Uma reflexão responsável, crítica e comprometida com o ser humano naturalmente conduz a uma ação consciente, autorregulada e efetiva (Foto: Imagem criada utilizando Google Flow/Gazeta do Povo)
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Pensar leva tempo, e tempo é o que menos temos. Parece que, quanto mais a tecnologia avança e promete trazer ganho de eficiência em nossas vidas, mais atarefados estamos. Entramos em um ciclo nada virtuoso, que pode nos tornar meros “replicadores”. Esse caminho é particularmente perigoso quando se trata da educação, e é por isso que o avanço das tecnologias, em especial a inteligência artificial e agora a inteligência artificial generativa, deve provocar em nós, educadores, o desejo de pensar a educação.
Por exemplo, a premissa socrática de que uma vida irrefletida não valeria a pena ser vivida é desafiada pelo contexto da aceleração contemporânea. Em um cenário em que frequentemente não conseguimos avaliar as melhores alternativas, considerar diferentes perspectivas ou nos permitir um repensar genuíno, como podemos esperar que as manifestações – positivas ou negativas – da inteligência artificial sejam debatidas de maneira sensata e profunda?
Aparentemente, a sociedade contemporânea se afasta cada vez mais do ideal kantiano de ‘ousar pensar’, substituindo-o por uma superficialidade alimentada pelo fluxo incessante de estímulos imediatos
Evidentemente, essa situação não se restringe à inteligência artificial. No contexto de uma civilização do espetáculo, como descreve Mario Vargas Llosa – em que todos nos consideramos cultos, mesmo sem jamais termos lido um livro, visitado uma exposição, assistido a um concerto ou adquirido noções fundamentais de conhecimento humanístico, científico e tecnológico –, o reforço dopaminérgico promovido por smartphones e redes sociais reforça a diluição da figura do indivíduo reflexivo.
Aquele que se dedica a um problema, concentra-se profundamente e se dispõe a investigar os “porquês” das coisas torna-se uma raridade. Aparentemente, a sociedade contemporânea se afasta cada vez mais do ideal kantiano de “ousar pensar”, substituindo-o por uma superficialidade alimentada pelo fluxo incessante de estímulos imediatos.
E, nessa jornada, a metacognição é etapa fundamental. A metacognição nos possibilita investigar e monitorar os processos cognitivos e trabalhar na sua autorregulação. Questionar quais são os caminhos que podemos utilizar, os métodos mais eficientes para determinadas áreas, como a neurociência explica certos fenômenos relacionados à aquisição do conhecimento e à educação, como a fisiologia humana interfere, como o estado emocional inibe ou promove o conhecimento, como a inteligência artificial vem atuando nos processos de aprendizagem e quais mudanças estão ocorrendo e podem ocorrer… Enfim, como o ser humano conhece o conhecer e como se conduz diante desse conhecimento.
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Humberto Maturana e Francisco Varela, na obra clássica A árvore do conhecimento – sem falar em metacognição, mas trazendo a noção de reflexão –, destacam que a reflexão é “um processo de conhecer o conhecer, um ato de voltar a nós mesmos, a única oportunidade que temos de descobrir nossas cegueiras e reconhecer que as certezas e os conhecimentos dos outros são, respectivamente, tão aflitivos e tão tênues quanto os nossos”.
Feito o percurso da metacognição, a reflexão vem lapidar esses diversos saberes sobre educação que se encontram postos, precisando apenas de tempo… Tempo para uma conversa na sala dos professores, para uma oficina temática, para um encontro mensal de formação, para um café ou vinho filosófico.
Uma reflexão responsável, crítica e comprometida com o ser humano naturalmente conduz a uma ação consciente, autorregulada e efetiva e nos dá suporte para seguir educando nesse mundo de tantas novidades e incertezas.
Murilo Karasinski é professor do Programa de Pós-Graduação em Bioética e membro do Observatório de Inteligência Artificial na Educação Superior da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR); Patricia Eliane da Rosa Sardeto é professora do Curso de Direito, coordenadora do IURIS – Laboratório de Inovação Jurídica da PUCPR Câmpus Londrina, endorser do Rome Call for AI Ethics da Fundação RenAIssance-Vaticano e membro do Observatório de Inteligência Artificial na Educação Superior da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos
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