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Mads Mikkelsen brilha em thriller que une humor ácido e drama familiar

Um homem sai da prisão após cumprir uma pena de 15 anos por assaltar um carro-forte. Antes de ser capturado, confiou o suculento butim ao irmão, para que o escondesse e ele pudesse recuperá-lo quando fosse libertado. O plano funcionou em parte: a polícia não encontrou o dinheiro durante todo esse tempo. Mas há um problema: o irmão, que sofre de um tipo de autismo desde pequeno e que, ultimamente, também desenvolveu um transtorno dissociativo de personalidade (acredita ser John Lennon, nada mais, nada menos), mostra-se relutante em revelar o lugar onde o enterrou. A isso se soma um segundo problema: o comparsa no assalto, uma espécie de psicopata de bons modos, também quer o dinheiro e não medirá esforços para consegui-lo.

Tenho de reconhecer que, à primeira vista, desconfio das chamadas dramedias. A comédia e o drama, quando são de verdade, parecem-me dois ingredientes difíceis de misturar sem que o resultado final fique aguado: “nem uma coisa nem outra”. O desafio de O Último Viking, dirigido por Anders Thomas Jensen (Cavaleiros da Justiça, As Maçãs de Adão), era enorme: à comédia e ao drama, o roteiro acrescentava uma boa dose de thriller. E, no entanto, o filme (disponível para aluguel no Brasil) supera o desafio com folga, porque funciona muito bem nos três gêneros.

O transtorno dissociativo de “John Lennon” (e dos outros “dissociados” que vão aparecendo pelo caminho) proporciona sequências hilárias. Ao mesmo tempo, à medida que o filme avança, vamos conhecendo a dura infância dos dois irmãos, marcada pelo horror diante de um pai alcoólatra e violento. E tudo isso enquanto o psicopata vai fechando o cerco em torno da família.

Grande parte do sucesso se deve ao habilidoso roteiro do próprio Jensen, no qual a ação se entrelaça com o retrato psicológico dos personagens e com as gags disparatadas sem que o filme perca o ritmo em nenhum momento, e no qual a violência — que existe, e em boas doses — é tratada com certo humor, mas sem cair no suposto genialismo de efeito de um Tarantino. Outra boa parte se deve à magnífica atuação de Mads Mikkelsen (A Terra Prometida, Druk: Mais uma Rodada), que interpreta “John Lennon”. Não é nada fácil dar tanto brilho a um personagem que, por causa do seu autismo, mal é capaz de demonstrar emoções. E, no entanto, apesar de o suposto protagonista ser seu irmão, o personagem de Mikkelsen acaba sendo o retrato mais bem delineado.

Em resumo, um filme muito agradável de assistir — desde que se tenha certo estômago para a violência — e com uma boa mensagem de fundo sobre a diversidade e os laços familiares.

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