Em um cenário mundial de crescente desconfiança nas instituições, de disputas em torno da liberdade de expressão, de crises migratórias e desafios socioeconômicos, a edição de 2026 da Acton University reuniu lideranças mundiais em torno da pergunta: Como construir sociedades livres, virtuosas e capazes de gerar prosperidade?
A conferência, realizada anualmente pelo Acton Institute, em Grand Rapids, nos Estados Unidos, recebe acadêmicos, empresários, juristas, parlamentares, líderes religiosos e representantes da sociedade civil com o propósito de conectar boas intenções a princípios econômicos sólidos. A Acton parte da premissa de que liberdade e virtudes caminham juntas na construção de sociedades mais prósperas.
Essa visão esteve presente em toda a programação neste ano. Ao longo das conferências, os palestrantes defenderam que a forma como compreendemos a natureza da pessoa humana influencia diretamente a maneira como concebemos a economia, o direito, a política e as instituições. O diretor da Acton, Michael M. Miller, sintetizou: “A forma como compreendemos a natureza e o destino da pessoa humana molda todo o restante”. Ele afirmou que uma vontade guiada por irracionalidade não é liberdade e que a busca pelas virtudes é fundamental para a construção de uma liberdade verdadeira, tanto na vida pessoal quanto na esfera pública.
Palestrantes alertam para os efeitos do crescimento da dívida pública
Do ponto de vista econômico, palestrantes defenderam que liberdade econômica e responsabilidade fiscal são condições necessárias para promover prosperidade duradoura. Nesse contexto, o crescimento acelerado da dívida pública em diversas economias foi apontado como um dos fatores responsáveis pelo baixo crescimento, pela inflação persistente e pelo aumento do custo de vida. Para o economista David Bahnsen, o excesso de endividamento frequentemente leva a novas intervenções estatais que, em vez de solucionar o problema, acabam alimentando um ciclo de baixo crescimento e maior dependência do Estado.
A mesma lógica orientou os debates sobre moradia e saúde. Embora políticas públicas voltadas à ampliação do acesso sejam motivadas pela intenção de beneficiar a população, os palestrantes argumentaram que intervenções excessivas podem produzir efeitos contrários aos pretendidos. Ao distorcer incentivos, restringir a oferta e elevar custos, essas políticas tendem a criar problemas cada vez mais difíceis de reverter, prejudicando justamente aqueles que pretendiam beneficiar.
Debates resgatam o Direito Natural como fundamento da justiça e da liberdade
Em diferentes conferências, juristas e filósofos defenderam que a forma como uma sociedade compreende a natureza da pessoa humana influencia diretamente sua visão sobre direitos, deveres, justiça e liberdade. Ao revisitar os Julgamentos de Nuremberg, a conferência lembrou que muitos dos líderes nazistas justificaram suas ações alegando apenas terem cumprido a legislação vigente. A partir desse episódio histórico, os debatedores argumentaram que princípios de justiça anteriores ao próprio Estado continuam sendo indispensáveis para fundamentar os direitos humanos e limitar o exercício do poder. O Direito Natural foi apresentado como um ponto de encontro entre pessoas de diferentes crenças e visões de mundo, justamente por partir da razão comum.
Os debates sobre imigração partiram do princípio de que solidariedade e responsabilidade não são conceitos incompatíveis. Daniel Di Martino, pesquisador do Manhattan Institute, defendeu que cabe aos governos proteger os direitos e a segurança de seus cidadãos, ao mesmo tempo em que reconheceu a dignidade daqueles que buscam em outros países refúgio, liberdade ou novas oportunidades. O desafio, segundo os palestrantes, está em equilibrar esses deveres de forma justa e prudente.
A Inteligência Artificial apareceu como um dos grandes temas desta edição
Em vez de concentrarem a atenção apenas nas possibilidades tecnológicas, os palestrantes chamaram a atenção para os efeitos dessas inovações sobre a liberdade, a formação moral e o comportamento humano. A avaliação predominante foi que a Inteligência Artificial amplia capacidades, mas não substitui o discernimento ético. Ao mesmo tempo em que facilita o acesso ao conhecimento, ela também pode fortalecer mecanismos de manipulação, concentrar poder e reduzir a autonomia das pessoas. Como resumiu um dos painéis, a principal crise provocada pela IA talvez não seja tecnológica, mas humana.
Também ganharam espaço os debates sobre a transformação das agendas ESG e Woke. Os conferencistas analisaram como grandes grupos financeiros e corporativos passaram a incorporar essas pautas como instrumentos de gestão de risco, influência institucional e posicionamento estratégico. Ao mesmo tempo, observaram que parte dessas agendas vem sendo reformulada diante das mudanças no cenário político internacional, adotando novas narrativas e diferentes formas de atuação sem necessariamente abandonar seus objetivos originais.
Delegação brasileira fortalece conexões e amplia sua presença internacional
Entre os brasileiros presentes, o deputado federal Marcel van Hattem palestrou no painel “Juristocracia e o Estado Democrático de Exceção”, no qual apresentou um panorama sobre o ativismo judicial no Brasil e descreveu à plateia a crescente restrição à liberdade de expressão nas redes sociais.
O evento contou ainda com uma delegação brasileira formada por lideranças do Instituto de Formação de Líderes – IFL, Students for Liberty, Instituto Liberal, Instituto Millenium, Instituto Isabel, Instituto Mises Brasil, Instituto de Estudos Empresariais, IBDR/IBDF, além de empresários, professores e parlamentares.
A expansão dessa rede internacional de formação tem sido uma das prioridades do Acton Institute. Como parte desse movimento, o Brasil sediará, nos dias 7 e 8 de agosto, em Belo Horizonte, uma edição da Acton Experience voltada ao público brasileiro. A programação reunirá especialistas nacionais e internacionais para aprofundar discussões sobre liberdade, Economia, Direito, inovação tecnológica, dignidade humana e os desafios contemporâneos enfrentados pelas sociedades livres.


