Os alunos estão na escola, e para o Pé de Meia isso basta. Mas estarão lá apenas com o corpo enquanto a cabeça está em outro lugar? (Foto: Imagem criada utilizando Google Flow/Gazeta do Povo)
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Faço chamada há mais de 25 anos. É a primeira coisa que faço em toda aula, antes de qualquer conteúdo: abro o diário de classe, chamo nome por nome, marco presente ou falta. Levei mais de duas décadas para admitir o que aquela lista mede, e o que ela não mede. Mede corpo na cadeira. Não mede se o corpo trouxe junto alguma coisa parecida com atenção.
O ex-ministro Fernando Haddad comemorou, semana passada: o Pé de Meia reduziu em 40% a evasão escolar no primeiro ano do ensino médio, mais do que o estudo previa, e isso, segundo ele, é “política pública feita com pesquisa, seriedade e resultado”. Dirão que é assim mesmo, e é, em parte: ficar matriculado é melhor do que evadir, ninguém com juízo defende o adolescente fora da escola. Só que fora e dentro não esgotam as opções. Há um terceiro estado, o mais comum de todos, que é estar lá sem estar lá.
O programa tem uma régua, e é só uma: 80% de frequência em sala, aferida mês a mês. Não pergunta se o aluno abriu o caderno, se entendeu a equação, se ouviu a explicação e discordou dela ou dormiu nela. Pergunta se o corpo cruzou a porta um número suficiente de vezes. Cumprida a régua, o Estado deposita R$ 200 numa poupança que o próprio aluno não pode tocar: fica trancada até o fim do ensino médio, uma fiança que o adolescente paga com a presença física, resgatável só se ele aguentar os três anos inteiros. Usei “aguentar” de propósito.
O Pé de Meia não pergunta se o aluno abriu o caderno, se entendeu a equação, se ouviu a explicação e discordou dela ou dormiu nela. Pergunta se o corpo cruzou a porta um número suficiente de vezes
Entendo por que o governo escolheu essa régua e não outra. Frequência é a única variável que um sistema central consegue contar sem depender de ninguém: o aluno bate o ponto, o professor confirma na chamada. Aprendizagem não bate ponto. Exige prova corrigida, erro discutido: coisa miúda e lenta, que não cabe numa planilha do Ministério da Educação e não produz nota de imprensa em duas semanas. O programa não mede formação porque formação não se mede naquela velocidade, para aquele público de tuíte. Mede o que dá para medir, e chama o que deu para medir de “sucesso”.
Hannah Arendt tem um ensaio sobre a crise da educação em que diz algo que ainda não fomos capazes de desmentir: a escola existe para apresentar ao recém-chegado um mundo que já estava lá antes dele. Isso é um ato de autoridade. Alguém precisa garantir que o mundo continua de pé enquanto o novato aprende a se equilibrar nele. Uma lista de chamada não apresenta mundo a ninguém: cumpre calendário.
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A palavra escola vem do grego skholé: pausa, suspensão. O momento em que alguém interrompe os processos vitais – comer, produzir, sobreviver – para fazer a única coisa que a urgência da vida nunca permite, que é pensar devagar. Jean-François Mattéi dedica um capítulo inteiro de A Barbárie Interior a essa suspensão e ao que sobra quando ela é abolida em nome de uma ideia de educação que soa generosa: a escola aberta para a vida. Cito de segunda mão, sem o livro na mesa, mas a frase ficou comigo: a pedagogia moderna reduziu um lugar de reflexão a um lugar de vida, assimilado ao processo de socialização. Em vez da Escola para a Sociedade, a Sociedade para a Escola. A instituição que deveria cortar o aluno da vida por umas horas passa a servir a vida, prolongá-la, confundir-se com ela.
É esse corte que o Pé de Meia dissolve, sem perceber que dissolve. O programa paga para o aluno continuar dentro da vida, só que sentado, sem o corte que a skholé pede. Os R$ 200 mensais substituem, na conta da família, o que o adolescente ganharia catando latinha ou ajudando no trabalho de algum adulto: dinheiro de sobrevivência trocado por dinheiro de sobrevivência, só que com endereço fixo das 7 às 11 da manhã. A escola, assim, transforma-se mais em um posto remunerado, e o que deveria suspender a urgência da vida passa a ser a própria urgência, redecorada. Skholé nenhuma sobrevive a isso. Sobrevive só o prédio e a demagogia do governo.
Quando o governo mede sucesso pela lista que eu preencho, está medindo a coisa errada, e eu, que preencho a lista, sou o primeiro a saber disso
Jonathan Haidt anda argumentando, com dados, que a esta geração falta menos presença do que atenção: corpo na sala, cabeça em outro aparelho, sequestrada por um projeto que não é o da aula. Se ele tiver razão – e a experiência de qualquer um que dá aula há alguns anos sugere que sim –, o Pé de Meia resolve a parte do problema que já não é o problema. Paga para o corpo ficar onde o corpo já queria ficar, ou pelo menos onde a família mais pobre precisa que ele fique para receber R$ 200. Não paga, porque não tem como pagar, pela outra coisa.
Dirão, de novo com razão parcial, que R$ 200 por mês mudam a vida material de uma família pobre, e mudam mesmo, e um adolescente de 15 anos que fica em sala em vez de ir catar latinha na rua já é alguma coisa. Concedo isso sem ironia. Não confundo, porém, a concessão com o que Haddad disse: que isso é sucesso educacional, comprovado por pesquisa. A pesquisa mediu evasão. Evasão é lista de chamada. O ex-ministro está certo sobre o número, e errado sobre o que o número prova.
Volto à minha rotina escolar. Todo santo dia marco “presente” para adolescentes que estão ali e não estão, e não tenho antídoto para oferecer: dou aula há tempo demais para acreditar em antídoto de coluna de jornal e planilhas. Sei só que, quando o governo mede sucesso pela lista que eu preencho, está medindo a coisa errada, e eu, que preencho a lista, sou o primeiro a saber disso – e o primeiro a continuar preenchendo.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos
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