A tilápia criada hoje em pisciculturas de todo o Brasil pode carregar a genética desenvolvida por pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Há quase três décadas, o PeixeGen (Núcleo de Pesquisa em Manejo, Melhoramento e Genética Molecular em Piscicultura de Água Doce) seleciona animais que crescem mais rápido, aproveitam melhor a ração e ajudam a tornar a piscicultura brasileira mais eficiente.
Os resultados aparecem diretamente nas propriedades rurais. Uma tilápia selecionada geneticamente pode apresentar desempenho entre 20% e 30% superior ao de um animal sem melhoramento, reduzindo o tempo de cultivo, os custos de produção e aumentando a produtividade.
O empresário Evandro Schmitt conhece esse impacto de perto. Proprietário da Acqua Sul Piscicultura, de Ilhota (SC), uma das maiores produtoras de alevinos do país, ele recorreu à UEM em 2008, depois que uma enchente destruiu boa parte do material genético da empresa.
“O professor Ricardo praticamente é o pai da tilápia GIFT no Brasil. Perdemos nosso material genético na enchente e ele nos cedeu seis famílias para reconstruirmos o plantel. Foi o início de uma parceria que dura até hoje”, lembra Schmitt.
Desde então, a empresa catarinense utiliza a genética desenvolvida pelo PeixeGen e também apoia financeiramente as pesquisas realizadas pela universidade. “Continuamos investindo porque sabemos da importância desse trabalho para toda a piscicultura brasileira”, afirma o empresário.
Para Schmitt, a evolução da tilapicultura nacional está diretamente ligada ao trabalho desenvolvido pela UEM. “O programa conta com pesquisadores altamente qualificados e o setor deve muito a eles pela construção desse conhecimento e pela liderança exercida ao longo de todos esses anos”, conclui.
Três décadas de seleção genética para produção de tilápias
O PeixeGen foi criado em 1997 a partir de uma parceria entre a UEM e a Companhia de Desenvolvimento Agropecuário do Paraná (Codapar), que permitiu aos pesquisadores utilizar a estação experimental de piscicultura de Floriano, no distrito de Maringá.
Um dos principais marcos da trajetória ocorreu em 2005, quando a universidade recebeu da Malásia a linhagem GIFT (Genetically Improved Farmed Tilapia), considerada uma das mais importantes do mundo para programas de melhoramento genético. Desde então, uma nova geração de peixes é desenvolvida a cada ano e o programa já alcançou a 16ª geração.
A dimensão desse trabalho pode ser medida pelos números da piscicultura brasileira. Segundo a Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), o país produziu 1.011.540 toneladas de peixes de cultivo em 2025. Desse total, 707.495 toneladas foram de tilápias.
Um estudo publicado pela Embrapa em 2020, com base na produção nacional de 2019, estimou que aproximadamente 80% das tilápias produzidas no Brasil pertenciam à linhagem GIFT pura ou cruzada e podiam apresentar algum grau de parentesco com os animais desenvolvidos pelo programa de melhoramento genético da UEM.
“Em 2027, completamos 30 anos de uma trajetória voltada ao desenvolvimento da piscicultura. O que começou como um núcleo dedicado à pesquisa em produção de peixes transformou a UEM em uma das principais referências brasileiras em melhoramento genético de tilápias“, afirma Ricardo Pereira Ribeiro, idealizador e coordenador do PeixeGen e professor aposentado do Departamento de Zootecnia (DZO) da UEM.
Embora a tilápia seja o principal foco do programa, os estudos do PeixeGen também abrangem outras espécies nativas de peixes brasileiros, como tambaqui e pintado.
Como funciona o melhoramento
O trabalho desenvolvido pelo PeixeGen segue os mesmos princípios utilizados em programas de melhoramento de bovinos, aves e culturas agrícolas, como soja e milho. Todos os anos, milhares de tilápias passam por avaliações individuais. Os animais são pesados, têm o desempenho analisado e, com o auxílio de ferramentas estatísticas, os pesquisadores identificam aqueles com maior potencial genético.
“A gente busca um animal que cresça mais rapidamente. Se ele atinge o peso de abate antes, o produtor reduz o tempo de cultivo e os custos de produção”, explica Carlos Antônio Lopes de Oliveira, professor do DZO/UEM. Atualmente, cerca de 80% do custo de produção da tilápia está concentrado na alimentação dos peixes.
O processo vai além da escolha dos animais com melhor desempenho. Quando atingem aproximadamente cinco gramas, todos recebem um microchip que permite acompanhar sua árvore genealógica, identificando pais, mães e descendentes. O controle evita cruzamentos entre animais aparentados e preserva a variabilidade genética da população.
“Essa variabilidade é o combustível do melhoramento. Se selecionarmos apenas animais muito parecidos, ganhamos velocidade no início, mas depois a evolução para. Por isso preservamos diferentes famílias genéticas”, explica Oliveira.
Esse controle permite que os ganhos sejam mantidos ao longo das gerações, preservando características importantes, como adaptação aos sistemas de produção, resistência e capacidade reprodutiva.
Melhoramento genético impacto produção de tilápias no país
Embora o ganho genético obtido a cada geração fique entre 2% e 3%, o efeito acumulado ao longo de duas décadas mudou o desempenho da tilápia produzida no país.
“Comparando com os animais que iniciaram o projeto, em 2005, hoje reduzimos cerca de 60 dias no período de cultivo, com maior ganho de peso e melhor rendimento de filé”, afirma o professor Ricardo Pereira Ribeiro.
Na prática, isso significa menor consumo de ração, redução dos custos de produção e a possibilidade de aumentar o número de ciclos de cultivo ao longo do ano.
Depois de selecionados, os peixes permanecem no núcleo de melhoramento da UEM. A partir deles são produzidas matrizes distribuídas a empresas multiplicadoras e produtores de alevinos, responsáveis por levar essa genética às pisciculturas de diferentes regiões do país. Antes da distribuição, os animais recebem certificação genética e sanitária.
“O produtor recebe um material geneticamente superior e com controle sanitário. São os produtores de alevinos que multiplicam essa genética e fazem com que ela chegue às pisciculturas de todo o Brasil”, explica Ribeiro.
A presença da linhagem GIFT na piscicultura brasileira mostra a dimensão alcançada pelo programa, que continua evoluindo a cada geração e contribuindo para o crescimento da produtividade da piscicultura brasileira.
Ciência que ultrapassou os laboratórios
Ao longo de quase três décadas, o PeixeGen acompanhou a evolução da piscicultura nacional e presenciou avanços em áreas como nutrição, manejo, sanidade e sistemas de produção. O material genético desenvolvido na UEM também chegou a outros países, como Cuba e Uruguai, por meio de parcerias com instituições de pesquisa e empresas do setor.
Além do impacto na produção, o núcleo tornou-se um centro de formação de pesquisadores nos programas de graduação, mestrado e doutorado. Desde 1997, mais de 362 estudantes participaram das atividades do grupo, que já publicou mais de 250 artigos científicos.
“São os estudantes que fazem o programa acontecer. Eles participam de todas as etapas da pesquisa e, ao mesmo tempo, tornam-se profissionais preparados para liderar programas de melhoramento genético em universidades, centros de pesquisa e empresas no Brasil e no exterior”, destaca Pedro Luiz Castro, professor do DZO/UEM.
Hoje, ex-integrantes do PeixeGen atuam em universidades, centros de pesquisa e empresas de 12 states brasileiros, além de instituições na Noruega e nos Estados Unidos.
Para a próxima década, o programa prepara uma nova etapa de pesquisas. “Entre as prioridades estão o desenvolvimento de linhagens ainda mais eficientes, estudos voltados à resistência a doenças, a ampliação da cooperação internacional e a formação de novos pesquisadores”, finaliza.
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