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Zema: “Pode ser um copo contra o Lula que eu estarei com o copo”

Em entrevista concedida após o anúncio da chapa presidencial do Novo, Romeu Zema falou ao programa Sem Rodeios e à coluna Entrelinhas sobre a disputa de 2026, respondeu às críticas de que sua candidatura dividiria a direita e deixou claro que, em um eventual segundo turno sem sua presença, apoiará qualquer adversário de Luiz Inácio Lula da Silva. Ao longo da conversa, o ex-governador de Minas Gerais também defendeu mudanças no STF, prometeu um amplo programa de privatizações, reformas administrativas e tributárias, criticou o aumento dos gastos públicos e afirmou que pretende repetir em Brasília o modelo de gestão que, segundo ele, recuperou as finanças mineiras.

Entrelinhas: O senhor tem feito críticas ao Supremo Tribunal Federal, especialmente em relação ao que considera excessos e conflitos de interesse envolvendo ministros da Corte. Caso seja eleito presidente, como pretende conduzir a relação entre o Executivo e o Judiciário? E qual deve ser o papel do presidente diante de eventuais pedidos de impeachment de ministros do STF?

Zema: Tenho sido o candidato que mais critica essas aberrações que nós temos assistido de maneira indignada, principalmente no Supremo. É ministro cuja esposa consegue contrato milionário, outro que faz transação acionária milionária, outro que consegue patrocínio para fóruns jurídicos e vários andando em aviões de banqueiro investigado. Em qualquer país sério do mundo, isso já teria ocasionado impeachment, para não dizer prisão, dos envolvidos.

Sei que o impeachment depende do Senado, mas, como não tenho rabo preso, continuarei levando essa luta adiante. Inclusive, estou sendo processado pelo ministro Gilmar Mendes e nem por isso vou recuar.

Também quero mudar a forma de indicação dos ministros do Supremo. Defendo idade mínima de 60 anos, o fim das decisões monocráticas e uma lista tríplice, como utilizei em Minas Gerais, para que o presidente escolha entre bons nomes, e não indique advogado pessoal, advogado de partido ou um aliado político.

Entrelinhas: O senhor afirma que há um desequilíbrio entre os Poderes e que o Supremo tem invadido competências do Congresso Nacional. Em Minas Gerais, o senhor governou sem uma base sólida na Assembleia Legislativa e precisou construir diálogo com os demais Poderes. O que essa experiência lhe ensinou e como ela pode ser aplicada em uma eventual Presidência da República?

Zema: Quando cheguei ao governo de Minas, eu tinha capital político zero. Nunca tinha sido vereador, prefeito ou deputado. Muita gente dizia que meu governo não iria funcionar.

No meu discurso de posse deixei claro, na Assembleia, no Tribunal de Justiça, no Ministério Público, no Tribunal de Contas e na Defensoria Pública, que iria combater a corrupção como nunca havia sido feito. Disse que estava na porta do galinheiro com uma espingarda na mão e que qualquer raposa que se aproximasse teria problema comigo.

Fui governador durante sete anos e meio e ninguém nunca apareceu para me oferecer vantagem, pedir favorecimento ou propor qualquer negócio que me beneficiasse. O exemplo vem de cima. Infelizmente, o Brasil sempre teve presidentes com rabo preso. Eu não terei.

Entrelinhas: Como reconstruir uma política permanente de enfrentamento à corrupção e recuperar a confiança da população nas instituições?

Zema: Combater a corrupção é igual tomar banho: tem que ser todos os dias. Não pode ser algo apenas de campanha. Em Minas Gerais, procurem qualquer escândalo de corrupção durante os meus sete anos e meio de governo. Não vão encontrar.

Quero o apoio do Judiciário que aplica a lei indistintamente para todos e quero mudanças para acabar com a figura dos intocáveis, daqueles que se consideram acima da lei. Chega de vermos pessoas privatizando o Estado em benefício próprio. A lei tem de valer para todos, sem exceção.

Entrelinhas: O senhor já declarou que pretende conceder anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro. Como avalia as penas aplicadas pelo Supremo e quais medidas adotaria para rever essas condenações?

Zema: Imediatamente temos de corrigir essa grande injustiça. Uma pessoa que sujou um monumento receber 14 ou 17 anos de prisão demonstra claramente que o Judiciário tem sido utilizado como tribunal político, e não para aplicar a lei de maneira correta. Como presidente, vou trabalhar para corrigir essas injustiças.

Entrelinhas: O senhor costuma dizer que é especialista em recuperar governos quebrados e cita Minas Gerais como exemplo. O Brasil enfrenta aumento da dívida pública, juros elevados e perda de confiança fiscal. Qual seria o primeiro choque de gestão do seu governo para recolocar as contas em ordem?

Zema: Eu sou especialista em assumir massa falida criada pelo PT. Foi exatamente o que encontrei em Minas Gerais. Funcionário público recebia salário em três parcelas, não havia pagamento de décimo terceiro, aposentados tiveram o nome negativado porque o governo descontava o empréstimo consignado e não repassava aos bancos. Havia um cemitério de obras abandonadas.

Depois de sete anos e meio, entreguei um Estado que saiu de um déficit de R$ 11 bilhões para um superávit de R$ 5 bilhões, com as contas em dia e a folha sob controle.

Vou fazer o mesmo em Brasília com quatro grandes medidas: privatizações, reforma administrativa, uma nova reforma da Previdência e revisão dos programas sociais. Quando o mercado percebe que existe um governo responsável e austero, os juros caem. Vou cortar gastos com muito mais intensidade do que vimos no passado. O Brasil pode voltar a ter juros de país civilizado.

Entrelinhas: Além do ajuste fiscal, o senhor afirma que é preciso tornar o Estado mais eficiente. Quais mudanças pretende implementar para reduzir o custo de produzir e investir no Brasil?

Zema: Quero reduzir o custo Brasil. Hoje quem produz trabalha com uma botina de chumbo nos pés. É preciso simplificar o sistema tributário, modernizar a legislação trabalhista, dar mais agilidade ao licenciamento ambiental sem abrir mão da proteção ao meio ambiente e usar tecnologia e inteligência artificial para tornar o Estado mais eficiente.

Meu compromisso é melhorar a eficiência da máquina pública pelo menos 1% ao ano e transformar esse ganho em redução de impostos. No Brasil, tributo só sobe. Comigo, começará a cair.

Também vou dar o exemplo. Como governador, abri mão de privilégios. Continuei me hospedando nos mesmos hotéis que frequentava quando era empresário. O problema é que muita gente chega ao poder e passa a viver como imperador. O dinheiro público precisa voltar a ser tratado com responsabilidade.

Entrelinhas: O senhor defende um amplo programa de privatizações e costuma citar Minas Gerais como exemplo. Como pretende superar as resistências políticas que historicamente impedem esse tipo de agenda de avançar em Brasília?

Zema: Em Minas, durante a minha gestão, nós privatizamos ou vendemos participações em 118 empresas. Ficou faltando apenas a Cemig. Avançamos muito e mostramos que é possível.

Como presidente, vou levar esse mesmo processo adiante. Muita coisa pode ser feita sem depender do Legislativo, com a venda de participações que o governo possui em diversas empresas. Não faz sentido o Estado manter dinheiro parado enquanto falta estrada, saúde e segurança para a população.

Quero mostrar ao brasileiro que muitos dos problemas que ele enfrenta serão resolvidos quando o Estado deixar de ser empresário e passar a cuidar daquilo que realmente importa.

Entrelinhas: O senhor também defende uma redução da carga tributária. Como conciliar menos impostos com equilíbrio fiscal?

Zema: O segredo é eficiência. O Brasil aumentou impostos inúmeras vezes e, mesmo assim, continua gastando mal. Quero um Estado mais enxuto, usando tecnologia, inteligência artificial e gestão para entregar mais gastando menos.

Se o governo melhora sua eficiência todos os anos, esse ganho precisa voltar para a sociedade na forma de redução de tributos. O brasileiro não aguenta mais sustentar uma máquina pública cada vez maior.

Entrelinhas: O cenário internacional tem sido marcado pela disputa entre Estados Unidos e China. Na sua avaliação, qual deve ser o posicionamento do Brasil diante desse novo equilíbrio geopolítico?

Zema: O Brasil está criando uma dependência da China que pode trazer consequências sérias no futuro e, ao mesmo tempo, se afastando de países do Ocidente com os quais temos muito mais afinidade.

O governo Lula colheu aquilo que plantou. Aproximou-se de regimes como Venezuela, Cuba e Irã, questionou o dólar como referência no comércio internacional e criou atritos desnecessários com os Estados Unidos. Depois, quando vieram as dificuldades comerciais, simplesmente esperou que o problema se resolvesse sozinho.

Eu faria diferente. Primeiro, não criaria esses conflitos. Segundo, se surgisse qualquer impasse, iria pessoalmente negociar até encontrar uma solução. É assim que sempre trabalhei na iniciativa privada.

Entrelinhas: Apesar da experiência administrativa e da boa avaliação à frente de Minas Gerais, o senhor disputa a Presidência por um partido menor e com menos estrutura que seus adversários. Como pretende tornar sua candidatura competitiva?

Zema: Quem me conhece sabe que eu não tenho medo de trabalho. Talvez eu seja o candidato que mais esteja andando pelo Brasil. Como tenho menos recursos, preciso trabalhar muito mais.

Também aprendi a respeitar as pesquisas, mas sem me deixar levar por elas. Em 2018, passei praticamente toda a campanha em terceiro ou quarto lugar e fui eleito governador. O eleitor decide de verdade muito perto da eleição.

Sempre digo que eleição é como cardápio de restaurante. A pessoa só escolhe o prato quando senta à mesa e abre o cardápio. Hoje o brasileiro está preocupado em pagar a conta de luz, trocar o pneu do carro e colocar comida dentro de casa. O modo eleitoral ainda nem começou para a maioria das pessoas.

Entrelinhas: Houve informações de que aliados sugeriram que o senhor disputasse uma vaga no Senado em vez da Presidência. Por que insistir na corrida ao Planalto?

Zema: Muita gente me aconselhou a disputar o Senado, inclusive amigos e pessoas do próprio Novo. Diziam que eu teria uma eleição praticamente garantida.

Mas eu nunca tive perfil para apenas debater. A minha vida inteira foi de execução. Sempre fui aquele que coloca a mão na massa. Como governador, visitei mais de 430 municípios para acompanhar obras e entregas. Meu perfil é administrar e resolver problemas.

Entrelinhas: O fortalecimento do Senado tem sido apontado pelo senhor como fundamental para enfrentar o ativismo judicial. Qual a importância da eleição de uma bancada mais alinhada às suas ideias?

Zema: O Senado tem um papel decisivo. Precisamos de parlamentares que tenham coragem de enfrentar os intocáveis de Brasília e votar aquilo que for necessário para o bem do país.

Enquanto o brasileiro está ficando mais pobre, muita gente em Brasília está ficando mais rica. É Brasília vivendo cada vez mais no luxo e o Brasil cada vez mais no lixo. A renovação do Senado será fundamental para mudar esse cenário.

Entrelinhas: Parte do eleitorado de direita defende a união em torno de uma única candidatura. Como o senhor responde às críticas de que sua candidatura poderia dividir esse campo político? E qual seria sua posição em um eventual segundo turno?

Zema: Estou muito confiante porque temos propostas diferenciadas. Nenhum outro partido combate tanto a corrupção quanto o Novo e nenhum outro é tão coerente nas suas posições.

No segundo turno, tenho certeza de que os candidatos da direita caminharão juntos, como aconteceu em outros países.

Agora, se eu não estiver no segundo turno e houver qualquer candidato disputando contra o Lula, minha posição é muito clara: pode ser esse copo aqui contra o Lula que eu voto no copo. Porque votar no Lula é votar no atraso.

Entrelinhas: Depois de quase oito anos à frente de Minas Gerais, qual é a principal credencial que o senhor apresenta ao eleitor brasileiro?

Zema: Eu não apresento promessa. Apresento resultado. Recebi um Estado quebrado e entreguei um Estado equilibrado, com as contas em dia, menos privilégios e mais eficiência.

O Brasil não precisa de mais discursos. Precisa de gestão, coragem para enfrentar interesses e de alguém que não tenha rabo preso.

É isso que eu fiz em Minas Gerais e é isso que pretendo fazer na Presidência da República.

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