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O que é a “Dieta da Bíblia”, cada vez mais popular entre os conservadores

Na tradição bíblica, ter uma vida longa era algo relativamente comum principalmente no período relatado no Antigo Testamento. Moisés, por exemplo, viveu 120 anos segundo o livro de Deuteronômio. Isaque e seu pai, Abraão, viveram 180 e 175 anos, respectivamente, pelo que conta o Gênesis.

A expectativa de vida média do brasileiro, segundo os dados mais recentes do IBGE, é de pouco mais de 76 anos. Entre as brasileiras é um pouco maior, cerca de 80 anos, e ainda assim abaixo da média bíblica. Qual seria a explicação para a discrepância entre os tempos de hoje e os de Moisés?

Para Jordan Rubin, autor de livros como “A Dieta do Criador”, a resposta está na alimentação. Ele — um cristão de origem judaica — é um dos maiores expoentes do que vem sendo conhecido como a “Dieta da Bíblia”, uma forte corrente conservadora que privilegia o consumo de alimentos e o preparo de receitas de acordo com as Sagradas Escrituras.

A base dessa alimentação são os alimentos citados na Bíblia, como sardinhas e peixes frescos, azeite de oliva, pão com fermentação natural, mel, carne de cordeiro, grãos, sementes e frutas. Nada de alimentos ultraprocessados, adoçantes “artificiais”, como o açúcar refinado e carne e derivados de porco, por exemplo.

Comer segundo a Bíblia pode, segundo Rubin, acrescentar mais anos e mais vida às pessoas. Para o autor, os planos de Deus não são apenas para que as pessoas vivam mais, mas sim “vivam uma vida mais forte e mais próspera em saúde e vitalidade, para assim cumprir os Seus propósitos em nossas vidas”.

“Jejum de Daniel” é uma das práticas mais conhecidas entre adeptos das dietas da Bíblia

A iniciativa vem encontrando eco nas redes sociais, com o apoio de influenciadores e famosos, como o ator Chris Pratt, que há alguns anos compartilhou em suas redes sociais que faria o “Jejum de Daniel”. A prática dura 21 dias e promete, segundo seus incentivadores, ser uma “experiência única de mudança de vida”.

O processo funciona como uma desintoxicação física e um retiro espiritual, onde as pessoas se abstêm de carne, laticínios, açúcar, doces, pães e álcool, focando em frutas, grãos, sementes, legumes e muita água. A base bíblica está no livro de Daniel, mais especificadamente nos capítulos 1 e 10.

Em um dos sites que ensinam o “Jejum de Daniel”, os autores são claros ao explicar que há efeitos colaterais que podem variar entre dores no corpo, fadiga, náuseas, dores de cabeça e problemas digestivos. Esses efeitos, porém, são apontados como algo positivo, uma vez que o principal efeito deve ser uma maior aproximação com Deus.

Autor se inspirou na Bíblia para buscar cura para o câncer

A inspiração para que Jordan Rubin escrevesse seus mais de 30 livros sobre a dieta da Bíblia veio de uma experiência pessoal. Ele foi diagnosticado com um câncer terminal, que alega ter sido curado, entre outras coisas, com a ajuda da alimentação.

Uma das principais fontes de nutrição foi uma espécie de chá feito por ele com folhas que normalmente iriam para o lixo. E por que folhas? A explicação vem da Bíblia.

E junto ao rio, à sua margem, de um e de outro lado, nascerá toda a sorte de árvore que dá fruto para se comer; não cairá a sua folha, nem acabará o seu fruto; nos seus meses produzirá novos frutos, porque as suas águas saem do santuário; e o seu fruto servirá de comida e a sua folha de remédio.

Ezequiel 47:12

“O remédio pode crescer em árvores, e chegou a hora de nós ouvirmos a palavra de Deus e participarmos dessa cura natural”, disse o autor em um podcast. As folhas preferidas de Rubin, segundo seu livro “A Dieta da Bíblia” são as de manga, oliveira, graviola, amora e abacate.

Autor não recomenda que tratamentos convencionais sejam interrompidos

Neste mesmo livro, Rubin destaca a história de uma pessoa que, segundo ele, teria sido curada de um osteossarcoma na perna esquerda. O quadro de saúde do homem era precário, mas após a ingestão da infusão de folhas, a doença teria recuado.

O homem cuja história é contada por Rubin parou de fazer o tratamento convencional com a quimioterapia, a contragosto de seu oncologista – que sugeriu uma consulta com um psiquiatra para avaliar a condição mental do paciente.

Depois de uma rotina de ingestão de chás e orações, a doença estacionou. Ele seguiu fazendo exames de rotina, e alguns meses depois a notícia que veio dos médicos foi devastadora: havia uma metástase nos pulmões e no fígado.

“Cai de joelhos em oração, perguntando a Deus por que Ele tinha me permitido ajudar o Jethro se ele iria piorar em seguida e morrer”, revela Rubin.

Cerca de um mês depois, ele disse ter recebido uma carta da esposa do paciente afirmando que toda a atividade da doença identificada nos exames anteriores havia desaparecido. Um tumor benigno remanescente foi operado, e segundo Rubin, o paciente seguiu sua vida sem câncer.

Ciente do peso de seu relato, o autor faz uma consideração importante no livro:

“Preciso deixar uma coisa muito clara. Eu não sugiro que ninguém abandone qualquer tratamento ou acompanhamento médico. Se você está enfrentando um câncer ou outra doença séria, a oração é essencial, assim como procurar ajuda médica. Enquanto isso, considere explorar alternativas daquilo que o próprio Deus chamou de cura, e que pode chegar até você até de graça”, escreveu.

Comida faz parte da luta entre Deus e Satanás

A abordagem da dançarina e influenciadora digital Kaila Bundy é ainda mais radical. Apesar de não ter formação em nutrição, ela é outra referência no campo das dietas bíblicas nos Estados Unidos. Autora do livro “Coma Como na Bíblia: um guia para os superalimentos bíblicos”, ela trata a questão como uma verdadeira batalha entre o bem e o mal.

“No Jardim do Éden, Satanás não veio com uma arma. Ele veio com uma fruta, e distorceu o que Deus chamava de bom. Não foi um acidente. Foi uma estratégia. E ele vem usando-a desde então. O inimigo usou a comida através do medo, da obsessão, do controle ilusório, da vergonha e de toda uma indústria construída para manter você dependente, para silenciosamente romper sua conexão com o próprio corpo e com Deus”, afirma ela, em seu site oficial.

Para Bundy, Deus deu ao homem a comida como um presente, e criou algumas leis alimentares não como uma restrição, mas como uma forma de proteção aos fiéis. Ela lembra que, segundo a Bíblia, as refeições sempre foram momentos de aliança, comunhão e milagres.

“O primeiro milagre de Jesus aconteceu à mesa de jantar. Ele partiu o pão e alimentou milhares. Ele se levantou e continuou a comer com Seus discípulos na praia. A comida não é uma nota de rodapé nas Escrituras, ela está intrinsecamente ligada à própria história da redenção”, completa a autora.

Dietas naturais recebem apoio do MAHA

Mais do que as redes sociais, essas dietas focadas em alimentos naturais também estão recebendo apoio de fontes oficiais, como o governo dos Estados Unidos. O movimento MAHA, do inglês “Make America Healthy Again” (“Faça a América Saudável Novamente”, em tradução livre), é incentivado pela Casa Branca e busca levar a uma mudança na alimentação a partir das crianças.

Depois de apresentar diversos números sobre o atual quadro de saúde das crianças norte-americanas, o relatório MAHA alerta que o aumento nos casos de doenças crônicas pode ser associado a uma série de fatores. Entre eles, os remédios que as crianças tomam, as mudanças de estilo de vida e comportamento, aos produtos químicos aos quais elas são expostas e principalmente à comida que comem.

Para combater esses males, a proposta do MAHA é promover reformas em diretrizes alimentares e na publicidade de alimentos, além de incentivar o consumo de comida integral, a prática de atividade física e a redução no uso de medicamentos considerados desnecessários.

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