A proposta “Brasil por elas”, do pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro, evidencia uma das frentes para atrair o eleitorado feminino, cuja intenção de voto tende para o presidente Lula (PT), segundo pesquisa Meio/Ideia divulgada neste mês. Em eventual segundo turno, o recorte de voto das mulheres seria distribuído entre 50,4% para Lula e 34,2% para o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
A iniciativa “Brasil por elas” foi lançada ao lado de Daniella Marques, economista, ex-presidente da Caixa Econômica Federal (2022-2023) e braço direito do ex-ministro Paulo Guedes durante o governo Bolsonaro. Filiada ao Republicanos, Marques é a principal formuladora do plano e um dos nomes cotados para compor a chapa de Flávio Bolsonaro como vice.
Ela simboliza o viés feminino e de economia liberal da campanha e tem a preferência da Faria Lima — em 2019, ela lançou um programa de estímulo ao empreendedorismo feminino de nome parecido, o “Brasil para elas”, em parceria com Sebrae e Caixa Federal.
Os esforços da campanha de Flávio não se resumem a ela. A deputada federal Simone Marquetto (PP), por sua vez, que esteve presente nos bastidores do lançamento do programa voltado às mulheres, pode influenciar não só com o público feminino como entre os católicos, segmento em que ela é porta-voz e entre os quais Lula amplia vantagem de intenção de voto: 55,2% contra 31,9% de Flávio, novamente de acordo com a pesquisa Meio/Ideia.
Marquetto é autora da lei que criou o Dia Nacional do Rosário da Virgem Maria, além de sessão solene em homenagem à visita da imagem peregrina de São Miguel Arcanjo ao Brasil; e tem influência em setores relevantes como no interior do estado de São Paulo.
Com 12 propostas, o plano “Brasil por elas” prevê a expansão do acesso à internet para 70 milhões de mulheres, a criação de uma assistente de inteligência artificial capaz de marcar exames, ajudar na abertura de empresas e negociar crédito, além de um sistema de cashback para compensar mulheres por ações como vacinar os filhos e manter crianças na escola. O eixo central é a transformação da Caixa Econômica Federal em banco voltado ao fomento de microempreendedoras.
“A Caixa vai ser o ‘Itaú da periferia’, o ‘Itaú da favela’, para dar um banco top para as pessoas mais humildes que terão a Caixa para organizar toda sua vida financeira, ter um microcrédito e abrir o próprio negócio”, disse Daniella Marques na live de lançamento.
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Voto feminino ganha relevância que pode pender no resultado final das eleições
As mulheres são maioria do eleitorado nacional: cerca de 53%, de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) das últimas eleições presidenciais, em 2022. “As mulheres não formam um eleitorado ideológico homogêneo, elas são conservadoras, progressistas, liberais, religiosas e independentes. O aumento da sua autonomia de escolha é o fenômeno mais relevante”, diz o consultor político Gaudêncio Torquato.
“A mulher observa os candidatos, examina suas falas, suas histórias, pondera os governos, olha para bolso, considera a família e decide”, diz Torquato. “No jogo da eleição presidencial, candidatos, partidos e estrategistas devem prestar atenção a essa força para vencer as eleições”, complementa ele.
A pesquisa Meio/Ideia confirma a leitura de Torquato: no segundo turno simulado, a vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro é maior entre as mulheres (50,4% a 34,2%) do que a vantagem que o próprio Flávio Bolsonaro tem entre os homens (46,3% a 39,2%).
Flávio Bolsonaro se reúne com lideranças regionais do PL Mulher após desentendimento com Michelle Bolsonaro. (Foto: Vittor Sales/Divulgação pré-campanha Flávio Bolsonaro)
“A principal diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro vem exatamente do gap de gênero. O voto feminino, se as eleições fossem hoje, seria fundamental para a reeleição do presidente Lula”, diz a diretora-executiva do instituto Ideia, Cila Schulman.
Apesar de compor a maioria do eleitorado, as mulheres não possuem a mesma representatividade na política: 17,7% dos 513 deputados federais são mulheres (91 no total), segundo dados da Câmara dos Deputados referentes à atual legislatura.
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Saída de Michelle Bolsonaro do PL Mulher representa desafio para Flávio
É nesse contexto que a saída de Michelle Bolsonaro da presidência do PL Mulher representa prejuízo real para a pré-campanha de Flávio Bolsonaro. Desde a entrada da ex-primeira-dama no cargo, em março de 2023, o PL teve crescimento de 72 mil filiações femininas, chegando a 397 mil mulheres filiadas ao final de 2025.
O partido elegeu 1.005 mulheres no pleito municipal de 2024, 45% a mais que a eleição anterior, crescimento atribuído por dirigentes da legenda à atuação de Michelle Bolsonaro à frente do PL Mulher, incluindo a estruturação de diretórios do movimento nos 26 estados e no Distrito Federal.
No vídeo de 27 minutos publicado em 24 de junho, em que Michelle Bolsonaro expõe a briga com os enteados, ela relata o desafio de manter a candidatura ao Senado de três mulheres do partido escolhidas por ela e que também seriam escolhas do ex-presidente Jair Bolsonaro: no Ceará, Priscila Costa, deputada federal e vice-presidente do PL Mulher nacional; em Santa Catarina, Caroline de Toni, deputada federal; e no Distrito Federal, Bia Kicis.
“Se aplicássemos a regra dos 30% para candidaturas femininas, teríamos direito a 17 vagas para mulheres no partido. Eu pedi apenas três e tem sido uma batalha diária para manter essas três”, afirmou Michelle. Em nota após o episódio, Flávio Bolsonaro pediu desculpas a Michelle.
Bia Kicis e Caroline de Toni estão com a candidatura encaminhada, mas Priscila Costa recuou e foi para um evento em Lisboa enquanto o PL consolidou em evento em Fortaleza o apoio à candidatura ao Senado do deputado estadual Alcides Fernandes.
- Metodologia da pesquisa citada: 1.500 entrevistados pelo instituto Ideia entre os dias 3 e 6 de julho de 2026. A pesquisa foi contratada pelo Canal Meio S.A.. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2,5 pontos percentuais. Registro no TSE nº BR-05628/2026.
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