Malu Gaspar: honestidade que um crápula como Daniel Vorcaro jamais entenderia. (Foto: Léo Salvador/Festival Fronteiras)
Ouça este conteúdo
O banqueiro Daniel Vorcaro mandou vasculhar a vida da jornalista Malu Gaspar. Canalha! Mas não encontrou nada. Nem multa de trânsito! Aí, acostumado que estava a comprar políticos e autoridades, ele cogitou a possibilidade de pagar à jornalista uma bolada. A ideia foi rechaçada de pronto pelo publicitário Thiago Miranda, cúmplice de Vorcaro na tramoia. “O problema é que ela não liga para dinheiro. Vive uma vida de merda. Jornalista esquerdista”, escreve o sujeitinho.
Curiosa e interessante a conclusão a que chega o publicitário. Se a Malu Gaspar não liga para dinheiro, logo ela vive “uma vida de merda”. Meu Deus! Que gente baixa. Caída. Gente que se acha capaz de comprar todo mundo porque, no fundo, já se vendeu também. O “vida de merda”, aliás, ecoa para além do palavrão vulgar. Tem toda uma concepção filosófica nesse diagnóstico. Thiago Miranda e Daniel Vorcaro partem de um pressuposto comum: o de que uma vida honesta e que não aspira ao luxo cafona dessa gentalha se traduz numa vida infeliz. Que patifaria!
Multas de trânsito
Ao ler a nauseante troca de mensagens, porém, fico me perguntando quantos colegas jornalistas sobreviveriam a uma devassa em suas vidas. Ainda mais sendo famosona e tratando de grandes escândalos envolvendo políticos e autoridades de grossíssimo calibre, como é o caso da Malu Gaspar. De repente, um nome me vem à mente. Esse mesmo. Não sei por quê. Coitado. Depois penso em outros nomes. Em histórias que a gente ouve por aí. Penso em gente, jornalistas ou não, que se vende por muito menos. Muito pouco. Quase nada. Mas se vende.
Penso também nos pecadilhos que temos todos e que, a depender do contexto, se transformam em erros imperdoáveis. Nas multas de trânsito. Naquela vez, lá em 1995, em que tomei uma decisão errada. Ou 2002, que seja. Em palavras ditas e escritas. No que fui e no que sou. No que ainda pretendo ser, se Deus permitir que eu me torne. E aí me dou conta de que essa é uma das artimanhas mais eficientes do inimigo: o juízo eterno, impermeável ao perdão e à redenção. Como se um mal menor cometido há trocentos anos impedisse uma pessoa de mudar. De fazer o bem. De perseguir a verdade. Hoje e agora.
VEJA TAMBÉM:
Encontrou algo errado na matéria?
Comunique erros
Use este espaço apenas para a comunicação de erros


