Pessoas atualmente diagnosticadas com autismo nível 1 poderão, no futuro, deixar de integrar o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e receber uma classificação própria, segundo defendem alguns pesquisadores. A proposta parte da avaliação de que a categoria atual passou a reunir indivíduos com perfis, capacidades e necessidades de suporte tão diferentes que talvez já não faça sentido tratá-los como integrantes de uma mesma condição.
Atualmente, o diagnóstico de TEA pode abranger desde pessoas altamente independentes, como o empresário Elon Musk e a ativista Greta Thunberg, até indivíduos com comprometimentos severos, que não desenvolvem linguagem funcional e necessitam de supervisão permanente ao longo da vida.
Para pesquisadora, espectro perdeu utilidade científica
“Já não existe um denominador comum para todas as pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista”, afirmou a psicóloga britânica Dame Uta Frith, uma das pesquisadoras mais influentes da história do autismo, em entrevista ao The Times em março. Ela está entre os especialistas que passaram a defender a revisão ou mesmo o abandono do conceito atual de espectro.
A posição chama ainda mais atenção porque Frith foi um dos principais nomes que ajudaram a construir a compreensão atual do autismo. Ao longo de décadas, ela defendeu a ampliação dos critérios diagnósticos e contribuiu para consolidar a ideia de que o autismo se manifesta de formas diversas.
A assustadora taxa de crescimento dos grupos diagnosticados de forma tardia está ofuscando as necessidades daqueles com deficiência intelectual, que necessitam de apoio muito mais intensivo
Dame Uta Frith, pesquisadora
Nos últimos anos, porém, a pesquisadora passou a questionar essa abordagem. Em entrevista à revista New Scientist, publicada em maio de 2026, Frith afirmou que “isso foi quase essencial para que se pudesse realizar mais pesquisas. Mas agora acho que talvez tenha sido um passo além do necessário e, certamente, o que aconteceu depois não é algo que alguém pudesse ter previsto”.
“É quase como se você tivesse dificuldade em fazer amigos, ou tivesse um hobby que seja seu interesse especial ou nem sempre tenha certeza do que as pessoas estão pensando. Isso já é o suficiente para pensar: ‘Uau, eu poderia ser autista’. Acho que se cometeu um erro ao patologizar o que, na minha opinião, provavelmente são variantes de personalidade extremamente funcionais, que eu chamaria de ‘semelhantes ao autismo’”, acrescentou.
A diferenciação dos grupos que hoje compartilham o mesmo diagnóstico também é defendida por familiares e cuidadores de pessoas com autismo profundo. Esses grupos argumentam que a ampliação do espectro acabou reduzindo a visibilidade das necessidades daqueles que apresentam maiores limitações cognitivas e funcionais.
“A assustadora taxa de crescimento dos grupos diagnosticados mais tarde está ofuscando as necessidades daqueles com deficiência intelectual, que necessitam de apoio muito mais intensivo”, destacou Frith ao The Times.
Entendimento sobre o autismo mudou ao longo das décadas
O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) é uma das principais referências internacionais para o diagnóstico de transtornos mentais e do neurodesenvolvimento.
Até os anos 1990, o autismo era descrito por categorias diagnósticas distintas. A publicação do DSM-4, em 1994, ampliou significativamente os critérios e incorporou diagnósticos como a síndrome de Asperger.
No entanto, um estudo da psicóloga Catherine Lord, em 2012, concluiu que o diagnóstico da síndrome de Asperger não era confiável. Isso porque ele não dependia de critérios objetivos para defini-lo, mas muito mais de interpretações clínicas.
Em 2013, então, com a publicação do DSM-5, essas categorias foram unificadas sob um único diagnóstico: o Transtorno do Espectro Autista (TEA). A nova classificação passou a utilizar níveis de suporte: nível 1 requer apoio, nível 2 requer apoio substancial e nível 3 requer muito apoio substancial.
Simon Baron-Cohen, da Universidade de Cambridge, outro pesquisador relevante da área, criticou quando o DSM-5 extinguiu categorias como síndrome de Asperger e reuniu todos os casos sob o TEA. Em um artigo de opinião publicado no The New York Times em 2009, Baron-Cohen defendeu que, embora apoiasse a ideia de espectro, importantes diferenças entre os subgrupos poderiam ser perdidas na unificação.
Parte da comunidade científica continua a questionar essa unificação. “Eu formei uma convicção de que a ideia do espectro autista não me parece que vai existir no próximo DSM”, afirmou Lucelmo Lacerda, doutor em Educação e pesquisador pela Universidade da Carolina do Norte, em vídeo publicado no YouTube.
“No meu entendimento vai se criar um outro diagnóstico para o autismo nível 1. Qual diagnóstico? Não faço a menor ideia. Pode ser que ele tenha uma nomenclatura como ‘personalidade autística’ ou pode ser um nome que não faça nenhuma referência ao autismo”, complementou.
Previsão para novo DSM é para o fim da década
Ainda não há previsão oficial para a publicação de uma nova edição do DSM. Especialistas estimam, porém, que uma eventual atualização poderá ocorrer entre 2029 e 2030.
O debate envolve diferentes pressões. Pesquisadores e clínicos argumentam que as diferenças entre os grupos atualmente reunidos sob o TEA são grandes demais para serem ignoradas, dificultando os cuidados clínicos. Gestores públicos também pressionam diante do impacto do crescimento dos diagnósticos sobre sistemas de saúde, educação e assistência social.
A possibilidade de mudanças, no entanto, divide opiniões. No Brasil, pessoas diagnosticadas com TEA são legalmente consideradas pessoas com deficiência pela Lei nº 12.764/2012 e podem ter acesso a uma série de direitos, como atendimento prioritário, políticas de inclusão escolar, reserva de vagas em concursos, benefícios assistenciais em determinadas circunstâncias e adaptações no ambiente de trabalho.
Por esse motivo, uma eventual criação de diagnósticos distintos para parte das pessoas atualmente enquadradas no espectro levanta dúvidas sobre os impactos jurídicos e sociais dessa mudança. O consenso ainda está distante. Mas, pela primeira vez em décadas, a própria ideia de espectro autista deixou de ser um consenso entre alguns dos pesquisadores que ajudaram a construí-la.
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