VILLA NEWS

Ovelhas Detetives divide crítica entre genialidade cômica e desastre narrativo

O filme As Ovelhas Detetives, a incursão de Kyle Balda na direção de live-action, chega ao Prime Video com a proposta peculiar de transformar um rebanho ovino em investigador de um assassinato. Inspirado pelo romance Três Sacos Cheios, de Leonie Swann, o filme acompanha as ovelhas de George (Hugh Jackman), um pastor que, sem saber, preparou seus animais para resolver o próprio crime ao ler romances policiais para eles todas as noites. A premissa, que coloca o grupo liderado pela inteligente Lily (dublada por Julia Louis-Dreyfus) em rota de colisão com o mundo humano, tornou-se o epicentro de um debate crítico marcado por divergências sobre a execução da narrativa.

O Desafio da Adaptação e a Essência Animal

A recepção da crítica aponta para uma desconexão entre o material de origem e a visão cinematográfica. Jill Lepore, escrevendo para a The New Yorker, é enfática ao sugerir que o diretor Kyle Balda, apesar de sua experiência em animações, parece desconhecer a natureza tanto das ovelhas quanto dos mistérios policiais. Para Lepore, a obra falha em capturar a essência proposta por Leonie Swann, onde as ovelhas não são meras representações humanas ou figuras mágicas, mas animais com pensamentos próprios e voltados para a sua realidade. Em sentido oposto, Nell Minow, do site Roger Ebert, celebra o filme como uma obra de “charme e sagacidade”, destacando a competência do roteiro de Craig Mazin em respeitar os fundamentos de um mistério do tipo fair play, onde todas as pistas necessárias estão acessíveis ao espectador atento.

A discussão sobre o comportamento animal também ganha contornos científicos na análise de Lepore, que questiona a subestimada capacidade das ovelhas de reconhecer rostos e analisar pistas — características que, segundo a autora, são frequentemente ignoradas pela trama, que prefere uma abordagem mais convencional.

Já o crítico de cinema Waldemar Dalenogare enxerga méritos na estrutura do mistério, elogiando o filme por “jogar limpo” com o público e evitar conveniências de roteiro no desfecho. O site Common Sense Media reforça essa visão, classificando o longa como um “mistério aconchegante” que utiliza a busca pelo culpado como um veículo para abordar temas profundos como o luto, a memória e o poder da inclusão dentro do rebanho.

Técnica, Atuações e o “Vale da Estranheza”

O aspecto técnico do CGI é um dos pontos onde a crítica encontra terreno comum, embora com ressalvas. Dalenogare destaca a verossimilhança da textura da lã e a movimentação dos animais como um triunfo, notando que o filme acerta ao não tentar humanizar excessivamente as expressões das ovelhas, o que evita o indesejado “vale da estranheza”. Minow corrobora essa impressão, descrevendo os efeitos visuais como “invisíveis” e impecáveis, capazes de conferir peso e volume aos personagens, integrando-os organicamente ao cenário bucólico.

Contudo, a harmonia técnica não se estende à representação humana. Dalenogare aponta os personagens de carne e osso como o elo mais fraco da produção, classificando-os como “cartunescos” e excessivamente incompetentes, uma escolha que, segundo ele, acaba destoando da verossimilhança construída em torno dos animais. Para Minow, no entanto, o elenco — que inclui nomes como Emma Thompson, Nicholas Galitzine e Nicholas Braun — compõe um cenário adequado para o mistério, com a advogada interpretada por Thompson servindo como uma peça fundamental na dinâmica da leitura de testamento, um tropo clássico do gênero.

Uma Experiência entre Gerações

Apesar das críticas sobre o ritmo e a falta de ousadia comparativa em relação a outras obras com animais, o filme encontra defensores na sua capacidade de atingir públicos de diferentes faixas etárias. Enquanto Lepore sugere que o espectador ficaria melhor servido lendo o livro original, Minow defende que As Ovelhas Detetives consegue o equilíbrio difícil de ser acessível aos jovens sem ser condescendente com o público adulto. O Common Sense Media corrobora o caráter familiar da obra, alertando apenas que, por tratar da morte do pastor e da origem da carne, exige cautela com espectadores mais novos.

Em última análise, o panorama crítico revela um filme que se sustenta na qualidade de seus talentos envolvidos — do roteiro de Mazin à trilha sonora de Christophe Beck — e na premissa inusitada de seu conceito. Se por um lado críticos como Lepore lamentam a perda da profundidade filosófica contida no romance de Swann, por outro, avaliadores como Dalenogare e Minow encontram na obra uma surpresa agradável, que consegue, apesar das oscilações entre o tom caricato dos humanos e a seriedade da investigação, entregar uma narrativa coesa sobre perda e cooperação.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *