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Os bons conselhos de um bispo no Rio Grande do Sul para a campanha eleitoral

Dom Antônio Carlos Rossi Keller, bispo de Frederico Westphalen (RS), celebra missa na catedral diocesana. (Foto: Fagner Costa/Domine Fotografia Religiosa)

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Com a campanha eleitoral prestes a começar oficialmente, devemos ter cada vez mais notas e mensagens do episcopado brasileiro, com orientações para os fiéis católicos. Já posso garantir que um dos melhores documentos desse gênero vem do interior do Rio Grande do Sul: a nota pastoral assinada por dom Antônio Carlos Rossi Keller, bispo de Frederico Westphalen. E não digo isso por conhecer dom Keller desde a época em que ele ainda era padre em São Paulo, tendo inclusive ido à sua ordenação episcopal em 2008; digo porque a nota é boa mesmo, tanto na orientação para o voto quanto nas normas que ele estabelece para a campanha.

“A Igreja não se identifica com partidos políticos nem apoia candidatos”, afirma o bispo, acrescentando que a função da Igreja neste momento é “formar consciências à luz do Evangelho e oferecer os princípios morais que iluminam a construção de uma sociedade mais justa e fraterna”. E, por isso, “na escolha daqueles que receberão nosso voto, merecem especial consideração princípios fundamentais que não admitem negociação moral” (destaque meu). Esses princípios são: “a defesa da vida humana, desde a concepção até a morte natural; a proteção da dignidade de toda pessoa humana; a promoção e o fortalecimento da família fundada sobre o matrimônio entre um homem e uma mulher; a liberdade religiosa e de consciência; a busca do bem comum; a promoção da justiça social, da solidariedade e da atenção aos mais pobres; a honestidade na administração pública e o combate à corrupção; o respeito à Constituição, às instituições democráticas, à separação entre os poderes e ao Estado de Direito”.

Esse conjunto importa. Infelizmente, parte da catolicosfera conservadora dá muita importância aos primeiros itens da lista – a defesa da vida e da família – e nem sempre enfatiza a atenção especial aos mais pobres, que está entre as grandes obrigações dos fiéis e dos gestores públicos. Quem parte para o reducionismo e trata qualquer menção aos pobres como coisa de “comunista” ou de “teólogo da libertação” está se esquecendo totalmente da lição de Mateus 25. O erro, como já explicou o frei Clodovis Boff aqui na coluna, está em colocar o pobre no lugar de Cristo, trocar o espiritual pelo social; mas abandonar o pobre à própria sorte é outro erro grave. E a Doutrina Social da Igreja não dá uma receitinha única nesse sentido: o católico pode defender uma infinidade de políticas públicas lícitas de combate à pobreza.

“Nenhum candidato ou partido esgota plenamente a visão cristã da sociedade. Por isso, o discernimento deve ser prudente, evitando paixões ideológicas, polarizações, notícias falsas, ofensas pessoais e qualquer forma de violência verbal ou física”.

Dom Antônio Carlos Rossi Keller, bispo de Frederico Westphalen (RS), em nota pastoral

A outra bola dentro da nota é o conjunto de regras bem específicas sobre a postura de padres, diáconos e líderes leigos. Nestes tempos em que padre aproveita até folheto da missa para fazer propaganda eleitoral disfarçada, dom Keller é enfático: nenhum evento religioso (de missa a reunião de pastoral) nem perfis de redes sociais institucionais podem ser usados “para promover candidatos, partidos ou campanhas eleitorais”, e todos devem “evitar atitudes que possam identificar a Igreja ou a comunidade com determinada opção partidária”. Igrejas e capelas não podem ser usadas para nenhum tipo de atividade política; outros imóveis, como salões paroquiais, só podem ser cedidos se forem devidamente alugados.

Os padres devem tomar ainda mais cuidado, pede o bispo, para não “utilizar a pregação ou os meios de comunicação da Igreja para propaganda eleitoral, nem induzir os fiéis a determinadas escolhas políticas, nem mesmo através de suas redes sociais conhecidas”. Sacerdotes são livres para ter sua preferência política, mas também são os pais espirituais de todos os fiéis, lembra dom Keller; por isso, sua missão é anunciar o Evangelho, formar as consciências, ensinar os princípios da Doutrina Social da Igreja e promover a unidade.

Se as regras que dom Keller estabeleceu valem para sua diocese (embora possam muito bem ser replicadas em qualquer outra), as orientações sobre o voto servem para todos nós. Vamos aproveitar os conselhos do bispo de Frederico Westphalen.

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Começou a nova temporada dos sommeliers de devoção

Se a campanha eleitoral oficial começa no próximo dia 16, na véspera começa a Quaresma de São Miguel, e com isso os sommeliers de devoção começam a botar as manguinhas de fora. Desta vez, tivemos dom Vicente Ferreira, bispo de Livramento de Nossa Senhora (BA), que perguntou no X: “Há justificativas teológicas para Consagração a São Miguel? Consagra-se é a Deus Pai, Filho e Espírito Santo. O diabo que se combate não é muito imaginário? Exorcismo maior deve ser: da homofobia, do feminicídio, do racismo, dos crimes contra indígenas. Dessa legião de maldades”.

Bom, o papa Pio IX aprovou uma oração de consagração a São Miguel, e o papa Francisco consagrou o Vaticano ao arcanjo logo no início do seu pontificado, então justificativa teológica deve haver de sobra, como também há para a consagração a Nossa Senhora – a não ser que dom Vicente desconheça a obra de São Luís Maria Grignion de Montfort, o que duvido muito. Como em outros tuítes, ou xuítes, ele já disse que “é perigoso avaliar evangelização a partir de eventos com multidões”, infelizmente me parece que estamos diante de mais um caso de gente incomodada com modos de rezar que não são o seu favorito, quando devia estar feliz por ver alguém levando tanta gente à oração.

Bispos que restringem a missa tridentina estão na contramão

Mais uma da série “bispos que chegam com o pé na porta fazendo bobagem”: o bispo Mark Eckman, que mal acabou de completar um ano em Pittsburgh, decidiu limar a missa tridentina celebrada uma vez por mês na capela de uma paróquia na cidade vizinha de Aliquippa. Em uma carta ao pároco, ele avisou que não pedirá uma renovação da permissão que seu antecessor, bispo David Zubik, havia pedido e obtido duas vezes desde a publicação de Traditionis custodes. Agora, sobrou apenas a celebração diária segundo o missal de 1962 em uma paróquia perto do centro de Pittsburgh, que está sob os cuidados do Instituto Cristo Rei.

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Uma única missa tridentina em uma diocese pouco maior que todo o território da Grande São Paulo. Não é um absurdo igual ao instituído pelo bispo Michael Martin na diocese de Charlotte, mas ainda assim é pouco. E não só isso: hoje, diminuir a oferta de missas tridentinas é o exato oposto do que o papa Leão XIV vem pedindo aos bispos, como fez na mensagem enviada ao episcopado francês. O mais insano disso tudo é que o bispo Eckman não aponta nenhum problema com os tradicionalistas locais; pelo contrário, reconhece que os fiéis “encontraram sustento espiritual nessas celebrações” e se diz “sinceramente grato pelo seu amor à Eucaristia, sua devoção à Igreja, e seu desejo de adorar a Deus com fidelidade”. Mas, se é assim, por que raios acabar com a coisa toda? O que o bispo Eckman ganha com isso?

Em entrevista recente à vaticanista Diane Montagna, o cardeal Robert Sarah disse que preferiria ver Traditionis custodes revogada, mas, se isso não acontecer, que ela então “desapareça aos poucos”, o se acata pero no se cumple que mencionei na semana passada. É uma solução menos ruim, especialmente se o papa Leão continuar a incentivar uma abertura maior dos bispos à liturgia tradicional, mas o problema é que, se a regra permanece, continuará havendo bispos dispostos a perseguir a missa tridentina e que terão a letra da lei a seu favor.

Deixem o papa receber quem ele quiser

No fim de julho, o papa Leão XIV recebeu a veterana roqueira Patti Smith. A julgar pelas fotos e vídeos, parece que os dois curtiram bastante a oportunidade. Mas vários outros não curtiram, porque a Patti Smith isso, a Patti Smith aquilo, nem católica ela é, e tal. De fato, ela não é mesmo. No The Pillar, JD Flynn defendeu o encontro, dizendo que o papado oferece pouquíssimos “prazeres” (na falta de palavra melhor), mas um deles é o de o papa poder chamar quem quiser, pessoas que admira, e elas virão. Mas não é só isso: cada encontro é uma chance de evangelizar, e Flynn sugere que o papa sempre se ofereça para ouvir a confissão do convidado, especialmente se forem políticos ou oligarcas. Nunca se sabe, certo?

Estamos na era da comunicação de massa e da informação. Não há mais como o líder de 1 bilhão de católicos deixar de ser uma personalidade midiática

Já no Substack do vaticanista Edward Pentin, o bispo emérito suíço Marian Eleganti fez uma crítica, bom, uma crítica elegante (desculpem, é mais forte que eu) ao que chamou de “declínio do ministério petrino”: a agenda do papa lhe tira tempo de coisas mais importantes; o papa tem sido cada vez mais convocado a se pronunciar informalmente sobre tudo; a personalidade do papa se tornou mais importante que o seu ensinamento; eles assumem o protagonismo e Cristo fica para trás; o papa se tornou, aos olhos do mundo, “apenas mais um integrante do establishment internacional”.

Quanto ao tempo, bom, só o papa e seus assessores mais próximos serão capazes de dizer se compromissos como audiências, eventos e viagens (sim, o bispo falou das viagens) realmente lhe tomam tempo que ele gostaria de usar de outra forma – e eu posso perguntar se o bispo Eleganti não estaria usando melhor o próprio tempo, sei lá, ouvindo confissões em vez de redigir uma longa crítica que talvez fosse melhor transmitir pessoalmente ao papa na primeira oportunidade em vez de torná-la pública. Concedo que todo esse foco no papa leva a algumas imprudências, especialmente nessas entrevistas improvisadas (que eu mesmo já critiquei), ou no célebre caso (citado pelo bispo) das conversas que o papa Francisco mantinha com o jornalista Eugenio Scalfari, que não anotava nada e depois publicava “de memória” algumas barbaridades que o Vaticano precisava correr para desmentir. Mas é só.

Há gênios que não voltam mais para dentro da lâmpada. Estamos na era da comunicação de massa e da informação. Não há mais como o líder de 1 bilhão de católicos deixar de ser uma personalidade midiática – aliás, o próprio Pentin apareceu nos comentários dizendo que, segundo o cardeal e historiador Walter Brandmüller, o primeiro “papa-personalidade” foi Pio IX, no século 19, graças à fotografia e à expansão das ferrovias, que facilitava a viagem até Roma. E a curiosidade das pessoas sobre como é o indivíduo que ocupa o trono de Pedro é natural; se o público se importa mais com isso que com o que o papa diz, não é culpa do papa – e os veículos de comunicação da Igreja, até onde eu acompanho, não entram nessa, sempre se esforçando por priorizar a palavra do pontífice. Que os católicos queiram ver o papa, cumprimentá-lo, me parece perfeitamente natural: ele é o nosso pai espiritual; nós o queremos bem e desejamos a sua companhia.

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Por fim, lamento algumas injustiças. O papa não está diluindo a doutrina católica se não aproveita cada encontro com uma personalidade que discorda para passar-lhe um sabão; não é culpa dele se os padres James Martins da vida aproveitam cada audiência para tentar botar coisas na boca do pontífice – como eu duvido que o bispo Eleganti endossaria o comentário de uma leitora que escreveu “os papas deviam CALAR suas bocas e apontar para Cristo! Estou farta de todos esses papas pós-conciliares que colocam a si mesmos à frente de Jesus!!”, para vermos que ninguém é responsável quando diz A e os outros entendem B. Até porque duvido muito que qualquer papa queira dar mais importância a si mesmo que a Cristo.

Eu prefiro dar um voto de confiança ao papa, que conhece os seus deveres e sabe melhor que todos nós como deve cumpri-los. Só ele sabe do cansaço de ser o chefe da Igreja, e como lidar com essa fadiga, quando e como descansar, que válvulas de escape ele tem: se é jogar tênis, se é encontrar artistas ou atletas de quem é fã, se é de alguma outra forma. Ele vai prestar contas a Deus do tempo que porventura tenha desperdiçado, como aliás todos nós prestaremos também. Então, rezemos para que nem ele, nem nós joguemos fora o nosso tempo.

Os 100 anos de dom Pedro Fedalto

A Arquidiocese de Curitiba está em festa nesta terça-feira com o centenário de nascimento do arcebispo emérito dom Pedro Fedalto. Eu não acompanhei seu período à frente da arquidiocese, porque me mudei para Curitiba dois meses depois de João Paulo II ter aceito a renúncia de dom Pedro, por razões de idade – mas lhe serei sempre grato por ter “puxado” para cá um dos padres mais santos com quem convivi, monsenhor Luiz de Gonzaga Gonçalves, oriundo do interior de São Paulo. Pude entrevistar dom Pedro algumas vezes, nos meus primeiros anos de repórter na Gazeta do Povo, e sempre me chamaram a atenção o seu bom humor e sua solidez doutrinal. Você pode conferir a curtinha homenagem que a RPC fez a dom Pedro neste vídeo.

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