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Bombeiros, rota terrestre e porta-helicópteros: como o Brasil pode agir no terremoto na Venezuela

O Brasil tem condições logísticas, materiais e estratégicas para prestar assistência rápida à Venezuela no socorro à catástrofe provocada pelos terremotos devastadores da quarta-feira (24). Entre as opções estão o envio de socorristas ou tropas por via aérea e terrestre e o deslocamento do porta-helicópteros Atlântico – navio de guerra projetado para exercer a função de ajuda humanitária.

Analistas ouvidos pela reportagem avaliam que, caso resolva se envolver de verdade, o governo pode romper o isolamento internacional do Brasil.

“Os Estados Unidos já estão com ajuda a caminho, possivelmente a China vai tentar agir também. O reordenamento político em curso na América do Sul vai ser muito influenciado pelo socorro ao terremoto. O Brasil pode participar desse processo por meio da diplomacia humanitária”, disse o general da reserva André Luís Novaes Miranda, ex-comandante do Comando de Operações Terrestres do Exército e analista de geopolítica da FGV.

Apesar de ter uma vantagem geográfica e estratégica, o governo Lula ainda não anunciou medidas concretas de assistência. Em nota divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores, o Brasil manifestou solidariedade às vítimas, informou que não há registro de brasileiros entre os mortos e feridos e manteve o plantão consular ativo, mas não detalhou o envio de equipes, recursos ou suprimentos para o país vizinho.

Em publicação no X, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez menção ao envio de apoio, mas sem detalhar ações. “Instruí o ministério das Relações Exteriores que avalie, juntamente com a embaixada do Brasil em Caracas, a situação no país e as medidas de assistência que o Brasil possa adotar”, escreveu o petista.

A cautela adotada pelo governo contrasta com a capacidade logística brasileira e com a movimentação de outros governos que já começaram a organizar apoio aos venezuelanos.

O coronel da reserva do Exército, mestre em Operações Militares, Paulo Filho, colunista da Gazeta do Povo, aponta que o Brasil dispõe de meios prontos para uma resposta imediata, caso haja decisão política para isso.

“Pode enviar equipes de socorro e resgate. Certamente os corpos de bombeiros do país possuem equipes treinadas e em condições de serem acionadas. Pode enviar comboios com suprimentos de primeira necessidade. Não vejo por que tenha que demorar”, afirmou.

Brasil pode fazer ponte aérea e enviar mantimentos e socorristas

As primeiras respostas internacionais a catástrofes de grande magnitude ocorrem necessariamente por via aérea, mas primeiras 24 ou 48 horas. Isso porque o transporte naval pesado pode levar dias para ser organizado.

Os Estados Unidos já anunciaram que o socorro será “grande, rápido e efetivo”. Segundo André Novaes, umas das primeiras medidas americanas deve ser pousar nos aeroportos de Caracas ou La Guaíra, que estão atualmente fechados, para desobstruir as pistas, ativar novas torres de controle e reestabelecer o tráfego aéreo militar.

Uma grande quantidade de aeronaves de carga deve então passar a operar transportando socorristas, material de apoio e mantimentos. O Brasil já participou de uma operação muito similar no megaterremoto de 2010 no Haiti. Na época, a Força Aérea criou uma ponte aérea sem precedentes na história brasileira com o envio ininterrupto de aeronaves para Porto Príncipe. Na fase mais crítica da crise ocorriam três pousos diários de aeronaves Hércules C-130 e KC-137 repletos de mantimentos e tropas.

Hoje a FAB possui oito aeronaves de carga Embraer KC-390 Millennium, das quais em média três costumam ser mantidas prontas para uso imediato. Elas poderiam ser integradas à operação americana levando comida, medicamentos e bombeiros brasileiros e retirando civis do território venezuelano.

Em teoria, tropas das Forças Armadas poderiam atuar desarmadas, mas usando a farda brasileira, em ações de resgate, desobstrução de vias e recuperação de corpos.

Especialistas em operações de resgate alertam que o fator tempo é determinante em situações de colapso estrutural após terremotos.

“Numa situação como essa, as pessoas podem conseguir sobreviver até 10 dias sob os escombros, mas vai depender muito da infraestrutura, do tipo de ajuda, o quão rápido ela chega e se tem informações suficientes dos pontos que mais necessitam”, afirmou o capitão da reserva do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, Léo Farah.

Rota terrestre é vantagem estratégica

A existência de uma rota terrestre, com cerca de 1.300 quilômetros de estradas ligando Pacaraima (RR) a Caracas coloca o Brasil em uma posição privilegiada para fornecer assistência ao povo venezuelano.

Bombeiros, resgatistas e material de socorro podem ser enviados a Boa Vista por via aérea, seguir em automóveis e chegar em Caracas com equipamento completo em aproximadamente três dias.

A grande vantagem desse tipo de operação por via terrestre é que os socorristas podem levar seus próprios meios de transporte. Se fossem de avião, teriam que depender da logística das forças armadas da Venezuela, que possivelmente já estão sobrecarregadas.

Outra possibilidade é enviar combios de caminhões com alimentos, medicamentos e itens de higiene e limpeza que já estiverem disponíveis em Manaus (AM). Um comboio humanitário em tese poderia chegar à capital venezuelana em cinco dias de viagem.

Segundo o general Novaes, essas possibilidades dependeriam das condições das estradas do lado venezuelano. Há 27 pontes entre Pacaraima e Caracas e se o terremoto tiver destruído alguma delas esse tipo de ação pode ser comprometida.

Mas, se a rota terrestre estiver liberada o governo brasileiro tem uma oportunidade. Só o Brasil e a Colômbia possuem rotas terrestres para envio de ajuda à Venezuela. A Colômbia tem uma estrada de 640 quilômetros que liga Cúcuta a San Felipe, em Yaracuy, epicentro do terremoto.

Brasil dispõe de navio capaz de operar como hospital e base aérea

O Brasil conta com uma das ferramentas mais robustas de sua estrutura militar para operações de apoio humanitário: o Navio-Aeródromo Multipropósito (NAM) Atlântico, navio capitânia da Marinha brasileira e considerado um dos principais ativos de projeção logística do país.

O navio foi projetado para desempenhar múltiplas funções em cenários de crise, combinando capacidade de transporte de tropas, veículos e suprimentos com estrutura para operações aéreas embarcadas. Em termos práticos, pode funcionar como uma base flutuante de apoio, capaz de operar com até 18 aeronaves, especialmente helicópteros, realizar evacuações médicas e servir como plataforma de coordenação de missões em áreas com infraestrutura terrestre comprometida.

Na prática, o Atlântico pode ser mobilizado como um hospital de campanha ampliado, com capacidade para atendimento emergencial a feridos em situações de grande escala, além de permitir o deslocamento de equipes médicas e de resgate para regiões costeiras afetadas. Sua autonomia operacional e sua estrutura interna o tornam especialmente útil em cenários em que aeroportos e estradas estão danificados ou sobrecarregados.

O Atlântico já era usado pela marinha britânica em missões humanitárias. Antes de ser vendido para o Brasil se chamava HMS Ocean e participou em 2017 do socorro às vítimas do furacão Irma, um dos mais fortes da história do Caribe. Quando foi acionada na operação Ruman, a embarcação estava no Mar Mediterrâneo e levou duas semanas para ser carregada com mantimentos e chegar ao Caribe.

Um dos exemplos mais recentes de utilização do Atlântico foi no atendimento a vítimas das chuvas que atingiram São Sebastião, no litoral de São Paulo, em fevereiro de 2023. Na oportunidade, o navio funcionou como um hospital de campanha, oferecendo mais de 200 leitos, incluindo Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Atualmente atracado na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, o Atlântico precisaria de 2 a 4 dias para ser tripulado e carregado. Navegando em velocidade de emergência e contando com correntes favoráveis poderia chegar à costa venezuelana em cerca de 8 dias.

Diversos países já anunciaram ajuda

Enquanto Brasília avalia quais medidas poderá adotar, diversos países já anunciaram ou colocaram em preparação ações de assistência à Venezuela.

Os Estados Unidos foram um dos primeiros a indicar atuação direta, com a oferta de envio de equipes de busca e salvamento urbano e apoio técnico em operações de resgate. A sinalização partiu do Departamento de Estado e inclui coordenação com agências federais especializadas em resposta a desastres, tradicionalmente mobilizadas em crises internacionais.

O México anunciou o envio de equipes da Cruz Vermelha e de especialistas em resgate, além de apoio material voltado ao atendimento emergencial de vítimas. O governo mexicano também colocou à disposição aeronaves para transporte de insumos e possíveis evacuações médicas, em coordenação com autoridades locais.

A Espanha informou a preparação de uma missão humanitária com foco em apoio médico e logístico, incluindo o envio de profissionais de saúde e kits de emergência. O governo espanhol também destacou que está em contato com autoridades venezuelanas para definir áreas prioritárias de atuação.

Já países da América Latina, como Equador e República Dominicana, anunciaram contribuições em diferentes formatos, principalmente envio de suprimentos, medicamentos e apoio financeiro emergencial a organizações humanitárias que atuam no terreno. Em alguns casos, as medidas foram formalizadas por meio de declarações conjuntas com agências de defesa civil ou ministérios de relações exteriores.

El Salvador também indicou a mobilização de equipes especializadas em busca e resgate, além de apoio técnico para avaliação estrutural de edifícios colapsados.

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