VILLA NEWS

Lula questiona debates eleitorais

Pelo menos três debates na TV já estão marcados entre agosto e outubro, mas Lula não garante presença. (Foto: André Coelho/EFE)

Ouça este conteúdo

O presidente Lula disse, em entrevista, que não vale a pena participar de debate eleitoral para ficar ouvindo “bobagem”. O entrevistador concordou. Um interlocutor compreensivo faz toda a diferença. Lula sabe onde pisa.

A notícia principal não é a que parece. Claro que um candidato à reeleição presidencial indicar que não pretende debater com os concorrentes é uma notícia e tanto. Apesar de o entrevistador ter achado aquilo normal, numa democracia não é normal — mesmo já tendo acontecido algumas vezes. E a forma que Lula encontrou para dizer isso foi a menos convincente possível: a premissa usada foi a de que candidatos sem cargo são, ou podem ser, franco-atiradores.

Nessa linha, o presidente se disse preocupado com “o nível” dos debates, complementando que nem sabe ainda quem serão os candidatos. Ou seja: quem um postulante qualquer pensa que é para criticar livremente uma autoridade — sem ter nada a perder?

Aí está, mais uma vez, a figura soturna da “narrativa antiestatal” — um expediente retórico criado para estigmatizar a crítica ao poder “em nome da democracia”

Lula, portanto, não estaria disponível para debates eleitorais com o intuito de proteger a instituição da Presidência. Esse tipo de discurso jamais colaria alguns anos atrás. Mas parece que as coisas estão mudando velozmente. O entrevistador do podcast, por exemplo, não viu problema nenhum nessa premissa.

Mas a notícia principal, como dito acima, é outra. Qualquer candidato, estando ou não no cargo, só pensa em faltar a debates eleitorais se considera suas chances de vencer claramente superiores às dos demais. Sem a certeza de um favoritismo expressivo, ninguém evita debates. Em outras palavras: com todas as informações e projeções de que dispõe um presidente da República, Lula tem a convicção de que está com a mão na taça.

Pesquisas e levantamentos de intenção de voto são falhos e têm margens de erro muito largas — eventualmente em favor do contratante. A pré-campanha presidencial deste ano foi especialmente pródiga em desencontros de projeções — tanto dos institutos mais conhecidos como das informações vazadas de sondagens internas. Banco Master, INSS, Michelle Bolsonaro, Trump e outros temas capazes de influenciar ou modificar a propensão do eleitor foram “lidos” de maneiras diversas e até opostas entre si.

O quadro das projeções eleitorais está confuso. Ninguém arrisca dizer ao certo quais acontecimentos ou escândalos abalaram quais candidaturas. Mas o Palácio do Planalto não só parece estar tirando o time de campo dos debates, como também decidiu que Lula começaria a falar explicitamente dessa intenção. É coisa de quem está muito seguro do que faz.

O presidente tem estado à vontade até para falar das suspeitas que recaem sobre seu filho no caso do INSS. A rede de blindagem propagandística do lulismo na imprensa e na elite da sociedade é algo impressionante. Com as obras completas do PT no poder, as peripécias da Lava Jato e todo o quadro de deterioração macroeconômica atual, Lula parece ainda conseguir sustentar um frescor de cavaleiro contra o fantasma da ditadura.

De passagem pelo Brasil para a convenção do maior partido de oposição, o presidente argentino Javier Milei resolveu dar uma trombada nesse status quo. Foi uma postura tão diversa do que se vê por aqui que acabou sendo tratada até como um evento exótico por parte da imprensa. O ministro da Fazenda chamou-o de “palhaço”.

Os próximos dois meses precisarão mostrar onde está o circo e onde está a realidade.

VEJA TAMBÉM:

Encontrou algo errado na matéria?

Comunique erros

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *