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Graças ao PSOL, o hip hop está perto de virar patrimônio cultural brasileiro

Se há uma coisa que não falta ao Brasil são problemas urgentes. Há questões fiscais, segurança pública, saúde, educação, infraestrutura, dívida pública, corrupção, violência e uma longa lista de assuntos que, em tese, poderiam exigir a atenção imediata do Congresso Nacional. 

Ainda assim, os deputados encontraram tempo — e, mais do que isso, urgência — para resolver uma questão que aparentemente estava tirando o sono da República: reconhecer oficialmente o hip hop como manifestação da cultura nacional. 

A Câmara dos Deputados aprovou, em meados de julho, o Projeto de Lei 3.839/2024, que estabelece justamente esse reconhecimento. O texto é de autoria do deputado e presidente da Frente Parlamentar em Defesa do hip hop, Pastor Henrique Vieira (Psol-RJ). A proposta foi aprovada em turno único pelo Plenário, e agora segue para o Senado – onde não deve encontrar grande resistência em se tornar lei. 

O projeto recebeu um tratamento especial. Em dezembro de 2025 foi aprovado pela Comissão de Cultura da Câmara sem sequer ser discutido. Em 9 de junho de 2026, o Plenário da Câmara aprovou um requerimento do próprio deputado psolista e de outros parlamentares para que a proposta passasse a tramitar em regime de urgência. Simplesmente porque sim. 

A partir daí, o Congresso tratou de acelerar o que aparentemente não podia mais esperar. O deputado Inácio Arruda (PCdoB – CE) foi designado relator em 30 de junho. Em 14 de julho, apresentou seu parecer preliminar. No dia seguinte, 15 de julho, o projeto foi discutido, votado e aprovado pelo Plenário. Entre o requerimento de urgência e a aprovação definitiva pela Câmara, pouco mais de um mês. 

Projeto sobre hip hop tem apenas dois artigos 

A velocidade chama a atenção sobretudo porque o objeto da proposta não parece exigir exatamente uma operação de guerra legislativa. O texto do projeto é bastante singelo: “Fica reconhecido o Hip Hop como manifestação da cultura nacional”. E só. 

A justificativa explica que o objetivo é valorizar o movimento como patrimônio cultural brasileiro – embora o hip hop não tenha surgido no Brasil. O ritmo nasceu nas comunidades afro-americanas e latinas do Bronx, na Nova York dos anos 1970. As bases do movimento são identificadas por expressões em inglês, como break dancebeatboxingdisk jockey (DJ), master of ceremonies (MC), entre outras. Nada brasileiro. 

PL sobre o Código Penal aguarda na Câmara desde 2010 

Esta não foi uma daquelas matérias que ficam anos esquecidas em alguma gaveta do Congresso enquanto aguardam que alguém descubra uma solução para um problema nacional. É assim com o Projeto de Lei 8.045/2010, que busca reformar o Código de Processo Penal, que é de 1941. 

A proposta chegou à Câmara em 22 de dezembro de 2010, vinda do Senado, e trata de praticamente toda a estrutura do processo criminal: investigação, inquérito, ação penal, provas, prisão preventiva, liberdade provisória, recursos, tribunal do júri, entre vários outros pontos. 

Na prática, enquanto os deputados conseguiram considerar urgente, em 2026, uma lei para declarar o hip hop como uma manifestação da cultura nacional, uma reforma ampla do sistema pelo qual o Estado brasileiro investiga, acusa, julga e pune crimes está há quase 16 anos esperando uma solução. 

E fica ainda pior: a comissão especial que analisava o projeto de reforma do Código Penal foi extinta pela Presidência da Câmara em 2 de junho de 2021. O projeto permanece hoje com a situação de “Aguardando Criação de Comissão Temporária pela Mesa”. 

Deputado cobra investimento estatal no hip hop 

Em suas redes sociais, o deputado Pastor Henrique Vieira chegou a dizer que “o hip-hop não precisa do Estado para existir, mas o Estado precisa parar de criminalizar e começar a reconhecer, valorizar e investir” no movimento.

Em outra postagem, Vieira afirma que “setores reacionários tentam silenciar a juventude das favelas e periferias”, e que “enquanto eles criminalizam, a cultura resiste!”, sem detalhar quem são esses “eles”.

A reportagem tentou contato com Vieira por meio de seu gabinete na Câmara dos Deputados, sem sucesso. O espaço segue aberto para manifestações. 

Movimento hip hop recebe benesses do Estado 

Independentemente de qualquer carimbo legislativo, o hip hop já faz parte da cultura brasileira. O movimento recebe, inclusive, benesses do Estado, como os R$ 50 milhões para implementar a Escola Nacional de Hip-Hop (H2E), programa do Ministério da Educação (MEC) lançado em março de 2026. 

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A novidade é que, em 2026, o Congresso decidiu que era chegada a hora de colocar esse pertencimento na letra fria da lei. E decidiu fazê-lo com urgência. 

A Câmara não é obrigada a escolher apenas um problema por vez. Pode votar medidas provisórias, reformas, projetos de segurança, homenagens, mudanças administrativas e, simultaneamente, decidir quais manifestações culturais merecem reconhecimento oficial. A democracia comporta tudo isso. 

O curioso é a hierarquia das prioridades implícita no uso da “urgência”. Na mesma sessão em que os deputados aprovaram projeto de lei do hip hop, a pauta incluía seis medidas provisórias que destinavam, juntas, quase R$ 1,1 bilhão em créditos extraordinários para ministérios. 

Também estavam na agenda medidas relacionadas a desastres climáticos, reforma agrária, gás de cozinha e prevenção de incêndios florestais. Mas o hip hop não podia esperar. 

O Congresso já havia aguardado desde outubro de 2024, quando o projeto foi apresentado. Depois, o texto passou pela Comissão de Cultura, recebeu parecer favorável em novembro de 2025 e foi aprovado pela comissão em dezembro daquele ano. Ainda assim, aparentemente chegou o momento em que a República não podia mais correr o risco de passar alguns meses sem declarar oficialmente aquilo que artistas, produtores culturais e milhões de brasileiros já sabiam havia décadas. 

O projeto segue agora para o Senado. Se os senadores compartilharem da mesma sensação de emergência dos deputados, o país poderá em breve respirar aliviado: o hip hop estará oficialmente reconhecido como manifestação da cultura nacional. Há muitas tarefas à espera dos parlamentares. Resta apenas descobrir qual será a próxima grande emergência da República. 

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