Escritos na forma de cantos ou rapsódias pelo grego Homero no século VIII a.C., os poemas épicos Ilíada e Odisseia são considerados as primeiras obras-primas da narrativa europeia. A Ilíada descreve a Guerra de Troia, e a Odisseia, o retorno para casa de um de seus heróis mais destacados, Odisseu, rei de Ítaca, também conhecido como Ulisses. Foi ele quem concebeu o estratagema do Cavalo de Troia, o que irritou Zeus, de modo que seu retorno a Ítaca demora vinte anos, durante os quais ele e seus homens têm de enfrentar todo tipo de perigos. Enquanto isso, a esposa de Odisseu, Penélope, e o filho de ambos, Telêmaco, aguardam-no fiéis à sua memória e esperançosos com seu retorno.
Agora estreia A Odisseia, dirigida por um dos grandes cineastas contemporâneos, o londrino Christopher Nolan, autor de filmes tão poderosos, variados e frequentemente discutidos como O Cavaleiro das Trevas, A Origem, Interestelar, Dunkirk e Oppenheimer. Em A Odisseia, a polêmica veio por várias escolhas singulares de atores, certos elementos anacrônicos do figurino e uma ambientação geral fria e sombria, mais próxima do Mar do Norte do que do Mediterrâneo. Esse último tom glacial do filme é talvez o que mais pesa e, de fato, em algumas passagens — como o encontro com Calipso — Nolan se aproxima do estilo de Denis Villeneuve em sua trilogia de Duna.
Mas essas objeções perdem força diante do atraente tom mitológico que Nolan imprime a toda a narrativa, na qual não destoam muito a queniana Lupita Nyong’o no duplo papel de Helena de Troia e sua irmã Clitemnestra, nem o ator trans Elliot Page — que protagonizou Juno com o nome de Ellen Page — na pele do leal guerreiro Sínon, peça-chave no sucesso do Cavalo de Troia e na descida de Ulisses ao Inferno.
Por sua vez, todos os demais atores estão esplêndidos, tanto os heróis — Matt Damon (Odisseu), Tom Holland (Telêmaco) e Anne Hathaway (Penélope) — quanto o repugnante antagonista Antínoo — papel em que Robert Pattinson se destaca — ou os coadjuvantes com aparições breves, mas impactantes: Zendaya, Charlize Theron, Samantha Morton… e, muito especialmente, John Leguizamo, que desencadeia as cenas mais emocionantes na pele do cego Eumeu, fiel criado de Odisseu.
Porque, desta vez, o habitualmente frio Christopher Nolan consegue vários momentos de grande intensidade emocional, às vezes pela beleza do que mostra e outras pela densidade dramática e ética dos conflitos dos personagens. Uma direção arrebatadora, inteiramente filmada com câmeras IMAX e em 70 mm, capta cada detalhe de locações antológicas, com efeitos visuais de primeira categoria. Tudo isso envolto na inquietante trilha sonora do sueco Ludwig Göransson, mais minimalista e menos orquestral do que nunca.
A estética se enriquece com a profundidade dramática e ética do roteiro do próprio Christopher Nolan. Comove a consciência de culpa de Odisseu, um homem profundamente religioso, que tem consciência de haver traído os deuses e desencadeado sua ira, que procura suportar com firmeza sua penitente sucessão de desgraças e que nunca deixa de rogar a Atena. Talvez o único ponto em que Nolan não alcance o auge seja na amizade de Odisseu com seus guerreiros, excessivamente convencional e castrense, sem qualquer centelha de emoção.
Enfim, A Odisseia é um grande filme, que interpelará muitos com suas certeiras reflexões sobre a providência divina e a liberdade humana, a morte, a dor, a família, o bom governo… e inquietará alguns com suas duras afirmações sobre a instauração de uma cultura da violência e da discórdia como prelúdio do colapso de uma civilização. Por isso surpreende um pouco o epílogo escapista do filme, que nada tem a ver com o desfecho da obra de Homero.


