Na diplomacia do presidente Lula, a ofensa não é um problema de princípio. Depende de quem ofende e de quem é ofendido. (Foto: André Borges/EFE)
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Na diplomacia do presidente Lula, a ofensa não é um problema de princípio. Depende de quem ofende e de quem é ofendido. O Itamaraty decidiu que o embaixador Julio Bitelli não voltará a Buenos Aires e que a relação será conduzida por um encarregado de negócios. Trata-se de uma reação às declarações recentes do presidente Javier Milei, que, em visita privada ao Brasil para atender à convenção do PL, chamou Lula de “ladrão”, “corrupto”, “presidiário” e “lixo socialista”, e Alexandre de Moraes de “lixo careca”. O presidente brasileiro, que tem como um dos seus pilares de campanha o chauvinismo de conveniência, reagiu com força.
Mas, no sentido inverso, Lula se vê com o salvo-conduto para ofender ou interferir. Antes da eleição americana de 2024, por exemplo, ele torceu por Kamala Harris e associou uma vitória de Donald Trump ao retorno do “fascismo e do nazismo com outra cara”. Depois, acusou Trump de agir como “imperador” e o classificou como “mau exemplo para a democracia”. O secretário de Estado Marco Rubio virou um “latino-americano frustrado”.
Em agosto de 2023, Lula recebeu Sergio Massa no Planalto quando o ministro argentino já era candidato. Discutiram um mecanismo de US$ 600 milhões para sustentar exportações brasileiras. Mas não parou nisso. O Brasil atuou nos bastidores para a aprovação do empréstimo-ponte de 1 bilhão de dólares do Banco de Desenvolvimento da América Latina ao Banco Central argentino. A operação recebeu 19 dos 21 votos e foi quitada no mês seguinte, serviu para que a Argentina colocasse suas contas em dia com o FMI e destravasse 7,5 bilhões de dólares em empréstimos, que ajudaram a dar oxigênio a Massa, que era titular da pasta da Economia. Não foi doação eleitoral ou dinheiro que saiu dos caixas do Brasil. Foi uma operação bem construída para ajudar o aliado em apuros.
Como se não bastasse, cinco dias antes do segundo turno das eleições argentinas, Lula não viu problema algum em dizer que os argentinos precisavam de um presidente que “gostasse da democracia”, “respeitasse as instituições” e “gostasse do Mercosul”. Uma canelada e tanto no argentino Milei, visto por Lula como a ameaça fascista.
Em julho de 2025, Lula voltou a Buenos Aires com o chanceler Mauro Vieira. Eles não se reuniram bilateralmente com Milei. Preferiram praticar a diplomacia carcerária e foram visitar Cristina Kirchner, que se encontra em prisão domiciliar. Ela recebeu uma condenação por corrupção confirmada pela Suprema Corte argentina. Mas Lula posou com o cartaz “Cristina Livre” e deu eco à narrativa de perseguição judicial. O presidente, que invoca a não intervenção, usou uma viagem oficial para contestar a Justiça do país anfitrião.
Na relação com os Estados Unidos, além do melindre, há algo irreconciliável. O presidente Lula acredita piamente que a Lava-Jato é uma obra dos Estados Unidos.
Portanto, os anos em que ele passou hospedado na suíte construída para ele na sede da PF em Curitiba foram por culpa dos americanos. Na mesma toada do “Brasil acima de tudo e Lula acima de todos”, o petista também resolveu proteger o sistema eleitoral brasileiro barrando diplomatas americanos.
A decisão mais extrema foi a de adiar a concessão de agrément para o embaixador indicado pelo presidente Trump apenas para depois das eleições de outubro
Os Estados Unidos responderam retirando o visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti, que, na prática, está em Washington, D.C., a passeio. É uma retaliação dura e incomum, mas previsível, depois que o Planalto começou a negar vistos para diplomatas seniores e chegou ao extremo de postergar a decisão de receber o embaixador ou não apenas para depois do pleito.
Qual é o padrão nos dois casos? O presidente Lula provoca, personaliza a disputa, eleva o custo diplomático e, quando o outro lado reage, apresenta-se como vítima de uma conspiração contra a soberania brasileira. “Soberania” deixou de descrever a defesa do Estado e passou a funcionar como ativo eleitoral.
Lula se esquece de que Argentina e Estados Unidos não são perfis de rede social que possam ser bloqueados num acesso de irritação. São relações centrais para o comércio, a indústria, a segurança e a influência regional. A diplomacia existe para impedir que a antipatia entre governantes prejudique nações.
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