Na maioria dos países, quando se pretendeu regular os aplicativos de transporte já era tarde demais: as pessoas tinham se acostumado com o serviço. (Foto: Javier Etxezarreta/EFE)
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Em política, fala-se muito em liberdade, igualdade, justiça, ideologia, interesse, negociação, e até em marketing, mas nunca se fala em velocidade. Nem sequer há grandes obras da teoria política que tratem desse assunto. Mas a velocidade importa, sim, também na política.
O grande Vilfredo Pareto explica como funciona a “circulação das elites” que dominam a política. Um fator importante é a velocidade dessa circulação: velocidade demais gera instabilidade, enquanto lentidão provoca estabilidade, mas também decadência. Um sistema político é equilibrado quando há renovação das elites – nem veloz demais, nem lenta demais. A velocidade é fundamental também para o conservadorismo, pois é notório que, mais que se opor às mudanças em si mesmas, os conservadores se opõem às mudanças muito rápidas e repentinas.
É empiricamente demostrado que, depois de uma crise, se a recuperação é lenta, os incumbentes perdem as eleições. De modo geral, em economia, quando os resultados de um governo são rápidos, o povo tende a confirmar o apoio; se os resultados demoram, o governo estanca.
O Estado é lento demais quando precisaria ser rápido, e rápido demais naquilo em que acaba atrapalhando
Na área da segurança e da saúde, então, agir tarde demais pode ser fatal. Anos atrás, visitei a House of Commons britânica e ouvi um deputado reclamar do fato de que, na sua cidade, as ambulâncias estavam demorando 11 minutos em média para chegar.
A velocidade também importa no caso da regulação. Matt Ridley mostra que a regulação rápida e precipitada impediu que a energia nuclear se tornasse mais segura, que o arroz dourado salvasse mais vidas, e que vários medicamentos pudessem ser desenvolvidos mais rapidamente. Com o Uber e os aplicativos de transporte, pelo contrário, o Estado foi lento: quando se tentou regulamentá-los, muitas pessoas já conheciam e amavam o serviço e vários motoristas já tiravam seu ganha-pão dele, tornando mais difícil a restrição – normalmente, é o que ocorre na área digital, em que há muita inovação e avanços porque ela é mais rápida que a regulação estatal. Uma exceção à regra foi a Itália, mas a velocidade não veio do Estado, e sim dos taxistas: eles foram tão rápidos na reação e no lobismo que logo veio uma regulação rígida, que de fato quase inviabilizou o Uber.
Cerca de 20 anos atrás, eu estagiava no jornal La Stampa, em Turim; era noite e estávamos fechando o jornal quando, de repente, chegou a notícia de que o ministro do Desenvolvimento Econômico, Pier Luigi Bersani, havia aprovado um decreto (chamado “lençol”) com várias pequenas liberalizações. Depois, ele declarou que o fez rapidamente à noite porque, do contrário, teria havido lobismo demais e ele não teria tido sucesso.
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Para a construção de infraestrutura, estradas, pontes, metrô, ferrovias etc., democracias atuais demoram mais que no passado, porque há muito mais regulação, necessidade de autorizações, licitações, audiências públicas etc., a ponto de alguns falarem em “vetocracia”. Por outro lado, regimes autoritários, como a China, fascinam alguns exatamente porque tudo é feito rapidamente, em poucas semanas, já que basta a vontade de um, ou de uns poucos.
O golpe de Estado é quase que por definição uma questão de velocidade: precisa ser rápido para não dar tempo à reação. O autogolpe de Alberto Fujimori no Peru, em 1992, deu certo, entre outros motivos, porque foi veloz; a tentativa de golpe contra Recep Tayyip Erdogan, na Turquia, em 2016, falhou justamente pela lentidão. Não por acaso, na obra The Dictator’s Handbook, o cientista político Bruce Bueno de Mesquita afirma que, para um ditador tomar o poder político, “a velocidade é essencial”. O mesmo ocorre na guerra, que é a “continuação da política com outros meios”, na famosa definição de Carl von Clausewitz: velocidade e surpresa são fundamentais, e ficou famosa a blitzkrieg (“guerra relâmpago”) de Hitler para tomar a Polônia e outras partes da Europa no início da Segunda Guerra Mundial. E, na diplomacia, a lentidão para se condenar algum absurdo internacional é tão significativa que fala por si – o caso mais recente é o de Daniel Ortega, que declarou explicitamente o fim das eleições na Nicarágua, e ainda assim o Itamaraty levou quatro longos dias para criticá-lo.
Como cidadãos, percebemos que, às vezes, o Estado é lento demais quando precisaria ser rápido, e rápido demais naquilo em que acaba atrapalhando. A importância da velocidade é um tema que merece aprofundamento na ciência política.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos
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