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O Lula empurra o Brasil para fora da nova geografia industrial

O presidente Lula em entrevista coletiva em Pequim, na China, em 14 de maio de 2025. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

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A geografia da produção mundial está mudando. Enquanto o Brasil trata a disputa entre Estados Unidos e China como palco para discursos sobre uma ordem “multipolar”, empresas ao redor do mundo, sobretudo as americanas, redesenham suas cadeias com critérios concretos: distância, segurança, tempo de entrega, estabilidade regulatória e risco geopolítico. O nearshoring, portanto, vai além da economia. É parte de uma nova arquitetura de segurança hemisférica.

Entre 2020 e 2025, o comércio americano de bens e serviços com a América Latina e o Caribe saltou de US$ 983 bilhões para quase US$ 1,7 trilhão. No mesmo período, o intercâmbio dos Estados Unidos com a China caiu de US$ 615 bilhões para US$ 496 bilhões. No primeiro trimestre de 2026, foram US$ 450 bilhões negociados com a região, contra US$ 116 bilhões com a China. Os números revelam que o nearshoring não é mais um projeto abstrato, mas uma realidade mensurável.

Isso não significa que as fábricas estejam massivamente abandonando a Ásia. A China continua inserida nas cadeias globais, mas a tendência é que seja cada vez menos. Mas a direção é clara: uma parcela crescente do comércio americano desloca-se para países próximos. No mundo pós-Covid, a estabilidade e a confiabilidade das cadeias de suprimentos se tornaram variáveis que competem com o preço.

Governos não ordenam que empresas abandonem fornecedores, mas alteram seus cálculos. Regras de origem, incentivos, logística, segurança e acesso ao mercado passaram a pesar tanto quanto a mão de obra. Depois da pandemia, das guerras e do uso do comércio como instrumento de coerção, a cadeia mais barata deixou de ser, necessariamente, a mais segura.

O México entendeu isso. Entre 2020 e 2025, seu comércio com os Estados Unidos cresceu US$ 389 bilhões, mais da metade da expansão registrada entre os americanos e toda a região. Sua vantagem combina proximidade, infraestrutura, integração industrial e o acordo entre Estados Unidos, México e Canadá. Componentes, serviços, tecnologia e montagem circulam hoje por uma plataforma produtiva norte-americana. Nesse período, os presidentes esquerdistas do México, Andrés Manuel López Obrador e, depois, Claudia Sheinbaum, não se declararam amigos da América, tampouco se portaram como inimigos.

A América Central avança com zonas francas, indústria farmacêutica, agroindústria e serviços. A Costa Rica mostra que países pequenos podem competir por qualificação e previsibilidade. Na América do Sul, minerais críticos, energia, alimentos, indústria aeroespacial e infraestrutura digital poderiam formar um segundo anel de cadeias confiáveis.

É exatamente aí que o Brasil deveria estar. O país reúne escala, base industrial, energia, agricultura, minerais, tecnologia e posição geográfica.

Poucas economias possuem tantas condições para se tornarem indispensáveis na reorganização produtiva do hemisfério. Lula, entretanto, empurra o Brasil na direção contrária

Em vez de reduzir atritos, recuperar a confiança e negociar pragmaticamente com os Estados Unidos, o governo transforma divergências comerciais em combustível para sua retórica ideológica. Washington está reorganizando sua política econômica em torno de reciprocidade, segurança das cadeias produtivas e proteção de setores estratégicos. O Brasil pode contestar medidas específicas, defender seus interesses e negociar melhores condições. O que não pode fazer é utilizar cada divergência como justificativa para afastar-se da maior economia do planeta e aprofundar sua vinculação com Pequim.

Não cabe ao Brasil esperar indulgência de Washington. Cabe demonstrar que pode ser um parceiro confiável, economicamente relevante e estrategicamente compatível com a reconstrução industrial do hemisfério. Responder aos atritos com os Estados Unidos aproximando-se ainda mais da China não é autonomia. É permitir que uma dificuldade conjuntural acelere uma dependência estrutural.

A China é essencial ao comércio brasileiro, e romper essa relação seria irracional. O erro está em confundir um comprador importante com uma alternativa estratégica. Pequim compra, sobretudo, soja, minério, petróleo e outros produtos primários, enquanto vende máquinas, eletrônicos e bens de maior valor agregado. O arranjo gera superávits, mas reforça uma divisão conhecida: o Brasil fornece recursos naturais; a China concentra indústria, tecnologia, financiamento, logística e processamento.

Os números tornam essa assimetria ainda mais evidente. Em 2025, a China absorveu 51,5% das exportações brasileiras da indústria extrativa e 47% das vendas da agropecuária. Os Estados Unidos, por sua vez, foram o principal destino da indústria brasileira de transformação, com 16%, diante de 11,7% destinados ao mercado chinês. A escolha não é apenas entre dois parceiros comerciais. É entre aprofundar a dependência de commodities ou recuperar densidade industrial.

A dependência surge quando o mesmo parceiro se torna comprador dominante, fornecedor industrial, financiador de infraestrutura e operador de setores estratégicos. Portos, telecomunicações, energia, centros de dados e minerais críticos não são ativos comuns. Em uma crise, podem tornar-se instrumentos de pressão e controle logístico.

Lula apresenta a aproximação com a China como prova de soberania, enquanto afasta o Brasil do mercado capaz de impulsionar sua reinserção industrial. Os Estados Unidos não são apenas um comprador. São o centro do maior ecossistema mundial de capital, tecnologia, inovação, defesa e consumo de alto valor.

O Brasil não precisa escolher entre chineses e americanos. Precisa evitar que a relação com Pequim limite suas opções e aproveitar a transferência das cadeias produtivas para as Américas

Uma diplomacia adulta diversifica mercados, atrai investimentos concorrentes e impede dependência excessiva. A política externa de Lula faz o oposto: chama o alinhamento ideológico de multipolaridade e transforma o antiamericanismo em estratégia econômica.

A janela do nearshoring não ficará aberta para sempre. México, América Central e parceiros asiáticos já disputam fábricas e contratos. Se o Brasil continuar exportando commodities para a China, importando produtos de maior valor e tratando os Estados Unidos como adversário político, ficará fora da nova geografia industrial.

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