Em meio ao bate-boca público entre o presidente da Argentina, Javier Milei, e representantes do governo brasileiro, o ministro da Fazenda fez uma afirmação controversa: “O palhaço do presidente da Argentina veio ao Brasil ontem e falou de Brasil, quando o risco-país da Argentina é muito mais alto, a dívida pública é muito mais alta, a inflação é muito mais alta”, disse ele, em entrevista a uma rádio.
Uma análise mais ampla dos números, entretanto, revela um cenário de evolução na Argentina e de estagnação (ou retrocesso) no Brasil.
Se é verdade que nos três dados mencionados por Durigan o desempenho do Brasil é melhor, a tendência geral desde a posse de Milei é de melhora em muitos índices.
O mandato de quatro anos do presidente argentino Javier Milei teve início em 10 de dezembro de 2023. Lula havia assumido a presidência do Brasil em 1º de janeiro do mesmo ano. Com dois anos e meio no cargo, Milei viu a Argentina registrar avanços em indicadores relevantes – e que colocam o país em situação favorável na comparação com o governo do PT.
São estatísticas que resultam diretamente de decisões do governo, e não levam em consideração outros dados em que os argentinos tradicionalmente superam os brasileiros há décadas, como o analfabetismo, que, no país vizinho, está em 1,9%, segundo o Instituto Nacional de Estadística y Censos, contra os nossos 4,9%, registrados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) também é historicamente mais elevado na Argentina – atualmente, é de 0,865, contra 0,805 do Brasil.
Contas em dia
O superávit primário, que indica a saúde das contas públicas, é uma conquista recente: depois de registrar o melhor indicador da história do país em 2024, Milei repetiu o feito, com 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB), equivalente a 11,77 trilhões de pesos, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas (Indec). Os dados são resultado direto da política de “déficit zero” da atual gestão.
Em comparação, o Brasil registrou 0,36% do PIB de déficit primário em 2024, ou R$ 43 bilhões, e 0,43% em 2025, o equivalente a R$ 55 bilhões, segundo o Banco Central. A projeção da Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda divulgada em julho é de R$ 58,077 bilhões para 2026 e R$ 53,878 bilhões em 2027.
O crescimento da economia também é mais acelerado na Argentina. Enquanto o PIB nacional fechou 2025 com alta de 2,3% de acordo com o IBGE, no país vizinho cresceu 4,4% segundo o Indec.
E mais: de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), os ajustes realizados por Milei levaram a relação entre dívida pública e PIB a cair de 154,6%, em 2023, para 70,4% projetados para 2026, ano em que o Brasil deve alcançar 96,5%, alta em relação aos 93,3% em 2025 e aos 87% de 2024.
Atração do mercado
Este cenário gera interesse dos investidores. Em 2024, Argentina e Brasil apresentaram desempenhos contrastantes no mercado de ações.
De acordo com um levantamento da consultoria Elos Ayta sobre 21 dos principais mercados globais, o índice S&P Merval, da Bolsa de Buenos Aires, registrou valorização de 114,91% em dólares, enquanto o Ibovespa, da B3, encarou uma queda de 29,92%, a maior desde 2015 e o pior desempenho entre os países avaliados. No ano seguinte, o Ibovespa se recuperou parcialmente, com alta de 17,72%, enquanto a S&P Merval caiu 7,95%.
Em 2026, a situação é de recuperação, resultado da continuidade das mudanças promovidas pelo governo e da aprovação da reforma trabalhista. O momento levou o risco-país a cair de mais de 2.500 pontos, em 2023, para menos de 500. Em meados de julho, a agência de classificação de risco Moody’s Investors Service, uma das três principais do mundo, elevou a classificação de crédito da nação. Em junho, o indicador do maior banco dos EUA, o JPMorgan, registrou que o risco soberano despencou em 450 pontos, menor número desde 2018.
Caminho promissor
A liberdade econômica também está em alta entre os argentinos: a pontuação atual no ranking produzido pela Heritage Foundation é de 57,4, 3,2 pontos acima do ano passado, o maior crescimento registrado no ano entre todas as nações avaliadas. Como aponta a fundação, “a Argentina ocupa a 23ª posição entre 32 países da região das Américas, e seu índice de liberdade econômica tem melhorado significativamente nos últimos três anos sob a presidência de Javier Milei, em comparação com as médias globais e regionais”.
No índice global, o país está na 106ª posição, enquanto o Brasil fica em 134º no geral e 28º nas Américas. “A presença do Estado na economia continua a minar o desenvolvimento de um setor privado mais dinâmico”, indica o relatório da fundação, a respeito do cenário brasileiro. “Apesar de alguns avanços, o processo para organizar novos investimentos e a produção permanece complexo e burocrático. Abrir ou fechar uma empresa é caro e demorado. Regulamentações trabalhistas restritivas continuam a prejudicar o emprego e o crescimento da produtividade”.
O peso do Estado brasileiro fica visível quando se compara o total de ministérios: são 31, além de três secretarias especiais e quatro órgãos com equivalência de ministério, entre muitos outros órgãos federais que não fariam falta se fossem extintos. Na Argentina, eram 18, até que Milei, em seu primeiro decreto, reduziu o total pela metade.
Avanços sociais
Outro indicador em que o Brasil se vê em desvantagem é social: de acordo com o Banco Mundial, 26,2% da população brasileira vivia abaixo da linha da pobreza em 2024, contra 24,1% na Argentina.
Com relação à violência, no primeiro ano do mandato de Milei, a Argentina registrou a menor taxa de assassinatos em 25 anos e chegou a 3,8 homicídios dolosos para cada 100 mil habitantes.
Em 2025, avançou novamente e baixou o indicador em mais 0,2 ponto percentual, de acordo com o Ministério de Segurança Nacional. Enquanto isso, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de julho de 2026 identificou, em 2025, 40.775 casos de mortes violentas intencionais, ou 19,1 por 100 mil habitantes.
São resultados que demonstram que a Argentina oferece lições que o Brasil pode extrair do modelo adotado por Milei.


