O desabafo emocionado do influenciador Linkon da Voz, de Guarulhos (SP), relatando dificuldade de sustentar a família apesar do trabalho duro, constante e honesto alcançou estrondosa repercussão nas redes sociais nos últimos dias, tornando-se fenômeno com impacto na corrida presidencial.
Gravado na quinta-feira (25) em um ponto de ônibus da Avenida Paulista, o vídeo superou rápido a marca de 40 milhões de visualizações, transformando um drama individual em símbolo da perda do poder de compra do povo. Sem criticar diretamente o governo, a mensagem foi apoiada pela oposição.
Em poucos dias, o perfil de Linkon no Instagram saltou de 170 mil para mais de dois milhões de seguidores, conforme informa a plataforma. A rapidez da disseminação intrigou estrategistas políticos pois ocorreu só com base na espontaneidade, sem a ajuda do noticiário ou embates de candidatos.
Políticos exploram insatisfação com custo de vida alto para desgastar Lula
O testemunho de Linkon – que tem histórico de críticas a políticos em geral e foco no combate à dependência química e à cooptação de cidadãos por criminosos – estabeleceu conexão maior com o público conservador e deu impulso ao desgaste do governo com o alto custo de vida, pressionando a campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A repercussão do vídeo de Linkon extrapolou logo o ambiente digital. O empresário, influenciador e político Pablo Marçal (União) compartilhou o vídeo, convidou o trabalhador e a família para um encontro e passou a divulgar novos conteúdos ao lado dele. A iniciativa dividiu opiniões, que enxergaram solidariedade ou tentativa de capitalizar um sentimento coletivo.
Outros líderes da oposição passaram a utilizar o episódio como exemplo da distância entre indicadores macroeconômicos e a realidade da população. O presidenciável Renan Santos (Missão) repercutiu o vídeo como expressão do cotidiano de milhões de trabalhadores, seguido pelo deputado Kim Kataguiri (Missão). O ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL) compartilhou a publicação e reforçou críticas à condução da economia por Lula.
Além de Flávio Bolsonaro (PL), principal candidato da direita ao Palácio do Planalto, outras figuras de destaque da oposição, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), também impulsionaram o vídeo ou interagiram com o perfil de Linkon.
No registro principal, o trabalhador se emociona ao relatar o cansaço com o alto custo de vida no Brasil, afirmando que “trabalha, trabalha e não sai do lugar” e que até “carne moída virou luxo”.
Influenciador tenta não se posicionar diante da polarização eleitoral
Após o boom da publicação e de receber apoio público de empresários e de políticos, o influenciador gravou novos vídeos para rebater críticas sobre a suposta politização. Ele declarou que “político é funcionário público” e que o seu desabafo representava apenas a realidade do trabalhador brasileiro.
Em vez de escândalo político ou de choques institucionais, o cotidiano de um trabalhador foi assunto dominante no último fim de semana nas redes sociais, gerando narrativas acaloradas. Não demorou muito para surgirem vídeos de outros cidadãos se queixando de preços de alimentos em mercados.
Para analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, o relato sintetizou a sensação de que trabalhar duro não garante vida confortável. O preço dos alimentos, do aluguel, das contas básicas e a perda do poder de compra têm um rosto, produzindo um nível de identificação que propaganda partidária não atinge.
Segundo eles, a repercussão mostrou que as redes sociais passaram a funcionar como importante definidor da agenda eleitoral. Se por décadas pronunciamentos de políticos determinavam sozinhos temas da campanha, hoje relatos espontâneos de cidadãos conseguem disputar esse espaço.
Especialista vê participação direta do cidadão comum no debate eleitoral
Para o cientista político Ismael Almeida, a grande repercussão do vídeo de Lincoln se deve à identificação que milhões de brasileiros tiveram com seu relato, indo além das classes historicamente menos favorecidas. “Não foi o relato sobre a vida de uma pessoa, mas de uma realidade que atinge hoje até a classe média, com dificuldades de custear suas despesas básicas”, diz.
Segundo ele, a dor expressa por um cidadão, sem vitimismo e sem abrir mão da postura de quem busca sustento pelo esforço pessoal e honesto, também reflete o cansaço crescente na sociedade com o quadro econômico adverso. “É nesse ponto em que o desânimo pode dar lugar à coragem, de não aceitar algo que o oprime e ainda perceber que poderosos seguem intocados”, completa ele. O especialista vê nesse fenômeno um momento com potencial de mudar o curso das tendências políticas e eleitorais.
Analistas avaliam que cidadãos independentes afetam o jogo eleitoral
Para estrategistas eleitorais, a principal mudança é que o controle da narrativa se tornou muito mais difícil. Um vídeo gravado com um telefone celular pode alcançar audiência superior à de campanhas produzidas com elevados investimentos, sobretudo quando traduz sentimentos já presentes na sociedade. O caso de Linkon tornou-se exemplo dessa nova dinâmica.
Nos últimos anos, diferentes episódios seguiram essa mesma lógica. Relatos de vítimas da criminalidade, de pequenos empresários pressionados pelos custos, de aposentados afetados por fraudes ou de cidadãos prejudicados por falhas nos serviços públicos ganharam repercussão nacional e obrigaram candidatos a responder a temas ignorados.
O governo intensificou recentemente a divulgação de programas voltados ao bolso da população e passou a reconhecer que o custo de vida continua elevado. Para a oposição, porém, o vídeo reforça críticas relacionadas à inflação dos alimentos, à elevada carga tributária, ao baixo crescimento da renda, à produtividade estagnada e às incertezas fiscais, fatores apontados como responsáveis pela percepção de perda do poder de compra.
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