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Como escrever para a bolha da direita

Legenda: ninguém lê. (Foto: ChatGPT)

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[INTRODUÇÃO] O cronista entra em cena. O público aplaude. Ele se posiciona no centro do palco e anuncia o tema do show. O de hoje, por exemplo, é o script (roteiro, pra ti que não fala inglês) da bolha. Aquilo que as pessoas esperam que seja dito, no caso escrito, sobre o que elas esperam que seja dito e da forma como elas anseiam que seja dito. De preferência um escândalo ou um desses muitos nadas que por um tempo cada vez menor parecem tudo.

[PRIMEIRA METADE] O espetáculo avança. Curto, no máximo 400 palavras, porque ninguém mais tem paciência nem concentração. Os adjetivos se acumulam. Vamos de indignação? Indignação!!!!! Agora uma perguntinha retórica para dar sabor. Aquela que, apesar de retórica, invariavelmente será respondida. Quem está disposto a sair da bolha? Dar uma espiadinha na realidade. Você está? Eu estou? Xi, a plateia está cansada. Não quer pensar. Nem tem tempo para isso. Hora, pois, do intertítulo.

Intertítulo

[3/4] E aí, descansados? Já foram à bomboniere e encheram a pança? Voltamos, pois, a desenvolver o assunto. Mais indignação. !!!!!!!. Um humorzinho à toa. “Esta citação é para a gente não sentir que está perdendo tempo”, disse Aristóteles. Cuidado que ali na frente tem uma casca de banana…! Nah. Hoje não. Porque a bolha não gosta de ser provocada e eu tampouco estou a fim. Mas, só para constar: seria tão legal se pudesse. Se você estivesse disposto. Se o roteiro não precisasse ser seguido à risca.

[CONCLUSÃO] Aqui começa a acabar a crônica. O público está ansioso, mas só porque ele não tem ideia de como o autor está ansioso. Preciso de uma frase para fechar o texto. Uma frase que seja memorável. Impactante. Praticamente um aforismo. E, principalmente, que resuma o sentimento do leitor. Que está triste, eu sei. Frustrado. Indignado – nem precisa falar. Que alterna revolta e esperança. E que talvez esteja perdido e não saiba. Cabô. A plateia aplaude. Eu me curvo. Nenhum de nós sai do lugar.

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