VILLA NEWS

Um pouco de honestidade intelectual no debate sobre memórias de vidas passadas

Criança japonesa dizia ter sido uma vítima dos atentados de 11 de setembro de 2001, e afirmou ter “se reconhecido” ao visitar memorial em Nova York. (Foto: Marcio Antonio Campos/Gazeta do Povo)

Ouça este conteúdo

O psicólogo, historiador da ciência e escritor Michael Shermer fundou a revista Skeptic em 1991, e desde então ela continua a ser publicada trimestralmente em versão impressa, com vários outros artigos sendo publicados em seu site. Como diz o nome, o negócio deles é o ceticismo racionalista, incluindo uma dedicação espantosa ao trabalho de “desmascarar” todo tipo de alegações, digamos, não comprováveis. Por isso, quando vi um artigo com o título “Reencarnação: o que a ciência diz e o que não diz (ou não pode dizer)”, fiquei intrigado, menos pelo tema e mais pela abertura à ideia de que há coisas que a ciência de fato não pode afirmar.

O texto é uma republicação (ou versão ligeiramente diferente, não entendi bem) de um artigo publicado por Gideon Lev no jornal israelense Haaretz, e trata quase que exclusivamente das pesquisas sobre crianças que dizem ter memórias de vidas passadas. Vários casos desse tipo são descritos, e Lev também entrevistou diversos estudiosos, alguns deles ligados a um departamento da Escola de Medicina da Universidade da Virgínia fundado por Ian Stevenson, o “pai” dos estudos acadêmicos sobre essas supostas memórias de vidas passadas – alguns de seus herdeiros intelectuais estão no Brasil, como bem sabe o leitor do Tubo de Ensaio que acompanha as atividades do Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (Nupes) da Universidade Federal de Juiz de Fora; algumas das pesquisas deles sobre o tema já foram assunto de colunas aqui.

Quando um cético reconhece que a filosofia, a metafísica e até a teologia talvez tenham respostas que a ciência não pode dar, é preciso reconhecer a honestidade intelectual

Lev falou com pesquisadores de todo tipo: aqueles que acreditam haver algo aí, mesmo sem saber bem o que é; os que começaram acreditando, mas hoje são céticos; os que começaram céticos, mas agora não sabem muito bem o que pensar; e os irredutivelmente céticos – como o próprio Shermer, que durante a conversa com Lev crava frases como “reencarnação não existe” e “não existem coisas como alma ou consciência separada do corpo – só existe atividade cerebral”. Alguns dos seus argumentos eu considero fracos, como aquele segundo o qual, em uma população tão grande, “é inevitável que ocorram fenômenos improváveis”, porque não me parece que a questão esteja na quantidade, mas na qualidade, na natureza do fenômeno: crianças relatando informação à qual jamais poderiam ter tido acesso, marcas de nascença e coisas do tipo.

Mas mesmo Shermer abre a guarda quando diz que “é verdade que há algo sobre a consciência humana que é muito estranho. ‘O que é a consciência?’ é uma pergunta que a ciência não pode responder. Talvez a teologia, a filosofia ou a metafísica consigam”. Whoa!, como dizem os americanos: um cético reconhecendo que a filosofia, a metafísica e até a teologia talvez tenham respostas que a ciência não pode dar? Reconheça-se e aplauda-se essa honestidade intelectual. E que não é exclusividade dele, pois mesmo quem defende as pesquisas de Stevenson sobre memórias de vidas passadas também diz que elas não são provas da reencarnação, como diz o atual diretor do departamento fundado por Stevenson – que também afirmou, um ano antes de morrer, “que ninguém creia que eu tenha a resposta. Ainda estou procurando”. O pessoal do Nupes, aliás, também faz o mesmo, pois, embora eles incluam a reencarnação como uma possível explicação para os fenômenos que observam, não forçam conclusões que a observação não permite tirar.

VEJA TAMBÉM:

Como o leitor do Tubo de Ensaio sabe, eu sou católico e não acredito em reencarnação. E, como eu disse na minha resenha de Ciência da Vida após a Morte, se não houver fraude envolvida nesses casos de supostas memórias de vidas passadas, eu me inclinaria pela existência de alguma outra explicação não materialista – ou que ainda não tenha aparecido, ou que já exista, mas seja considerada menos provável. Mas sim, essas histórias me intrigam bastante, e acho interessantíssimo que haja pesquisas sobre tais fenômenos, que sejam conduzidas com todo o rigor científico possível, de forma que mesmo um cético profissional possa até discordar desta ou daquela hipótese explicativa, mas não seja capaz de desqualificar o que foi observado. Descartar a própria possibilidade de investigação com um “isso não existe nem pode existir” é muito mais anticientífico que postular uma explicação que talvez esteja fora do alcance da ciência.

A propósito, no início de maio Sherman botou no ar uma entrevista com Jesse Bering, que acaba de publicar uma biografia de Ian Stevenson. Embora Bering continue a se definir como um ateu cético, e demonstre isso no vídeo, ele mesmo conta no artigo de Gideon Lev que está naquele grupo dos que começam a pesquisar o assunto loucos para mostrar que é tudo picaretagem, mas agora já não sabem direito o que pensar sobre o que viram. Confiram aí:

Encontrou algo errado na matéria?

Comunique erros

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *