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A ética protestante e o espírito do drible

Neymar reza ajoelhado no gramado após a derrota do Brasil para a Noruega na Copa do Mundo. (Foto: Will Oliver/EFE/EPA)

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Esperei da eliminação o luto de sempre: o pós-jogo com cara de velório, a promessa de reformar as categorias de base. Veio isso, minha filha chorou um monte. E veio também a metafísica. Nos dias seguintes à eliminação, uma outra choradeira inundou às redes. Não bastasse, chegou à imprensa estrangeira: a seleção brasileira teria perdido por excesso de teologia evangélica, não por tática ou incompetência. Um jornal britânico ouviu um historiador brasileiro dizer que o país perde o senso de comunidade na mesma medida em que ganha igrejas evangélicas, e daí ao gramado foi um passo. O futebol-arte teria nascido de um mundo católico – coletivo, de rua – e estaria morrendo pelo avanço de uma fé que fabrica outro tipo de homem: individualista, voltado para a salvação de si.

Antes da discordância, vamos dar o crédito. O fenômeno que a tese aponta existe, e é enorme. A transformação religiosa do futebol brasileiro é um dos fatos sociológicos mais visíveis das últimas quatro décadas: capelania em clube grande, culto em hotel de concentração, dízimo de craque, jogador que pendura a chuteira e abre igreja. Quem nega isso não olhou para o campo. O que não existe é a segunda metade do argumento, a ponte entre esse fato e o placar. Reconhecer o fenômeno e provar que ele derruba seleções são operações distintas, e toda a força da acusação está em fazer a primeira passar pela segunda.

Quando a crise não tem explicação suportável, a comunidade elege um culpado, e a paz volta pelo sacrifício. O crente é o candidato perfeito: visível, recém-chegado, de joelhos

O erro tem genealogia ilustre. A Ética Protestante e o “Espírito” do Capitalismo foi reduzida, no imaginário popular, à ideia de que protestante trabalha e enriquece enquanto católico reza e atrasa. Max Weber foi mais cauteloso que seus divulgadores: falou em afinidade eletiva, expressão escolhida para não dizer que a religião produz a economia como a chuva produz a poça. Os brasileiros que o importaram tiveram menos cuidado: boa parte do nosso pensamento social leu o atraso do país como falta da ética protestante – faltava-nos a disciplina do puritano, sobrava-nos a moleza ibérica. Essa estrutura acaba de reaparecer virada do avesso: o protestantismo, receitado ontem como a cura que faltava ao Brasil, atualmente é visto como a doença.

O lance mais fino do erro envolve Gilberto Freyre. Foi ele quem inventou a fórmula do futebol mulato: o gênio brasileiro do jogo seria dionisíaco, ginga de malandro, contra o padrão apolíneo do europeu, formal e cerebral. A fórmula envelheceu como envelhecem as mitologias raciais, mas quem chora o futebol-arte chora dentro dela – a nostalgia do drible é nostalgia freyriana, saiba-o o nostálgico ou não. E o mito trai a acusação duas vezes. Primeiro, no endereço do inimigo, que era europeu, não religioso: a europeização tática que a imprensa defende desde 1974, o culto ao rigor físico, o menino exportado aos 16, ativo financeiro antes de ser jogador. Segundo, na palavra-chave: individualismo, o pecado que a tese atribui ao evangélico, era para Freyre o gênio do nosso drible, a jogada de improviso, a vaidade do craque que encara a zaga inteira. Era virtude nacional; agora é vício importado. Quando a mesma palavra nomeia o melhor e o pior do jogo conforme quem a pronuncia, ela parou de recortar qualquer coisa.

Contra a versão de boteco da tese, basta o calendário. No tetra de 1994 havia os “Atletas de Cristo”: Taffarel, Jorginho, Müller, Paulo Sérgio, Zinho. A geração mais evangélica que a seleção já reuniu trouxe a taça para casa; oito anos depois, o penta veio com Kaká e Lúcio ajoelhados no gramado. Na outra ponta, o time de 1982, o futebol-arte em estado canônico, católico e popular como manda o mito, perdeu no Sarriá. O mito venera uma derrota. Dirão que o tetra foi formado nos anos 70, antes da onda evangélica, e que a causa verdadeira opera na infância, não no vestiário: o menino que hoje passa três noites por semana no culto não está na rua. É a única forma séria da tese, e merece resposta séria.

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Pois bem: o menino não está na rua. Mas nada mais está. A violência trancou a infância no condomínio, a escolinha paga substituiu a várzea, o celular fez o resto. Entre todas as forças que esvaziaram a rua onde o drible nascia, a acusação indicia uma só: a que está de joelhos. E ainda inverte a seta: a igreja de periferia cresceu onde a rua já tinha morrido. Ela ocupou um terreno baldio; não o produziu. O culto de quarta-feira é hoje, em muito bairro, o último lugar onde o pobre urbano encontra gente, e culpá-lo pela solidão ao redor é confundir o sobrevivente com o assassino.

Os elencos formados dentro da onda evangélica jogam pior por causa dela? Não sei, e o acusador tampouco. Ele comparece sem um número, sem um levantamento das categorias de base, sem nem sequer definir o que chama de declínio. A diferença está no que cada um faz com a própria ignorância. René Girard descreveu o mecanismo: quando a crise não tem explicação suportável, a comunidade elege um culpado, e a paz volta pelo sacrifício. O crente é o candidato perfeito: visível, recém-chegado, de joelhos. Escolhê-lo poupa o trabalho de encarar o que não tem consolo: fomos alcançados no nosso próprio ofício por quem industrializou o que fazíamos por instinto. Eu, que sou católico, não tenho o direito de reivindicar o penta em nome de Roma nem a derrota em nome de Genebra. O gramado é laico até quando reza. E graças a Deus se reza.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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