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A família Bolsonaro fez do antipetismo um fim em si mesmo

O ex-presidente Jair Bolsonaro com os filhos Flávio, Eduardo e Carlos. (Foto: Roberto Jayme/Ascom TSE)

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Ainda em novembro de 2025, após o insólito episódio em que Jair Bolsonaro (segundo sua defesa, em um momento de “surto”) tentou remover sua tornozeleira eletrônica com um ferro quente, escrevi aqui nesta que Gazeta do Povo que a direita se via diante de um dilema: escolher virar a página ou ter Jair Bolsonaro como sua própria tornozeleira. A escolha foi pela tornozeleira.

Flávio Bolsonaro foi ungido, numa vitória política de seu próprio irmão, Eduardo. O cálculo ideológico sempre foi pragmático. Antes perder a eleição presidencial para Lula do que a hegemonia do antipetismo para alguém do próprio campo. É por isso, inclusive, que os demais pretendentes, como Tarcísio de Freitas e a própria Michelle Bolsonaro, foram alijados após rituais de humilhação.

Só depois da revelação das conversas entre Flávio e Daniel Vorcaro é que uma parcela da direita que ainda se mantinha alinhada com a família passou a pontuar críticas ao pré-candidato do PL. E também ela sofreu as consequências de levantar dúvidas, de exigir o mínimo de coerência

Também já havia escrito em 2025 que a oposição monopolizada pelo bolsonarismo havia se perdido “em expurgos e intimidações internas”. Michelle, por exemplo, que só é Bolsonaro no Cartório de Registro Civil, foi, desde a escolha por Flávio, um dos alvos preferenciais. O vídeo recente em que ela vocaliza as agressões sofridas só escancara o que todos já sabiam na prática.

Só depois da revelação das conversas entre Flávio e Daniel Vorcaro é que uma parcela da direita que ainda se mantinha alinhada com a família passou a pontuar críticas ao pré-candidato do PL. E também ela sofreu as consequências de levantar dúvidas, de exigir o mínimo de coerência. E isso, para Eduardo e seu séquito é inadmissível. É preciso engolir Flávio, pois ele é a escolha do pai e pronto. Que a “direita limpinha”, como eles dizem, que se conforme.

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O antipetismo é, a um só tempo, a principal fonte de capital eleitoral da família Bolsonaro e também o joguete com que ela pratica a mais escancarada chantagem política. O receito da continuidade de Lula é um instrumento de pressão quase psicológico sobre uma massa de eleitores que, acima de tudo, rejeitam o PT. Estes são instados a se despirem de seus pudores políticos morais em nome da grande causa, ignorando que, no processo, vão convertendo seus métodos e suas práticas naqueles mesmos que sempre condenaram quando imputados a Lula e seus companheiros.

O bolsonarismo não é apenas o maior empecilho para a viabilidade de uma oposição liberal-conservadora organizada e com agenda, é também responsável pela banalização do antipetismo, que, ao invés ser a consequência de um conjunto de valores afirmativos (diminuição do Estado, rigor no combate ao crime organizado, anticorrupção), sob a posse de Jair, Flávio e Eduardo, tornou-se em um fim em si mesmo.

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