A Fiocruz, instituição historicamente vista como referência nacional em saúde e pesquisa, passou a dedicar boa parte do seu tempo e recursos a pautas de esquerda. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
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Cursos de terapias alternativas, debates sobre racismo estrutural e eventos relacionados ao aborto e “viabilidade trans”, típicos da agenda de uma ONG de esquerda, passaram a ser normais na programação de atividades da Fiocruz. A transformação paulatina da instituição pública centenária em um braço ideológico da esquerda coloca em risco a credibilidade científica de uma instituição historicamente vista como referência nacional em saúde e pesquisa.
A presença desse tipo de conteúdo não é pontual. Ao contrário: temas de caráter social e político vêm ganhando cada vez nas espaço nas decisões, alocação de recursos e na dedicação institucional da autarquia.
Fiocruz promove eventos com terapias alternativas e temas sociais
Essa agenda se reflete, sobretudo, em eventos e formações recentes. Em março, a Fiocruz promoveu um curso sobre “deslizamentos rítmicos antroposóficos”, prática corporal integrativa baseada em toques suaves e ritmados com uso de óleos terapêuticos. Já em maio, um simpósio apresentou pesquisas sobre o chamado “banho de floresta” e os efeitos do contato com a natureza na saúde física e mental.
Além das práticas integrativas, a programação institucional também tem incorporado temas sensíveis ao debate público. Em 2024, um evento discutiu formas de “acolher e garantir direitos” relacionados ao aborto legal no SUS. No Brasil, o aborto provocado é crime previsto no Código Penal, não punido quando a gestação decorre de estupro ou existe risco de morte materna.
A pauta também aparece em manifestações internas. Em carta divulgada em 8 de março, o “Coletivo de Mulheres na Fiocruz” criticou o que classificou como “estratégias da extrema direita para dificultar o acesso ao aborto legal” e defendeu o tema como questão de saúde pública. O documento foi lido em um evento da instituição em prol do “feminicídio zero”.
“Tem muitas atividades que não têm nada de ciência e que são promovidas ali”, afirma uma fonte ligada à instituição há mais de uma década.
Falta de alternância impulsiona ideologização na Fiocruz
Segundo fontes próximas à autarquia, o avanço de agendas políticas está ligado à baixa alternância de poder dentro da Fiocruz. “Durante o período em que acompanho a Fiocruz, raramente vi chapas com posicionamentos políticos distintos. Nas poucas ocasiões em que houve alguma divergência, os candidatos tinham pouca competitividade, o que tornava difícil considerá-los como alternativa real”, aponta um interlocutor.
Na prática, o modelo de decisões colegiadas nem sempre resulta em maior equilíbrio interno. Em alguns institutos, a presidência eleita decide diretamente quem será o diretor daquele setor, que, por sua vez, indica os membros do conselho deliberativo — instância responsável por aprovar decisões estratégicas. Em outros casos, contudo, os diretores também são eleitos pelos servidores, o que reduz parcialmente essa influência.
Entre essas decisões está, por exemplo, a autorização para o recebimento de emendas parlamentares. Pesquisadores não podem negociar diretamente esses recursos, sendo necessária a aprovação do conselho.
“Geralmente, os parlamentares que destinam emendas à Fiocruz são alinhados ao PT e ao PSOL. Dificilmente a Fiocruz aprovaria uma emenda de um parlamentar de direita, por exemplo. Por outro lado, há deputadas da esquerda que parecem quase ‘sócias’ da Fiocruz”, diz a fonte.
Segundo ela, o processo também envolve interesses políticos, já que emendas costumam gerar visibilidade para deputados e senadores, seja por meio de divulgação em redes sociais ou pela participação em eventos vinculados aos investimentos.
“Quando alguém diz que não há recursos para viabilizar uma pesquisa, costumo pensar que, na verdade, não há recursos para aquela pesquisa específica. Para outras, sempre acaba havendo”, completa.
Pluralidade é fator-chave para melhorar credibilidade
Para a médica e ex-secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, Mayra Pinheiro, instituições científicas têm menor propensão a uma captura ideológica completa, mas não estão imunes a pressões. “Há mais a pressão de agendas políticas, disputas internas e incentivos institucionais que podem influenciar prioridades, linguagem pública e até escolhas de pauta”, avalia.
Segundo ela, esse movimento pode se refletir na seleção de temas, em uma comunicação institucional enviesada e em nomeações internas. Ainda assim, Pinheiro avalia que a força científica da Fiocruz permanece.
“A entidade, sem dúvida, está com uma presença institucional mais ampla e politicamente sensível do que no passado. Para recuperar confiança pública, no entanto, instituições como a Fiocruz precisam combinar três coisas: transparência, previsibilidade e pluralidade interna”, conclui.
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