O ex-banqueiro e proprietário do liquidado Banco Master, Daniel Vorcaro, tornou-se a figura mais tóxica da política nacional. Já o Senado Federal foi a instituição mais atingida pelas revelações da operação “Compliance zero”. Com a chegada da campanha eleitoral, o tema deve ser explorado por opositores dos senadores Ciro Nogueira (PP-PI) e Jaques Wagner (PT-BA).
A dupla, que disputa a reeleição no Piauí e na Bahia, respectivamente, foi alvo de fases distintas da operação que investiga o suposto braço político do esquema. Durante este período de pré-campanha ao Senado, o rastro das relações políticas de Vorcaro já produziu o primeiro efeito político.
O ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB-DF), que teve o nome citado no episódio envolvendo a tentativa de compra de ativos do Banco Master pelo BRB, desistiu da pré-candidatura ao Senado. Na avaliação do diretor-geral do Ranking dos Políticos — entidade que monitora o trabalho dos congressistas na Câmara e no Senado —, Juan Carlos Arruda, existe um sentimento de fadiga dos eleitores com a corrupção devido aos casos recorrentes na história recente do país, como os escândalos do mensalão e do petrolão.
Apesar de outros temas serem apontados como prioridade para a decisão do voto do eleitor neste ano, principalmente a área de segurança pública, ele ressalta que a repercussão do caso Master será explorada a partir do início oficial da campanha em agosto. Por isso, o escândalo deve repercutir sobre os senadores citados nas investigações sobre o esquema comandado pelo ex-banqueiro.
“O Daniel Vorcaro se tornou uma pessoa extremamente radioativa. Todos aqueles que tiveram o mínimo de contato com ele acabam sendo colocados no mesmo balaio. Estamos muito próximos das eleições. Quanto mais perto, maior a influência do caso no voto do eleitor”, analisa Arruda.
Segundo ele, leva tempo até explicar que “não basta ser a mulher de César”. “Esse é o desafio dos candidatos [investigados] na busca pelos votos dos eleitores”, completa o diretor-geral do Ranking dos Políticos, ao recorrer à máxima que “não basta ser honesto, é preciso parecer honesto”.
Ex-líder do governo Lula (PT) no Senado, Wagner teria recebido diversos repasses, negociado um apartamento em Salvador e utilizado jatinhos do ex-banqueiro. Nogueira é suspeito de receber uma mesada de R$ 300 mil a R$ 500 mil de Vorcaro, além de outras vantagens em troca de atuação pró-Master no Congresso.
Procurada pela Gazeta do Povo, a assessoria do petista informou que Wagner já forneceu todos os esclarecimentos necessários e que “os méritos do procedimento estão sendo discutidos por sua defesa nos autos.” A assessoria de Ciro Nogueira não deu retorno ao pedido de posicionamento da reportagem. Após a operação, em maio, o senador do Piauí alegou que a investigação se tratava de “perseguição política” no ano eleitoral.
Entre os senadores, o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) também teve o nome atrelado a Vorcaro após o vazamento de um áudio em que ele pede o financiamento do filme Dark Horse. O episódio foi mais um que levou o escândalo do mercado financeiro ao centro do debate político no Senado.
Segundo o pré-candidato do PL, a relação com Vorcaro se restringiu ao financiamento do filme, sem qualquer irregularidade. Após a determinação de investigação do episódio pela Polícia Federal, o coordenador da pré-campanha de Flávio, senador Rogério Marinho (PL-RN), afirmou que é “ótimo” que a apuração seja realizada, pois ajudará a provar que não houve ilícito nos repasses.
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Como se saem os senadores na intenção de voto do eleitor
Wagner e Nogueira aparecem entre os mais citados pelos eleitores da Bahia e do Piauí, conforme as últimas pesquisas estaduais dos institutos Paraná Pesquisas e AtlasIntel. Neste ano, cada estado brasileiro vai eleger dois senadores.
Segundo o levantamento estimulado, divulgado pelo Paraná Pesquisas no início de julho, o ex-governador baiano é o segundo mais lembrado pelo eleitor. Jaques Wagner aparece com 36,7% de intenção de votos, atrás de outro ex-governador petista: o ex-chefe da Casa Civil do governo Lula, Rui Costa, que lidera com 50,6%. Na oposição, João Roma (PL-BA) tem 23,2% e Angelo Coronel (Republicanos-BA) aparece com 22,4%, configurando empate dentro da margem de erro.
A situação de Ciro Nogueira no Piauí é semelhante à de Wagner na Bahia. Em números absolutos, o candidato à reeleição ocupa a segunda posição na pesquisa AtlasIntel, divulgada na última terça-feira (21). A diferença é que Nogueira, com 15,3% das intenções de voto, está tecnicamente empatado com o emedebista Marcelo Castro (20,4%) e com o candidato do PSD, Júlio César (14,7%).
Tanto no levantamento da AtlasIntel quanto no do Paraná Pesquisas, os resultados do cenário estimulado consolidam os primeiros e segundos votos apontados pelos entrevistados.
Para Juan Carlos Arruda, o desafio dos senadores candidatos à reeleição será manter as intenções de voto após o eleitor tomar conhecimento mais aprofundado das suspeitas de ligação com Vorcaro.
“Com a campanha na rua e a população ciente — porque isso vai ser explorado pelos adversários —, a tendência é que esses mesmos personagens ou mantenham o platô ou caiam [nas pesquisas]. Dificilmente, eles devem aumentar a expressão junto ao eleitorado”, projeta.
Metodologia das pesquisas citadas:
- 1.200 entrevistados pela AtlasIntel por formulário eletrônico entre os dias 15 e 20 de julho de 2026. A pesquisa foi contratada pelo Sistema Timon de Radiodifusão LTDA. / TV Meio Norte. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 3 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº PI-05787/2026.
- 1.500 entrevistados pelo Paraná Pesquisas entre os dias 27 e 30 de junho de 2026. A pesquisa foi contratada pela SR2 Comunicação Ltda/Bahia Notícias. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2,6 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº BA-04848/2026.
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Suspeitas à direita e à esquerda tendem a diminuir impacto do Master nas urnas
O professor do Insper São Paulo e cientista político Leandro Consentino analisa que o escândalo do Banco Master deve ter um impacto menor nas eleições deste ano em relação à operação Lava Jato, que atingiu o PT nas urnas durante o auge das investigações dos desvios na Petrobras. Para ele, a repercussão eleitoral do caso Master será menor pelo fato de os suspeitos pertencerem a espectros antagônicos da política nacional.
Enquanto presidente nacional do PP e ex-ministro do governo Bolsonaro, Ciro Nogueira é cortejado por Flávio para levar a federação União Progressista à coligação presidencial do PL.
Na sexta-feira (31), a legenda divulgou uma nota na qual reafirma neutralidade no plano nacional. A decisão acabou por vetar que a senadora Tereza Cristina, filiada à sigla, aceitasse o posto de vice na chapa de Flávio. O pré-candidato do PL, contudo, afirmou que não desistirá da coligação.
Jaques Wagner, por sua vez, tem um histórico de militância petista e uma relação estreita com o presidente Lula. Na quinta-feira (30), a Polícia Federal levantou o sigilo da investigação sobre o senador, revelando novos indícios de envolvimento entre ele e Vorcaro.
“O escândalo do Master não é de um partido ou de um lado só. Ele ataca transversalmente a política e vai da direita à esquerda. Se, por um lado, as notícias impactam diretamente o eleitorado, por outro lado ocorre essa diluição na campanha. Ninguém terá o direito de apontar o dedo para o adversário”, comenta Consentino.
Segundo ele, esse cenário provoca descrença no eleitorado e a busca por candidatos alternativos, principalmente nas disputas majoritárias. “Essa ‘tábula rasa’ traz o problema de normalizar [a corrupção] ou de gerar o sentimento de que não há para onde fugir. De um lado isso provoca apatia; do outro, uma corrida ao antissistema”, afirma.
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