombração de sucesso.
As viúvas do Muro de Berlim ficam chateadas quando alguém critica a dicotomia direita x esquerda. É natural. Quanta gente sem nada a oferecer conquistou pertencimento, audiência, voto, dinheiro e outras vantagens com a mera repetição dessa demarcação indigente? Isso ocorre no mundo todo.
O novo autoritarismo vive basicamente disso: apresenta expedientes de censura como defesa contra ações antidemocráticas “da direita”. E muita gente de boa-fé embarca, porque “direita” e “esquerda” têm múltiplas leituras pelo senso comum — eventualmente opostas e frequentemente inúteis.
Wagner Moura transita entre o anti-trumpismo e o pró-lulismo com ares de quem está militando pela democracia contra a ditadura.
Mas ele está basicamente fazendo propaganda de um regime do qual é amigo e de cujo histórico “problemático” ele se dispensa de cuidar
E está surfando na propaganda geral contra um presidente norte-americano que, basicamente, se dispôs a enfrentar o conluio da informação travestida de jornalismo — a casta dos poderes artificiais com capa “progressista”.
Wagner debochou do grave conflito político brasileiro no quintal controlado de Jimmy Kimmel, um panfletário histriônico como ele. Disse que o Brasil viveu sob o jugo fascista entre 2019 e 2022, sem ser capaz de demonstrar a supressão das liberdades nesse período. A lacração no topo do mundo é segura para o lacrador, mas nem tanto.
A leviandade incomoda, e o público reage pelas redes — essas que os amigos palacianos de Wagner estão sempre querendo controlar, inclusive com assessoria chinesa. Aí o ator disse que cansou de ser “odiado” e apareceu com esse discurso mais “conciliatório”.
Seria ótimo que toda essa “polarização” fermentada por lacradores de todas as estirpes se dissipasse com rajadas de bom senso. Mas ajeitar os clichês um pouquinho mais para a direita ou para a esquerda na velha régua da demagogia não vai conciliar nada.
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