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Lula ataca “interferência externa”, mas sempre abraçou seus “companheiros” lá fora

Lula e Maduro durante visita do ditador venezuelano ao Brasil em 2023 (Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República)

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Com a campanha eleitoral ganhando tração, o presidente Lula mostra mais uma vez que, para ele e o PT, as eleições não passam de um grande teatro para a propagação das narrativas criadas pelo Planalto e pelo partido. Afinal, como disse a ex-presidente Dilma Rousseff, eles podem “fazer o diabo” para obter a vitória nas urnas.

Diante do apoio de líderes internacionais ao senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PL, como os presidentes Donald Trump, dos Estados Unidos, e Javier Milei, da Argentina, além do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, a narrativa da hora é posar de vítima de uma suposta interferência externa, que estaria ocorrendo ou que poderá ocorrer no pleito de outubro, em benefício da oposição.

Em meados de junho, no encerramento da reunião do G-7 na França, Lula já havia mandado um recado a Trump para que ele “não se meta nas eleições no Brasil”. Agora, aproveitando a presença de Milei na convenção que oficializou a candidatura de Flávio e a decisão do Itamaraty de negar vistos a dois funcionários do governo americano que queriam se reunir com autoridades eleitorais no país, ele retomou a ladainha, com o jeitinho “carinhoso” que encarnou após abandonar o papel do “Lulinha paz e amor”, encenado no passado recente.

“Quem quiser de fora se meter nas eleições brasileiras, já vou avisando logo, vão apanhar (sic) muito aqui. Quem vai decidir o destino desse país são 157 milhões de eleitores”, declarou Lula no evento de lançamento da candidatura de Fernando Haddad ao governo de São Paulo, no sábado, 25 de julho.

Forças alienígenas

Como é característico de sua atuação política e do PT, de querer reescrever a história com suas narrativas, o presidente fala como se o recebimento de apoio externo por um candidato à Presidência representasse uma tentativa espúria de intervenção de forças alienígenas no pleito. Fala também como se ele mesmo e o PT não tivessem apoiado ao longo do tempo, de todas as formas possíveis, candidatos da esquerda em vários países da América Latina.

Em 2022, segundo denúncias realizadas em depoimento na Câmara dos Deputados por Mike Benz, ex-funcionário do Departamento de Estado dos EUA, houve forte interferência do governo democrata de Joe Biden nas eleições brasileiras. De acordo com Benz, a intervenção ocorreu por meio da Usaid (Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional), da CIA (agência de inteligência americana) e de outras organizações, para favorecer Lula e prejudicar o ex-presidente Jair Bolsonaro no pleito.

Biden apoiou, conforme Benz, a construção de uma rede de censura contra vozes conservadoras e de direita, disfarçada de “combate à desinformação”, e aumentando de forma considerável a injeção de recursos nas chamadas agências de checagem, em sindicatos, universidades e até em grupos de comunicação, para dar suporte ao STF e ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) na remoção de conteúdos das redes sociais.

Em 2025, em evento empresarial realizado em Nova York, o próprio ex-presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) e do TSE Luís Roberto Barroso admitiu que o governo Biden teve participação ativa nas eleições de 2022 no Brasil, em defesa, segundo ele, da manutenção do regime democrático.

“Tivemos um decisivo apoio dos Estados Unidos à institucionalidade e à democracia brasileira em momentos de sobressalto”, disse Barroso na ocasião. “Eu mesmo, como presidente do Tribunal Superior Eleitoral, estive com o encarregado de negócios americanos muitas vezes. Mas, em três vezes, pedi declarações dos Estados Unidos de apoio à democracia brasileira, uma delas do próprio Departamento de Estado. Acho que isso teve algum papel, porque os militares brasileiros não gostam de se indispor com os Estados Unidos, porque é aqui que obtêm os seus cursos e os seus equipamentos.”

Marqueteiros do PT

Além do apoio recebido de Biden, ao ser alçado a “arauto da democracia” no país, em oposição ao suposto risco representado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e seu grupo político, Lula sabe bem o que é “interferir” na campanha eleitoral dos outros para beneficiar a “companheirada”. Não só de forma direta, mas também por meio da máquina do PT e do apoio de marqueteiros ligados a ele e ao partido.

Entre 2003 e 2014, João Santana, principal marqueteiro do PT na época, atuou em campanhas de esquerda por toda a América Latina – na Argentina, na Venezuela, no Peru, na República Dominicana e em El Salvador. Como revelaram depois as investigações da Lava Jato, parte do financiamento das operações internacionais de Santana veio da Odebrecht, que realizava obras de infraestrutura na região financiadas pelo BNDES e custeava parte de seu trabalho, realizado em parceria com sua mulher Mônica Moura, presos em 2016 por receber recursos por meio de uma offshore ligada à empreiteira.

Na Argentina, nas eleições de dezembro de 2023, quando as coisas pareciam difíceis para o candidato peronista Sergio Massa, Lula enviou os marqueteiros do PT para tentar ajudá-lo a vencer Milei – sem sucesso, como se viu depois. Integrantes do governo brasileiro e lideranças do PT também fizeram sucessivas declarações de que a vitória de Milei seria um “risco para o Mercosul”, usando a estrutura do governo federal brasileiro como ferramenta de pressão na campanha argentina.

Em maio daquele ano, Lula já havia recebido Massa e o então presidente da Argentina, Alberto Fernández, em Brasília. Na época, assumiu o compromisso de buscar uma solução financeira para reforçar as reservas internacionais do país, com a liberação de um financiamento bilionário do Banco do Brics, já sob a presidência de Dilma. No fim, o “papagaio” não saiu, porque era algo que nem estava previsto no estatuto do banco, e Lula buscou outras opções para tentar evitar a vitória de Milei.

No auge da campanha, em agosto de 2023, a então ministra do Planejamento, Simone Tebet, deu seu aval a um empréstimo de US$ 1 bilhão do CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina), apesar de a Argentina já ter atingido seu limite de crédito. Na ocaisão, Lula foi acusado de ter pressionado Tebet a autorizar o negócio, viabilizado com garantias do Tesouro Nacional e anunciado numa entrevista coletiva conjunta entre Massa e Haddad, então ministro da Fazenda, embora oficialmente o governo tenha alegado que o empréstimo tinha embasamento técnico, para “ajudar a Argentina a enfrentar a escassez de reservas”.

Socialismo bolivariano

O mesmo Lula que hoje se coloca como vítima da “interferência externa” no Brasil também utilizou a estrutura do governo para influenciar o FMI (Fundo Monetário Internacional) a liberar um empréstimo de US$ 7,5 bilhões aos “hermanos”, além de ter anunciado, em visita oficial à Argentina, que o BNDES financiaria a construção do gasoduto de Vaca Morta, cuja operação plena deve garantir a autossuficiência energética ao país.

Na eleição de 2019, não foi diferente. Quando Fernández era o candidato peronista à presidência, Lula lhe enviou cartas de apoio da Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba, onde estava preso. Não por acaso, Fernández veio visitá-lo na cela da PF logo após sua vitória. Antes, na eleição de 2015, Lula já havia ido a Buenos Aires para subir no palanque com a então presidente Cristina Kirchner e seu candidato, Daniel Scioli, atacando os adversários, para evitar a vitória do candidato anti-peronista, Mauricio Macri, que acabou vencendo o pleito.

Como a Argentina, a Venezuela é um caso emblemático da “interferência” de Lula e do PT em eleições latino-americanas para ajudar candidatos da esquerda. Na reta final da eleição presidencial de 2012, Lula gravou um vídeo para a campanha na TV de Hugo Chávez, morto em 2013, criador do famigerado “socialismo bolivariano”.

“Chávez, conte comigo. Conte conosco, do PT. Conte com a solidariedade e o apoio de cada militante de esquerda, de cada democrata e de cada latino-americano. Sua vitória será a nossa vitória”, dizia Lula. “Sob a liderança de Chávez, o povo venezuelano teve conquistas extraordinárias. As classes populares nunca foram tratadas com tanto respeito, carinho e dignidade.”

Na eleição presidencial de 2013, após a morte de Chávez, Lula repetiu a dose ao gravar um vídeo apoiando explicitamente a candidatura de Nicolás Maduro, seu sucessor. “Maduro tem a mesma visão de mundo de Chávez e foi uma das figuras centrais na construção da nova Venezuela”, afirmava Lula na gravação. “Chávez e Maduro tinham exatamente as mesmas ideias sobre os desafios da América Latina. Maduro presidente é a Venezuela que Chávez sonhou.”

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“Briga normal”

Mais recentemente, em 2024, em meio às denúncias de fraudes perpetradas por Maduro nas eleições presidenciais, Lula jogou parado, para favorecer o ditador venezuelano. Na prática, ele nada fez para pressionar Maduro a apresentar as atas eleitorais que lhe conferiram a vitória oficialmente, evitando classificar abertamente o país como uma ditadura ou aplicar sanções contra o regime.

Ao contrário. A direção nacional do PT e o próprio presidente Lula procuram minimizar as denúncias de fraude. Em declarações à imprensa, Lula classificou as contestações ao resultado oficial do pleito como “nada de grave” e uma “briga normal”. A nota do PT publicada logo após a eleição, saudou a “jornada eleitoral pacífica e democrática” e chancelou a reeleição de Maduro antes mesmo de qualquer checagem ou publicação das atas.

Além da Venezuela e da Argentina, Lula e o PT ainda atuaram para beneficiar aliados que disputavam a presidência pela América Latina afora. Na Colômbia, em 2022, dias antes do primeiro turno das eleições, Lula gravou um vídeo no qual apoiava a campanha do ex-guerrilheiro Gustavo Petro, que acabou se tornando o primeiro presidente de esquerda do país.

No Chile, em 2021, gravou outro vídeo, no qual pedia votos para o candidato da esquerda, que também acabou vencendo o pleito. “Votem no Gabriel Boric e ajudem o Chile a fazer parte do bloco de governos progressistas da América do Sul”, afirmava Lula em sua mensagem.

Na Bolívia, em 2014, na campanha para o 3º mandato do então presidente Evo Morales, Lula discursou ao seu lado em Santa Cruz de la Sierra, elogiando o modelo social boliviano e falando que sua continuidade no governo era fundamental para a “integração da América Latina”. Em 2005, duas semanas antes das eleições, Lula já havia declarado que a vitória de Evo seria “extraordinária” e comparou seu impacto à eleição de Hugo Chávez na Venezuela.

O presidente brasileiro e o PT ainda atuaram no apoio a candidatos de esquerda em pelo menos mais cinco países latino-americanos: Uruguai, Paraguai, Equador, Panamá e Honduras. Em vários casos, depois da posse de seus “companheiros”, quando eles chegaram à vitória nas urnas, Lula ainda procurou facilitar suas vidas, como na renegociação dos preços da energia produzida em Itaipu feita com o Paraguai e na nacionalização de ativos da Petrobras por Morales na Bolívia, quando abriu mão da indenização que caberia ao Brasil.

Para quem teve o apoio do governo Biden em 2022 e nunca poupou esforços para apoiar sua turma na América Latina, recorrendo até à Odebrecht e a marqueteiros amigos, Lula e o PT não têm moral para questionar o apoio de Trump, Milei e Netanyahu a Flávio Bolsonaro ou de qualquer governante do exterior a quem quer que seja. Mas, para eles, em linha com a frase infame de Dilma Rousseff, vale tudo na eleição. O que conta são as narrativas. Só resta para a oposição desconstruí-las com os fatos e – se o jogo for esse mesmo – criar suas próprias versões para eles.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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