Na era pós-Dobbs, o movimento pró-vida parece já não ter um caminho claro a seguir. Com a ampliação da proteção legal ao aborto em muitos estados norte-americanos e o aumento do acesso à pílula abortiva, o número de abortos continuou a crescer desde que Roe v. Wade foi derrubada. A maioria do público continuou votando a favor do acesso ao aborto, mesmo em um momento no qual os avanços médicos tornaram a criança no ventre mais visível e viável, mais cedo do que em qualquer outro momento da história.
Para onde vamos a partir daqui? O campo de batalha já não é principalmente político, mas moral. A luta não é, em primeiro lugar, por leis, mas pelos corações e mentes dos americanos bem-intencionados. Os eleitores do chamado “meio indeciso” (mushy middle) – aqueles que talvez não escolhessem o aborto para si mesmos ou para alguém que amam, mas se sentem desconfortáveis em retirar essa opção de outra mulher – precisam ser despertados da complacência em que a retórica pró-aborto os embalou.
E como exatamente os ativistas do aborto conseguiram isso? Como convenceram a maioria da população de que o aborto – interromper um coração que bate e desmembrar um ser humano vivo – faz parte dos cuidados de saúde? Como conseguiram fazer cidadãos comuns acreditarem que o assassinato é essencial para a igualdade das mulheres?
Nos últimos anos, temos ouvido muitas feministas encorajarem as mulheres a tornarem públicos os seus abortos e declararem com orgulho que “o aborto é belo”. Mas, se voltarmos a um passado não tão distante, esse tipo de linguagem era encontrado apenas nos círculos mais radicais do feminismo, e certamente não no discurso cultural e político dominante.
Nas décadas de 1980 e 1990 e no início dos anos 2000, os mantras “seguro, legal e raro” e “pró-escolha, não pró-aborto” eram considerados muito mais aceitáveis para o público americano e, portanto, politicamente mais eficazes. Os defensores do aborto concentravam-se fortemente nos casos-limite, nos quais o aborto talvez não fosse considerado ideal, mas seria “necessário” devido a determinadas circunstâncias trágicas. Um panfleto da década de 1980 da Naral, o mais antigo grupo de defesa do direito ao aborto nos Estados Unidos, declarava: “Nós, da Naral, não conhecemos ninguém que seja ‘pró-aborto’”. Avancemos para 2022, quando o mesmo grupo declara: “Nós encorajamos você a dizer ‘aborto’, e a dizê-lo com orgulho!”
Como os abortistas conseguiram fazer cidadãos comuns acreditarem que o assassinato é essencial para a igualdade das mulheres?
Como esses ativistas criaram espaço para falar sobre o aborto – uma prática que eles próprios admitiam ser um “mal necessário” – em termos abertamente positivos? Como conseguiram reformular a conversa sobre uma prática moralmente tão condenável e levar a opinião pública junto com eles?
A história oferece uma comparação marcante: a defesa da escravidão no século 19. Assim como os defensores do aborto mudaram sua retórica da forma descrita acima, os defensores sulistas da escravidão passaram de admitir, em 1806, que “a escravidão é um mal, lamentado por todos os homens do país”, para declarar, em 1836, que “ela é a maior de todas as bênçãos que uma Providência bondosa concedeu à nossa gloriosa região” (Anais do Congresso, 9.º Congresso, 2.ª sessão, 174 (1806); 24.º Congresso, 1.ª sessão, 2456 (1836)).
Os defensores tanto do aborto quanto da escravidão começaram descrevendo a prática em questão como um “mal necessário”, algo talvez indesejável, mas inevitável em um mundo imperfeito. Com o tempo, porém, passaram a falar da escravidão ou do aborto em termos orgulhosos, glorificadores e sem pedidos de desculpas, como um bem social e moral em si mesmo.
A trajetória seguida por esses dois movimentos é surpreendentemente semelhante. Um exame mais aprofundado desse fenômeno lança luz sobre o poder da retórica na percepção de questões moralmente controversas e sobre como poderíamos libertar o público americano desse delírio para o qual os defensores do aborto o conduziram.
Primeira etapa: a defensiva contra as acusações de imoralidade
Primeiramente, a transição para falar tanto da escravidão quanto do aborto em termos ousados e sem constrangimento foi uma estratégia empregada para responder às acusações de imoralidade feitas pelos opositores. Quando os adversários da escravidão ou do aborto desenvolveram, pela primeira vez, movimentos organizados para tentar proibir essas práticas, concentraram suas críticas na questão moral, afirmando que tanto a escravidão quanto o aborto eram práticas más que violavam os direitos inerentes de outro ser humano.
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Em ambos os casos, quando o direito estabelecido passou a sofrer esse ataque coordenado, os defensores da escravidão e do aborto inicialmente desviaram completamente a discussão da moralidade e recorreram a argumentos de necessidade para justificar as práticas que desejavam preservar. O movimento pró-vida ganhou força após Roe v. Wade, e os defensores do aborto responderam, na década de 1970, minimizando o aborto e enfatizando a noção mais ampla de “escolha” pessoal como o cerne da questão no debate sobre o aborto.
Eles tendiam a recorrer mais a argumentos de necessidade, como a necessidade de evitar mortes decorrentes de abortos ilegais e de ajudar mulheres em circunstâncias trágicas, bem como a apelos vagos aos direitos à privacidade, à igualdade e à liberdade de consciência. Muitos defensores do aborto enfatizavam que a lei deveria proteger o direito da mulher de escolher o aborto, mesmo que a maioria da população o considerasse imoral. Consequentemente, desejavam deslocar o foco da moralidade do aborto para a escolha pessoal e a liberdade em relação à interferência do governo.No fim da década de 1980, os principais ativistas pró-aborto admitiam abertamente que ninguém “gostava” do aborto. Um folheto da Naral de 1987 afirmava: “Ninguém é a favor do aborto, mas a verdadeira questão é… quem decide? Você ou os políticos?”
Em seu discurso principal na Conferência Anual da Naral de 1987, a diretora-executiva da organização, Kate Michelman, afirmou que os defensores do aborto precisavam construir um consenso mais forte entre os americanos em favor dos direitos ao aborto, articulando “uma visão pró-escolha que faça da dignidade e da liberdade – e não do aborto – o centro do debate”. Em seguida, reconheceu: “Sejamos sinceros: muitas pessoas nunca serão ativistas pelo aborto. Muitas nem sequer serão defensoras do aborto. Mas, se levantarmos questões suficientes e fizermos conexões suficientes, poderemos garantir que muitas pessoas não se tornem adversárias do aborto. […] Provavelmente não conseguiremos fazê-las empunhar a bandeira pró-escolha, mas poderemos levá-las a votar de forma pró-escolha”.
De maneira muito semelhante, os defensores da escravidão inicialmente desviaram as acusações de imoralidade feitas pelas sociedades abolicionistas, cada vez mais ativas nas décadas de 1790 e no início do século 19. Em geral, recorriam a argumentos como a inviabilidade da emancipação e a destruição que ela causaria à economia e à sociedade do Sul dos Estados Unidos. Também apelavam aos direitos dos estados para afirmar que o governo federal não tinha autoridade para legislar sobre a escravidão, independentemente de sua condição moral.
Muitas vezes, esses próprios atores admitiam que a escravidão era moralmente errada – um “mal necessário” ou uma “impropriedade moral” –, mas desviavam a discussão afirmando que a moralidade da escravidão não dizia respeito à lei (Anais do Congresso, 15.º Congresso, 2.ª sessão, 1436 (1819)).
Os defensores tanto do aborto quanto da escravidão começaram descrevendo a prática em questão como um “mal necessário”, algo talvez indesejável, mas inevitável em um mundo imperfeito
Segunda etapa: perceber que a estratégia estava destinada ao fracasso
Em ambos os casos, os defensores passaram a proclamar abertamente que a prática em questão era um bem moral, especialmente após importantes conquistas dos movimentos contrários e diante do que percebiam como um perigo iminente para a legalidade da prática. À medida que as forças antiescravagistas e antiaborto obtinham avanços sociais e políticos significativos, tanto os defensores da escravidão quanto os do aborto fizeram uma escolha deliberada de abandonar a desconfortável e frágil defesa do “mal necessário”, buscando apaziguar a consciência das pessoas e mobilizar o público em seu favor; afinal, quem quer lutar por algo considerado “mau”?
Já na década de 1980, alguns defensores do aborto percebiam a inutilidade do argumento do “mal necessário” e conclamavam o movimento a adotar uma linguagem de “bem positivo”. Um artigo da National Organization for Women (NOW), publicado em 1989, declarava:
“O aborto não é imoral. Não é mau. Nem sequer é vergonhoso. Mas pode muito bem tornar-se ilegal. E, se, na nossa ‘escolha’ de linguagem, contribuirmos inadvertidamente para a ideia de que o aborto é uma ‘má escolha’, poderemos estar ajudando, sem querer, a acelerar o dia em que ele se tornará ilegal. Afinal, por quanto tempo e com que intensidade acreditamos que as pessoas lutarão por algo que consideram inerentemente mau?”
Na década de 2010, os ativistas pró-aborto decidiram, finalmente, que haviam “cedido terreno moral” por tempo demais e permitido que as forças antiaborto moldassem a opinião pública sobre a imoralidade da prática. Grupos focais realizados pela Naral revelaram que muitos millennials “desaprovavam abertamente o aborto de uma mulher” e o consideravam “imoral”. A organização atribuiu essa percepção ao sucesso, durante décadas, dos ativistas antiaborto em “reformular o debate sobre o aborto em torno do feto, em vez da mulher grávida”, especialmente por meio do uso da tecnologia de ultrassom para “definir a forma como as pessoas pensam sobre o feto como um ser humano completo e respirando”.
Em consequência, um número cada vez maior de defensores do aborto passou a tentar recuperar a “superioridade moral” no debate, proclamando o aborto como um bem moral e social, de modo a assumir uma postura ofensiva na luta pelos direitos ao aborto.
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Um artigo acadêmico publicado em 2010 no Journal of Women’s History declarou que o slogan “seguro, legal e raro” “tanto produz quanto reproduz” o estigma em torno do aborto e que os defensores deveriam, em vez disso, “trabalhar para articular o aborto como um bem social”. A autora enfatizou de forma sucinta: “O truque linguístico de afirmar o direito ao aborto ao mesmo tempo em que ele é desvalorizado é prejudicial e ineficaz como estratégia para garantir direitos.” Da mesma forma, um artigo publicado em 2013 na revista The Nation afirmava: “Andar na ponta dos pés em torno dessa questão é exaustivo, e certamente não está fazendo nenhum favor às mulheres. É hora de ressuscitar o antigo grito de guerra: ‘abortos gratuitos sob demanda, sem pedir desculpas’. Talvez essa não seja uma mensagem popular, mas ela é absolutamente necessária. […] O movimento antiaborto não está economizando nos golpes – por que nós deveríamos?”
Assim, os defensores do aborto passaram, cada vez mais, a buscar a “desestigmatização” do aborto e a mudar a opinião pública sobre ele de maneira muito semelhante à forma como os defensores do casamento homoafetivo trabalharam para normalizar a homossexualidade. A partir da década de 2010, os ativistas pró-aborto passaram a declarar consistentemente que o aborto é algo positivamente bom, que deve ser “normalizado” e defendido “aberta e entusiasticamente”. Os dias do lema “seguro, legal e raro” ficaram para trás.
De maneira notavelmente semelhante, na década de 1830 os principais defensores da escravidão passaram a enfatizar que falar da escravidão como um mal fortalecia os ataques da oposição contra a instituição. Eles criticavam explicitamente outros defensores da escravidão que continuavam sustentando a tese do “mal necessário”.
Em 1837, John C. Calhoun acusou o também proprietário de escravos William Rives de contribuir diretamente para “a fonte e nascente de onde fluíram todas essas correntes abolicionistas” ao descrever a escravidão como uma iniquidade moral. Calhoun acrescentou que, como a escravidão não era um mal, mas, na verdade, “um grande bem”, “os proprietários de escravos do Sul nada tinham a lamentar nem a pesar na consciência” (Register of Debates in Congress, 24.º Congresso, 2.ª sessão, 719 (1837)).
De modo semelhante, em 1853, William Gilmore Simms expressou gratidão aos abolicionistas porque, apesar de todos os seus “incômodos e ofensas”, eles haviam, na realidade, contribuído para “nossa tranquilidade moral – estabelecendo, para nossa plena convicção, nosso direito ao trabalho de nossos escravos. […] Vinte anos atrás, poucas pessoas no Sul procuravam justificar a escravidão dos negros, exceto sob o argumento da necessidade. Agora, muito poucas pessoas nessa mesma região questionam seu perfeito direito ao trabalho de seus escravos – e mais do que isso: sua obrigação moral de mantê-los sujeitos como escravos e de forçá-los ao trabalho”.
Na década de 1980, alguns defensores do aborto já percebiam a inutilidade do argumento do “mal necessário” e conclamavam o movimento a adotar uma linguagem de “bem positivo”
Terceira etapa: redefinir a moralidade
Como exatamente os defensores da escravidão e do aborto deram esse salto da frágil defesa do “mal necessário” para a glorificação aberta da prática? Em primeiro lugar, ambos procuraram eliminar o status moral e jurídico da vítima, a fim de minimizar o mal inerente às suas ações. Precisavam desacreditar a condição de sujeito de direitos do outro “ser” envolvido na prática para fazer parecer evidente ao público que os proprietários de escravos eram mais importantes que os negros, e que as mulheres eram mais valiosas do que os fetos.
Para isso, empregaram uma retórica que classificava o escravo ou o feto como menos que humano, ou menos do que uma “pessoa” plena perante a lei, enfraquecendo assim sua reivindicação de direitos iguais. Frequentemente, também desconsideravam completamente o escravo ou o feto, insinuando que era um fato incontestável que eles eram inferiores aos proprietários de escravos ou às mulheres.
Os defensores do aborto utilizaram uma linguagem que intencionalmente minimiza a humanidade da criança por nascer. Chamam a criança de “massa de tecido vivo”, “algo muito semelhante ao fluxo menstrual”, “conteúdo do útero” e “parasita” que se alimenta do corpo da mulher. Muitos admitem que o feto é humano e está vivo, mas afirmam que isso não tem relevância porque ele não é “uma pessoa independente”, é apenas “uma pessoa em potencial” ou, ainda, que ele ainda não é uma pessoa, da mesma forma que um cadáver já não é uma pessoa.
Na década de 1980, à medida que os avanços médicos e tecnológicos tornavam o ser humano ainda não nascido visivelmente mais humano, os ativistas pró-aborto passaram a ter de lidar de uma nova maneira com a humanidade da criança no ventre. Fizeram isso tentando deslocar completamente a atenção do feto e concentrá-la exclusivamente nas mulheres e em sua capacidade de tomar suas próprias decisões “morais”.
Já na década de 1980, ativistas do aborto falavam da necessidade de uma nova “moralidade feminista” para combater o sentimento de culpa que permeava até mesmo o movimento pró-escolha em relação ao status moral do nascituro. Um documento de trabalho da Naral de 1984 afirmava: “Considerar o feto como parte do corpo da mulher grávida é a única definição que não enfraquece seu controle”, e incentivava os ativistas a “concentrar o debate nas mulheres que fazem abortos, e não nos fetos que podem sobreviver”.
Os defensores da escravidão e do aborto procuraram eliminar o status moral e jurídico da vítima, a fim de minimizar o mal inerente às suas ações
Consequentemente, os defensores do aborto passaram a sustentar que a posição moralmente correta é a de permitir que as mulheres tomem suas próprias “decisões morais”. A autora de um livro de 2014 sobre a recuperação dos direitos ao aborto argumentou: “Precisamos enxergar o aborto como uma decisão prática urgente que é tão moral quanto a decisão de ter um filho – e, em alguns casos, até mais moral”. E, em 2016, a autora de The Moral Case for Abortion afirmou: “Quando impedimos uma mulher de fazer suas próprias escolhas morais sobre sua gravidez, minamos sua humanidade ao retirar dela a capacidade de exercer sua autonomia”.
Em outras palavras, independentemente do fato de que a criança por nascer seja humana e esteja viva, a única escolha moral seria permitir que as mulheres decidam por si mesmas “qual significado sua gravidez tem” – um argumento sem sentido, mas que parece irrefutável em uma cultura marcada pelo relativismo moral.
De maneira semelhante, os defensores da escravidão desacreditaram os negros retirando-lhes a condição de pessoa e reescrevendo as leis da natureza. Referiam-se aos negros como “propriedade negra” e “uma raça inferior de seres” (Anais do Congresso, 1.º Congresso, 2.ª sessão, 1244 (1790); 6.º Congresso, 1.ª sessão, 242 (1800); 1.º Congresso, 2.ª sessão, 1505 (1790)). Um escritor pró-escravidão afirmou que era correto escravizar “esses zangões imprudentes, miseráveis e peso para a Terra, compelindo-os assim aos hábitos do trabalho […] e elevando-os, juntamente com sua descendência, na escala da humanidade”.
Em seguida, passaram a repudiar o princípio da Declaração de Independência de que “todos os homens são criados iguais”, abandonando a teoria tradicional dos direitos naturais e sustentando que esse princípio de igualdade deveria ser entendido apenas como uma abstração e “com grandes qualificações” (Anais do Congresso, 9.º Congresso, 2.ª sessão, 227 (1806)). Um defensor da escravidão proclamou: “Talvez não exista frase que tenha sido mais deturpada para servir aos propósitos dos inimigos da escravidão do que esta: todos os homens nascem livres. Em sua aplicação deturpada, os fatos a negam, as Escrituras a negam, a Constituição a nega e o bom senso a nega”.
Os defensores da escravidão “construíram outros conceitos da lei natural sobre os quais fundamentaram a justificação da escravidão”. Fizeram isso proclamando que as leis da natureza tornavam os negros inferiores e aptos para a escravidão, de modo que os brancos tinham uma “obrigação moral” de escravizá-los tanto para seu próprio bem quanto para o bem da sociedade. Essa ideia foi defendida por um congressista da Virgínia em 1849, que declarou:
“Se [a escravidão] é errada ou imoral, então as próprias leis da natureza são erradas e tendem à imoralidade; […] então é imoral transformar em um ser moral, religioso e relativamente intelectual alguém que, de outra forma, teria permanecido um selvagem ignorante e completamente degradado.” (Congressional Globe, 30.º Congresso, 2.ª sessão, 173 (1849))
Assim como os abortistas, os defensores da escravidão desacreditaram os negros retirando-lhes a condição de pessoa e reescrevendo as leis da natureza
Depois de remover a vítima das considerações morais relativas à prática, os defensores da escravidão e do aborto deram o passo definitivo: redefinir completamente o bem e o mal. Formularam estrategicamente uma defesa abrangente das práticas que buscavam proteger como parte de uma batalha sociopolítica mais ampla, redefinindo a verdadeira “questão moral” em jogo como a prevenção de que determinado conjunto de valores – considerados fanaticamente de esquerda pelos defensores da escravidão ou radicalmente de direita pelos defensores do aborto – prevalecesse na sociedade americana. Ao fazer isso, ambos conseguiram deslocar o foco do debate para longe da vítima e criar espaço para reivindicar para si mesmos a superioridade moral.
Quarta etapa: associar a posição pró-vida ou o abolicionismo ao extremismo
A partir da década de 2010, os defensores do aborto passaram a relacionar cada vez mais a luta pelos direitos ao aborto à luta mais ampla contra uma ideologia “extremista de direita”. Em 2017, por exemplo, a Naral declarou: “Como sempre dissemos, isto não é e nunca foi apenas sobre aborto. […] Nossa missão agora é lutar pela América em que acreditamos: uma na qual […] a liberdade – de escolher o aborto, de tomar nossas próprias decisões sobre nossas famílias, de viver livres do medo – seja inabalável”. E, em 2021, afirmou: “2020 foi a culminação de um esforço de décadas da Direita Radical, atuando em perfeita sintonia com o movimento antiaborto, para destruir nossa democracia e manter o poder patriarcal branco”.
Um artigo de 2021 da Planned Parenthood, intitulado “Just Say Abortion” (“Simplesmente diga ‘aborto’”), relaciona o aborto à ideologia de gênero ao argumentar que o termo “pró-escolha” tanto perpetua o estigma em torno do aborto quanto “apaga as pessoas trans e não binárias que fazem abortos”, o que seria “transfóbico”. O artigo prossegue oferecendo uma síntese reveladora do fenômeno cultural mais amplo: “O estigma do aborto, a atitude social e estrutural compartilhada de que o aborto é errado ou indesejável, está enraizado em ideias patriarcais sobre gênero. […] Podemos combater o estigma do aborto e a transfobia ao mesmo tempo”.
De maneira semelhante, quando passaram a defender a escravidão de forma mais enfática, seus partidários tornaram a glorificação da escravidão cada vez mais inseparável da identidade coletiva do Sul, associando o movimento pró-escravidão a uma batalha sociopolítica mais ampla contra o capitalismo e o socialismo.
O legislador pró-escravidão John Henry Hammond afirmou, em 1836, que os abolicionistas haviam iniciado uma “guerra” contra a sociedade sulista, “proclamando como sua palavra de ordem aquele sentimento imortal, mas agora prostituído, de que ‘todos os homens nascem livres e iguais’” (Register of Debates in Congress, 24.º Congresso, 1.ª sessão, 2448–62 (1829)). Outros sustentavam que a escravidão era indispensável para preservar “a herança de seus pais” e “a segurança de seu estado e de seus amigos”, e que qualquer pessoa “que recue diante da defesa mais elevada e mais ousada [da escravidão] é um traidor” (Register of Debates in Congress, 24.º Congresso, 1.ª sessão, 2448–62 (1829); Congressional Globe, 29.º Congresso, 2.ª sessão, 77 (1847)).
Sustentar que aqueles que rejeitam a escravidão ou o aborto o fazem porque desejam promover algum tipo de fanatismo em nossa cultura é uma forma de apagar a vítima do debate
Essa estratégia retórica da chamada “guerra cultural” representa o ápice da tentativa de inverter o bem e o mal. Colocar a escravidão ou o aborto no centro de uma batalha maior pela promoção de determinados valores e pela erradicação de valores considerados extremistas ou indesejáveis é uma poderosa tática para redirecionar a discussão moral para algo diferente do dano causado à vítima.
Sustentar que aqueles que rejeitam a escravidão ou o aborto o fazem porque desejam promover algum tipo de fanatismo em nossa cultura – e não porque estão preocupados com o escravo ou com a criança ainda não nascida – é uma forma de apagar a vítima do debate.
O que fazer daqui em diante?
Essas escolhas estratégicas feitas tanto pelos defensores da escravidão quanto pelos defensores do aborto ajudaram-nos a construir movimentos que, em conjunto com transformações socioculturais, tornaram possível falar da escravidão ou do aborto – práticas que historicamente eram vistas, na melhor das hipóteses, como moralmente ambíguas e, na pior, como repulsivas – em termos de glorificação aberta e sem constrangimentos.
É evidente que a posição do “mal necessário” é desconfortável e politicamente frágil porque, apesar da influência do relativismo moral na cultura, muitas pessoas ainda vivem e votam a partir de uma perspectiva moral. As pessoas continuam tendendo a pensar em termos de “certo” e “errado” quando se trata de política e desejam sentir que estão lutando pelo que é “bom”.
Como resultado, os defensores do aborto vêm empregando táticas extraordinariamente semelhantes às utilizadas pelos defensores da escravidão no século 19 para “desestigmatizar” o aborto, transformar a morte de um ser humano no ventre em um “bem” e levar o público a sentir que tem uma obrigação moral de votar em seu favor. Isso acontece porque tais táticas funcionam.
Assim como os abolicionistas procuraram revelar a humanidade do escravo, também nós devemos resgatar a dignidade do nascituro, contra a desumanização produzida pelos eufemismos pró-aborto
O mal prospera nas sombras, revestido de retórica e ignorado por aqueles que preferem não reconhecer sua existência para que ela não perturbe suas consciências. Mas cabe a nós arrastá-lo para fora da escuridão e trazê-lo à luz, para que todos possam ver sua feiura.
Tudo isso importa neste momento porque o movimento pró-vida precisa concentrar seus esforços em transformar a opinião pública, caso as leis venham a mudar. E uma maneira de fazer isso é destacar esse paralelo impressionante entre a forma como os proprietários de escravos lutaram para justificar a escravização de outros seres humanos e a forma como os defensores do aborto lutam atualmente para justificar o fim de vidas humanas.
Assim como os proprietários de escravos do Sul anterior à Guerra Civil procuraram desviar as críticas dirigidas a uma prática que sabiam ser objetivamente imoral alterando a própria natureza do conceito de “moralidade”, também os defensores do aborto procuram conquistar a superioridade moral convencendo os americanos de que o aborto – que eles próprios admitem ser o término de uma vida humana – é simplesmente parte de uma batalha mais ampla pela igualdade e pela liberdade.
Mas, assim como os abolicionistas procuraram revelar a humanidade do escravo por trás do véu da retórica pró-escravidão, também nós devemos, de forma persistente, resgatar a dignidade da criança no ventre da escuridão e da desumanização produzidas pelos eufemismos pró-aborto.
Exponhamos corajosamente esse mal disfarçado de “bem” e façamos as pessoas recuperarem o bom senso – porque, como os próprios ativistas do aborto disseram, quem realmente quer lutar pelo mal?
Eliza Kelly é professora do Providence College, com bacharelado em Governo e mestrado em Ciência Política. Ela é pesquisadora nas áreas de políticas de direitos humanos na China, evolução da retórica política, e ensino social católico.
©2026 Public Discourse. Publicado com permissão. Original em inglês: Who Will Fight for “Evil”?


